Crimes sem castigo

A tragédia de Brumadinho, três anos depois do crime da Samarco, é mais um exemplo do descaso e da irresponsabilidade

Três anos depois da tragédia de Mariana, o mesmo ato criminoso se repete, desta vez em Brumadinho, também em Minas Gerais, em uma proporção muito maior: 60 vítimas fatais, número com possibilidade de ultrapassar os 300, caso sejam confirmadas as mortes dos 292 desaparecidos. De quem é a culpa?

“Esse é o resultado de leis frouxas, o alargamento de barragens nunca devem ser feitos para montante, mas sim para jusante, porém para jusante fica muito mais caro, então vamos fazer o mais barato e correr o risco de matar pessoas”. 

A resposta, de um engenheiro especializado em barragens, bate com o plano de negócios da mineradora Vale S.A., no qual o lucro está acima de qualquer coisa, até mesmo de vidas humanas. Josés, marias, antônios e centenas de outros, soterrados debaixo da lama, são apenas números, bem abaixo do patamar das ações nas bolsas de valores e dos dividendos pagos aos acionistas.  

Do mesmo jeito que em Mariana, quando a barragem de Fundão, da Samarco/Vale-BHP, se rompeu. Três anos depois, o programa de amparo às famílias vitimadas, as medidas para recuperação do meio ambiente e de cadeias produtivas, em Minas e no Espírito Santo, o pagamento de multas, tudo caminha a passos lentos.  

Isso porque, passada a comoção inicial, a marcha dos acontecimentos passa a ser ditada por instituições comprometidas com um modelo de desenvolvimento econômico construído por meio de negócios e também negociatas, de políticos parceiros e sempre atentos a auferir vantagens, com os poderes públicos debaixo da tutela do capital. 

Assim é, desde a criação da Vale, em 1942: em Mariana, Brumadinho, na Grande Vitória com o pó preto que invade os nossos pulmões, mas que, pela força dos acordos de gabinete, pode parecer vantajoso, maquiado com parte dos lucros erguendo áreas de lazer. Como que hipnotizada, a população se deleita e até se esquece de questões que a afetam diretamente. 

Seria desse modo neste domingo (3), na inauguração do parque Atlântico, no final da praia de Camburi, construído pela Vale por meio de um acordo com a Prefeitura de Vitória. A obra vem no lugar do anunciado Parque Zé da Bola, projeto grandioso do prefeito que nunca saiu do papel, em decorrência da ineficiência da atual administração. 

O prefeito Luciano Rezende e o vereador e deputado estadual eleito Fabrício Gandini, ambos do PPS, tiveram que cancelar a festa, que funcionaria, também, como mais um passo do vereador para a disputa à sucessão de Luciano, em 2020. A lama de Brumadinho pesou mais. 

As leis são frouxas e continuarão a sê-lo, porque afinal até o próprio presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), disse que esse negócio de multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) vai acabar, para dias depois afirmar em Davos, na Suíça, perante os ricos do mundo, que o Brasil cuida bem do meio ambiente, confirmando a primazia do engano. 

Nesse cenário, Mariana e Brumadinho são crimes sem o devido castigo, que tendem a se repetir. 

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