Catadores, cuidado

O interesse público é um clichê jogado no lixo

“Ei, Tio, tem um real aí?”

Para atender a pedidos como esse, há pessoas que carregam algumas moedas. A doação não é solução, mas ameniza a situação do infeliz e alivia a culpa do doador por viver alguns degraus acima do subemprego.

No entanto, como as coisas estão piorando, cabe perguntar quando chegará o dia em que não bastarão moedinhas ou notas de baixo valor para contentar os subtrabalhadores esfarrapados que nos estendem as mãos, sem esperança em promessas do Mercado de Trabalho ou de algum governo.

Ninguém precisa fazer conta para concluir que a situação piorou. É impossível não reconhecer o aumento do número de catadores que vão passando com seus carrinhos de compras.

Com base nos dados do Censo de 2010, havia então 398,3 mil catadores de lixo no país. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), eles obtinham um ganho médio mensal 10% acima do salário mínimo – hoje seria um pouquinho acima de 1 mil reais. O problema é que hoje há mais catadores do que antes e, com a crise econômica, o volume do lixo diminuiu.  

Em 1988, um catador precisava de 40 latinhas para reunir um quilo de metal. Hoje, vinte anos depois, para fazer o mesmo quilo do metal reciclável, é preciso juntar 70 latinhas, pois elas ficaram mais levianas, menos espessas.

Quanto ao valor recebido, as latinhas deixaram de ser o top de linha da reciclagem. Papelão está na frente, seguido pelos plásticos. Garrafa vazia, junto com o papel jornal, não vale quase nada. Enfim, também no valor dos materiais recicláveis, quem manda é o Mercado.

Desanimado, o catador apela:

“Ei, Tio, tem um real aí?”

E aí desponta nítido o outro lado da moeda: o R$ que começou numa incrível paridade com  o dólar (R$ 1,00 para US$ 0,86) nos idos de 1994, marco zero do Plano Real, está valendo menos de um terço do que valia há 24 anos.

Ou, seja, comparado com a moeda internacional mais cotada no mundo, o real perdeu mais de 200% do seu poder de compra original, coisa que se reflete nas trocas internacionais do Brasil, inclusive na cotação dos títulos que o governo brasileiro coloca no mercado de capitais para financiar a dívida pública, cujo montante se aproxima do total do Produto Interno Brasileiro.

O ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT) bateu nessa tecla durante a campanha eleitoral do primeiro turno: metade do Orçamento federal está comprometido com o pagamento de juros e amortizações da dívida.

Não é por acaso que investidores estrangeiros estão comprando empresas brasileiras ou ocupando espaços econômicos que poderiam ser preenchidos por capitais nativos.

O interesse público é um clichê jogado no lixo.  

O resultado de toda essa brutal desigualdade é visível nas ruas, onde se amontoam os pobres diabos que tentam tirar o sustento do lixo descartado pela sociedade estabelecida.  

LEMBRETE DE OCASIÃO

“Existe um povo que a bandeira empresta  
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...  
E deixa-a transformar-se nessa festa  
Em manto impuro de bacante fria!...  
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,  
Que impudente na gávea tripudia?  
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto  
Que o pavilhão se lave no teu pranto!

Auriverde pendão de minha terra,  
Que a brisa do Brasil beija e balança,  
Estandarte que a luz do sol encerra  
E as promessas divinas da esperança...  
Tu que, da liberdade após a guerra,  
Foste hasteado dos heróis na lança  
Antes te houvessem roto na batalha,  
Que servires a um povo de mortalha!”

Trecho do poema Navio Negreiro, de Castro Alves (1847-1871).

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