Conrad no coração das trevas

A faceta macabra do novo colonialismo da era industrial

 

Joseph Conrad foi um escritor britânico de origem polaca que se destacou como escritor na virada do século XIX para o XX. Suas estórias se basearam principalmente em relatos de marinheiros e no mar. Sua obra mais conhecida é a novela "O Coração das Trevas" que começou a ser publicada em forma serial em 1899, e pela primeira vez em livro em 1902 no volume Youth, junto com duas outras obras.
 
Conrad antes de se tornar escritor se aventurou na Marinha Mercante e chegou a conhecer alguns lugares inexplorados pelos europeus como o rio Congo em 1890. Tais viagens ao coração da África certamente lhe trouxeram novas visões sobre a civilização e as diferenças brutais entre as culturas europeia e as tribos perdidas do continente africano. A novela "O Coração das Trevas" é exatamente o reflexo dessas viagens, uma novela moderna em que as mazelas do novo colonialismo da era industrial mostra a sua face macabra.
 
Então, para situar O Coração das Trevas no seu sentido maior, ela é o retrato de uma incursão dentro do desconhecido, a viagem do narrador Marlow em busca do misterioso Kurtz que está "no coração das trevas", uma narrativa moderna do chamado narrador "incontrolável" de que se valeu Conrad também em obras como Lord Jim (1900) e Youth (1902).
 
O novo colonialismo, desta vez não mais do mercantilismo português e espanhol que houvera nos séculos XIV e XV, mas sim de uma necessidade de expansão capitalista insaciável da revolução industrial, com a Inglaterra na frente, levou países europeus e os Estados Unidos a tomarem para si novos territórios agora na África e na Ásia, numa apropriação de riquezas tais como o marfim, e o Reino do Kongo foi um desses lugares de exploração, o qual aparece na novela de Conrad citado como "a desembocadura do rio Congo".
 
A busca incessante do narrador Marlow pelo enigma Kurtz nos mostra um trajeto em que ficam os brancos exploradores de um lado, com suas ilusões de uma verdade "civilizada", a ilusão de terem uma missão de expansão dos valores europeus e ocidentais às custas de violência e de invasão para alimentar a economia e abrir novas frentes para o capitalismo industrial, e uma cultura exótica que negava todos esses valores civilizatórios, de um "inferno" na selva que Marlow testemunha e que busca entender ao sair atrás de um Kurtz, o único homem branco que poderia entender "o coração das trevas", aquele que abandonou a si mesmo na última fronteira da exploração do marfim e se tornara um misterioso chefe do qual todos temiam e do qual qualquer palavra era oráculo para os que o cercavam. Mas Kurtz era nada mais que a imagem decadente de um projeto civilizatório que não reconhecia a alma humana de uma cultura diferente, era o senhor do marfim no seu refúgio, na sua fuga, e que se tornara o grande sábio que tinha o enigma da selva, e era isso que o narrador Marlow de Conrad buscava, o que era aquilo tudo, o que era o "coração das trevas".
 
Conrad consegue na novela "O Coração das Trevas" uma superação, na narrativa, da "onipresença" do romantismo e da objetividade realista ou naturalista. O narrador em Conrad é protagonista, mas não tem uma verdade verossímil e nem uma autoconsciência de todo o enredo, é um narrador que carrega o leitor junto de si no desvendamento dos acontecimentos. Marlow é um marinheiro, Conrad revela nele a sua própria experiência de vida como explorador de mundos desconhecidos, Kurtz é o alterego que tem o enigma da
 
selva, mas que é também decadência e niilismo, Kurtz é o oráculo em que o segredo das trevas está, mas o inferno ali também está, a vida endurecida do colonialismo ali também está, todas as contradições da civilização e da selva em luta acabam no homem chamado Kurtz, aquele em que a velha Europa encontra o "coração das trevas".
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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