Exceções e a regra

Privilégios passam a ser regras uma sociedade injusta, em que direitos são esquecidos e desprezados

Privilégios, regalias e vantagens são reservados, unicamente, aos ocupantes de postos mais altos na pirâmide social, em um rol de exceções sempre ascendente, situação provocada por uma visão que leva à condição de regras o que deveria ser exceção no dia a dia das relações pessoais e de trabalho. Bom para uns, os detentores de poder, pior para outros, os excluídos. 

É nesse oceano de injustiças, cada vez mais imenso e profundo, onde podem ser vistas ilhas de bonanças e prosperidade garantidas quando se observa a questão de direitos sociais. Exemplo maior é o aumento de 16% nos vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), elevando-os de R$ 33 mil para R$ 39 mil mensais, sem contar outras regalias e o auxílio-moradia de mais de R$ 4 mil. 

A ciranda de benesses é vasta e sempre roda para cima, como nesta quinta-feira (22), que traz a publicação oficial do reajuste do valor do auxílio alimentação para servidores ativos do Ministério Público, que sobe para R$ 54,31, totalizando R$ 1,19 mil por mês, R$ 240,00 acima do salário mínimo. 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que metade dos 208 milhões de brasileiros ganha menos de um salário mínimo por mês, fator que contribui para colocar o País entre os primeiros no ranking dos mais desiguais do mundo, um abismo que deveria estar no campo das exceções, em uma sociedade mais justa, e, no entanto, permanece como regra no matiz do tecido social.

Esse cenário, construído secularmente por uma elite retrógrada, carrega tintas fortes e nem um pouco suaves. Na última terça-feira (21), Dia da Consciência Negra, o governador Paulo Hartung (sem partido), anunciou a  construção de mais um presídio, apesar de estar na reta final do mandato, o que torna o ato um tanto sem sentido, a não ser o fato midiático.

Até mesmo porque a ampliação do número de presídios de maneira isolada não é a solução para reduzir a população carcerária, que no Espírito Santo, ultrapassa em quase um terço a capacidade existente. Sem uma alteração na estrutura social, as cadeias vão estar cada vez mais cheias e, certamente, a maioria será formada por pretos e pobres, justamente aqueles cujas famílias não se contam entre os privilegiados.

Eles são originários das áreas excluídas e formam a massa onde a regra é a força bruta na guerra pela vida. A regra secular de “prisão ou caixão” está presente nesse ato, como em vários outros que se sucedem no cotidiano.

Um cenário onde pessoas desassistidas pela máquina pública para ter direito a um mês de salário de um privilegiado teriam que trabalhar mais de 10 anos seguidos. E aí surge mais uma dificuldade, levando em conta os índices de desemprego, sempre elevados, uma exceção que está virando regra nessa sociedade distorcida.

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