Esticando a corda

A paixão pelo ser impede a neutralidade necessária para a reflexão e julgamento de suas atitudes

A divisão dualista do povo brasileiro em situação e oposição coloca no front a exposição de erros e acertos de setores políticos antagônicos. Naturalmente, o grosso da população não tem uma visão clara da situação, se move impulsionado pelas redes sociais e o fácil jornalismo de repercussão. Qualquer aprofundamento, por mais sério e respaldado que seja, terá sempre seu deslocamento para a face de seu lado “próprio”, seguido pela “desqualificação por sua tendência”, independente da segurança da fonte.

A partir do lado assumido pelo observador a verdade se aloja, seguindo uma liquidez baumaniana que exclui a reflexão e segue o fluxo.

Assim, assistimos disparates de contradições que deixam claro a falta de coerência, de um pensamento hegemônico ligado ao bom senso, daquela concordância inevitável diante de fatos. Os fatos já não importam, mas sim o lado que beneficiam ou contestam.
Nesta oficialização do sofismo, enquanto “recurso da política”, substituindo a verdade pelo melhor discurso de convencimento, assistimos a constantes e surpreendentes paradoxos.

Em nível nacional, o mais evidente é a reforma da Previdência que, mesmo trazendo um enorme prejuízo para as camadas mais baixas da população, a classe trabalhadora, essa massa não consegue se mobilizar e, pior, muitos desses que serão prejudicados pela medida se posicionam em apoio ao governo, ou se calam.

Enquanto isso, a oposição não consegue convencer, não instiga a reflexão e, voltando ao grande palco das redes sociais: mesmo diante dos “posts” com a reflexão mais própria, questionando as desigualdades da proposta como a unificação, o nivelamento de todos os setores na mesma regra, estabelecimento de teto único sem privilégio para nenhuma categoria, incluindo aí os três poderes, os políticos, etc., o grande público das redes se mantém firme a seu posicionamento maniqueísta, indicando uma razão “ideológica” para a reflexão, o que a remete ao lixo, devido à falta de propósito para ser considerada.  

Aqui em nossa terrinha foi estarrecedor o revés provocado pela homenagem dirigida a ministra Damares Alves, que embora tenha agitado o palanque faceboqueano, não sofreu oposição no parlamento e, somente diante da reação do “outro lado” frente à indicação da deputada Iriny Lopes, de homenagem aos heróis de seu eleitorado, se abre a discussão do que vem a ser a atitude em si de homenagear aliados e heróis de uma fração do eleitorado representada pelo parlamentar.

E, o mais grave...

O evento indicativo de ódio, ocorrido no último dia 18 na Ufes, também faz parte dessa dialética, se não é a sua síntese.
Afinal, do que estamos falando?

No fundo, no fundo, da falta que faz a filosofia no exercício da razão, explicitado na falta de reflexão clara e objetiva, aquela à que precede a suspensão dos pré-juízos e dos pré-conceitos, o cultivo da dúvida no combate às certezas e, por que não dizer: a falta de beber nas lições de grandes mestres.

Desde Sócrates, na busca dos conceitos em seus fundamentos, Aristóteles, na ação ética, Maquiavel, na análise da ação política, até Zygmunt Bauman, na análise dessa liquidez dos conceitos produzida pela fluência da internet, a filosofia nos indica o caminho para a reflexão por si mesma, dentro de raciocínios lógicos e radicais e na consideração fenomênica do ser por nossa incapacidade toda kantiana de acessá-lo.

Também por isso traz o incômodo, a incerteza, a presença constante das possibilidades mais diversas diante da ação ética do ser, que nunca se mostra. Só a boa reflexão pode nos libertar da ilusão de encontrar o salvador da pátria, alimentada a cada eleição, nessa polarização no ser quase “revelado” pela minha escolha.     


Everaldo Barreto é professor de Filosofia

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1 Comentários
  • FABIO JULIO MEDINA , segunda, 01 de julho de 2019

    O professor Everaldo foi muito feliz em suas colocações, e que ao mesmo tempo aborda com muita sabedoria esse dualismo político e cultural a qual estamos vivenciando em todo o país, Parabéns.. Fabio Medina