Desmonte acelerado

A desconstrução de programas essenciais ao desenvolvimento recebe o tiro misericórdia com o corte de verbas das universidades

Estamos perdendo. A nação, a política, a ética e a moralidade, e a sensatez, com o banimento do ato de pensar seguindo uma linha de desequilíbrio: todos nós, mesmo os que ajudaram a eleger o governo Jair Bolsonaro e hoje expressam arrependimento e também aqueles que ainda teimam em defender o indefensável. Vivemos o retrocesso. 

Há ainda quem ache que as coisas estão no caminho certo e se juntam aos defensores da reforma da Previdência como tábua de salvação das finanças do país e esquecem, como por exemplo, a sonegação bilionária de corporações transnacionais. A Vale está aí mesmo para comprovar essa situação. Envolvida nos crimes decorrentes dos rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho, a empresa goza de privilégios somente concedidos a bancos e outros poucos agraciados. 

Estudo do Instituto de Justiça Fiscal (IJF) concluiu que a Vale praticou, entre 2009 e 2015, sonegação de impostos de ao menos R$ 24 bilhões, a   partir de contratos com a Suíça para exportação de minérios de ferro com preço distorcido. 

Apesar de grave, essa situação isolada ainda é muito pequena diante do estrago generalizado gerado pela vassalagem aos Estados Unidos, a entrega das riquezas nacionais, especialmente na área mineral, da Amazônia e de sistemas relacionados à segurança nacional. 

Um quadro desalentador, que se torna mais sombrio com o estímulo à posse do porte das armas de fogo, marca da campanha que elegeu Bolsonaro, com fortes indícios de um lobby da poderosa Associação Nacional de Rifles da América ((National Rifle Association of America, ou NRA). Para atentos observadores, não é à toa que o senador Marcos do Val (PSB), uma espécie de Rambo dos trópicos, não se cansa em exibir seus 14 reluzentes fuzis, ao se proclamar como instrutor da Swat, a polícia de choque estadunidense. 

Com as instituições em clima conturbado, sem excluir nem mesmo o Supremo Tribunal Federal (STF), que há muito perdeu, por atos praticados, a condição de guardião da Constituição Federal, o país recebeu o que talvez seja o tiro de misericórdia que o levará a décadas de atraso: o corte de 30% nas verbas das universidades públicas e dos institutos de educação, ameaçando áreas essenciais ao desenvolvimento nacional. 

O anti-intelectualismo entranhado no governo, resultante da ignorância do presidente e de sua equipe de gestores, por vezes pela via religiosa, hostiliza as áreas do conhecimento e da pesquisa e as coloca como alvo de ações de desconstrução do pensamento crítico, democrático, no qual se assenta o debate, o necessário contraditório, como ponto de partida para se alcançar maior justiça social. 

O Brasil vive a fase idêntica à que antecedeu o caos atual na vizinha Argentina, com a economia liberal controlada pelo mercado, cujo objetivo é somente o lucro e da qual temos um ativo representante, o ministro da Economia, Paulo Guedes. Nesse ambiente de destruição, cabe culpá-los? 

À primeira vista, a resposta seria afirmativa. No entanto, em análise mais apurada, depois de constatar que as empresas e os liberais fazem o que lhes é comum, a obtenção do lucro, a conclusão mais lógica é que a responsabilidade deva recair sobre a classe política, excetuando uma minoria significativa, refestelada que está em seus próprios interesses. 

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