Ditadura nunca mais

Ato público na Assembleia tem a marca de contradizer defensores da intervenção militar

Embora tardia, a devolução dos mandatos de deputados estaduais no Espírito Santo cassados pela ditadura militar, em ato realizado na Assembleia Legislativa na terça-feira (12), se reveste de um simbolismo muito forte. 
Apropriado para contradizer milhares de desavisados e outros tantos desinformados que, irresponsavelmente, bradam pela intervenção fardada nos destinos do Brasil. 
A homenagem prestada aos ex-deputados estaduais José Ignácio Ferreira e Dailson Laranja representa uma reparação histórica, embora não tenha o alcance que ainda se faz necessário para revelar todas as atrocidades cometidas naquele período nefasto, apesar dos trabalhos, em nível de Brasil, da Comissão da Verdade e de outros núcleos de investigação que trouxeram à tona fatos, mas foram parados na fase de apontar os culpados.
Somente neste ano, os crimes dos ditadores vieram a ser revelados em documentos do serviço secreto norte-americano, que apontam os ditadores Geisel, Figueiredo e Médici como ordenadores de torturas e  assassinatos cometidos nos quartéis. Sem maiores consequências, em decorrência de apressadas medidas para minimizar o nível das atrocidades cometidas. 
O ato simbólico da devolução dos mandatos dos dois personagens da política do Espírito Santo, por iniciativa do ex-deputado Carlos Vereza (PT) e da deputada Luzia Toledo (MDB), gera uma reflexão sobre o contexto nacional a partir do golpe militar, levando em conta que vários dos personagens ainda desenvolvem atividade política, com poder de mando em todos os níveis da administração pública. 
O que fica do ato promovido pela Assembleia, além da homenagem a personagens que vivenciaram maus tratos no período, como o repórter fotográfico Gildo Loyola e o ex-combatente Granja, de 104 anos, é a marca de remar contra a maré de ódio, de centralização de poder e da manutenção de privilégios seculares da elite que se espalha pelo País. 
Personagens que viveram aquela época  são lições vivas de história, um para o lado da justiça social, outros, peças na engrenagem que move a população para o lado duro da sobrevivência humana, onde não há lugar para o pluralismo de idéias, o debate democrático e o acolhimento dos desgarrados. 
Aqueles que defendem a intervenção militar para colocar as coisas nos trilhos são os mesmos que estimulam a desigualdade em todos os níveis, o armamento da população a bradam contra pobres e pretos. Muitos apoiam o sequestro do Estado pelas corporações religiosas e empresariais e desconhecem desmandos de gestores públicos.
Não sabem o que é justiça social, mas cantam a democracia sem nem saber do que se trata. 
  • Palavras-Chaves
Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para manter ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.