Depende de quem lê   

O ideal seria uma eleição que abrisse brechas para uma coalização programática. Mas isso será impossível até o 2º turno

Claro que o ideal seria uma eleição que abrisse brechas para uma coalização programática. Mas isso, pelo andar dos fatos, será impossível até o segundo turno. O jeito é atender ao conselho de Napoleão diante do momento político. Dizia ele que a naturalidade é a boa conselheira para as soluções   políticas. Revelava mais: pode ser até imperativa.

Numa carta escrita da Polônia à Josefina, dizia que “Tenho um amo sem entranhas – é a natureza das coisas”. Interpretando o conselho de Napoleão dir-se-á que era a indicação, partida de um homem do poder e do destino, para a naturalidade, a qual, em termos de convivência nacional, se traduz pelo princípio da legalidade, ou seja, submissão à lei. Quem, em sã consciência, teria essa tranquilidade hoje?

Estamos assistindo ao novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, pregar uma conciliação entre os próprios ministros que, publicamente, andam dizendo horrores uns dos outros. Providencial? Sim. Nas incursões sinuosas até onde chega a sua proposta? O que tem de prático nisso?

Não estou dizendo que seja uma má escolha ou que não seja oportuna. Faz uma boa leitura do momento. Mas, por outro lado, é difícil acreditar que essa conciliação vá mudar posições ideológicas consolidadas, pela própria formação, por exemplo, entre Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso. Além disso, lidará a intenção do ministro com egos insuportavelmente adensados.

O que mais me intriga em tudo isso – e não deixa de ser uma estratégia política hábil – foi a contratação, pelo novo presidente, de um general quatro estrelas da reserva para assessor do Supremo. Élio Gaspari, que escreveu uma obra primorosa sobre todo o período da ditadura militar e sabe de tudo sobre o assunto, se espantou com a contratação do general. 

O presidente Tófoli é egresso das lutas políticas do PT e isso quer dizer muito em todos os sentidos. Até mesmo na nomeação do assessor egresso das fontes militares. Segundo Tófoli, quando a política falha, entra em ação o Poder Judiciário. “Resta o pacto fundamente, a autoridade da Constituição e do Direito”, ressaltou. No entanto, diz que o Brasil não está em crise, mas em transformação. E cita Humberto Eco sem que se possa tirar uma conclusão: “estamos vivendo uma espécie de balsa que nos levará a um presente ainda sem nome”

E tem mais. A candidatura de Fernando Haddad (PT) sobe nas pesquisas. Haddad é hoje um boneco que se move por meio de cordéis e articulações de Lula, na cadeia. Só Deus pra saber até aonde ele vai chegar. Não se trata de alarmismo, mas as declarações do candidato a vice de Bolsonaro (PSL), general da reserva Mourão e seus companheiros trazem, no ar, um cheiro estranho de enxofre para quem já viveu momentos tenebrosos em razão de um quadra da história que deve ser afastada da vida nacional. Porém, a história é implacável.

É momento de parar e ler ou reler a coleção sobre da ditadura militar escrita por Élio Gaspari, o fazendo com ondas e profundas reflexões. Ou então, é bom que se diga, voltar aos livros para de lá trazer a intensa obra de Lauro Escorel sobre o pensamento político de Maquiavel, que, aliás, pode servir, igualmente, de código de tiranos e de arma de homens livres, como dizia Sanctis. Depende de quem lê.   

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