E depois da comoção?

As medidas preventivas anunciadas depois de crimes como a de Brumadinho quase nunca se consolidam

Quando passar a comoção gerada pelo crime da Vale em Brumadinho, Minas Gerais, o que virá? Quais as mudanças no cenário da mineração no Brasil? São perguntas cujas respostas dirão se o sentimento de indignação do presente será capaz de promover alterações no sistema caótico do futuro.

Basta uma volta de três anos no tempo, até o crime da Samarco/Vale-BHP, em Mariana, também Minas Gerais, e observar o andamento dos processos para garantir a reparação dos danos às famílias atingidas e a recuperação da bacia do Rio Doce até sua foz, em Regência, Linhares, norte do Espírito Santo. A resposta é extremamente negativa. 

O que se vê é a dura realidade do descaso, patrocinado pela morosidade da Justiça, em meio a conchavos e omissão de lideranças políticas que confirmam a máxima que diz: "com o tempo as coisas se ajeitam". 

Os 19 mortos registrados no crime de Mariana, em 2015, além dos danos socioambientais causados ao longo o Rio Doce e no mar no Espírito Santo não foram suficientes para alterar a legislação do setor de mineração. Tanto é assim que o mesmo ato criminoso, fruto da negligência e irresponsabilidade, se repete em Brumadinho. 

Após crimes tão revoltantes, há a obrigação, nos círculos institucionais, de anunciar medidas punitivas, abertura de processos, multas e prisões de executivos que raramente acontecem. No Espírito Santo, o governador Renato Casagrande reuniu o secretariado e determinou ações preventivas nas barragens existentes no Estado; o prefeito de Vitória, Luciano Rezende (PPS), cancelou a inauguração do Parque Atlântico; e políticos usam as redes sociais e buscam emissoras de TVs e jornais. Essa movimentação, no entanto, tende a esfriar, como mostra a história. 

Sabe-se que, nos dois casos, a responsabilidade da Vale está diretamente ligado à política de contenção de despesa da empresa e a busca do lucro a qualquer custo, como faz também no Estado ao se negar a minimizar os elevados índices de poluição do ar. Sacrifica-se tudo, até vidas humanas. Tecnologias avançadas são rejeitadas por causa dos custos e, desse modo, as operações se desenvolvem sempre dentro do patamar de “risco permanente”. E nada é feito, efetivamente, para mudar o quadro. 

Exemplos do descaso estão bem à mostra, inclusive em recentes declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL), segundo as quais “a festa das multas do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) vai acabar". Medidas visando endurecer o licenciamento e a fiscalização às mineradoras  permanecem engavetadas. A omissão é generalizada. 

Por todo esse quadro, a pergunta sobre o que virá depois de passada a comoção é plenamente necessária e justificável. Um rápido olhar sobre o estrago provocado pelo crime da Samarco/Vale-BHP dá a clara demonstração: três anos depois, nada mudou. 

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1 Comentários
  • Flavio Berthoud , quarta, 30 de janeiro de 2019

    Realmente é Grande a possibilidade que nada seja feito depois de passada a Comoção do momento. Entretanto, tem que ser reconhecido que o atual Presidente da VALE está tendo postura bastante firme e correta quanto a praticar ações que venham no sentido de corrigir os erros que permitiram esse novo CRIME AMBIENTAL. Assim, considerando que outro CRIME AMBIENTAL, que é o é lançamento na atmosfera de mais de 16t/dia de Pó Preto e de Gases Poluentes, oriundos das Chaminés da VALE, seria oportuno se o SÉCULO DIÁRIO fizesse uma matéria objetiva e mostrasse que existe solução para se eliminar, de imediato, cerca de 60% desse Pó Preto. Essa solução é de conhecimento da VALE, e está sendo implantada pela mesma, ainda que no ritmo anterior da VALE, ou seja, de forma lenta. Assim se o Presidente da VALE também der importância à necessidade de eliminar esse CRIME AMBIENTAL, adotando a mesma postura que está tendo em relação a Brumadinho, a Grande Vitória poderá se ver livre do Pó Preto em prazo bastante curto.