Família: laboratório de vida

As definições de família mudaram muito no curso da história

As definições de família mudaram muito, como a maioria das definições, no curso da história. Na antiguidade, família abrangia um grupo muito maior que o das pessoas com ligação consanguínea, envolvia empregados, agregados, escravos e todos que viviam sobre a proteção do “chefe da família”.

Com o tempo o conceito foi se modificando e as famílias, na maioria dos casos, foram sendo reduzidas aos grupos com laços consanguíneos, sempre vinculados à formação de casais. Somente a partir do século XX e, mais especificamente no Brasil, a partir da constituição de 1988, com a inserção do conceito “dignidade humana” como cláusula pétrea, pudemos enxergar um conceito de família em que sua formação não exija a figura do casal formado por pessoas de sexo diferente, sendo adicionado o de família produto de união estável, monoparental e arco íris. 

O grande avanço pode ser considerado a condição que fundamenta o grupo denominado família: o laço afetivo, de proteção e cuidado.

Alicerçado no comportamento subjetivo de criação do laço afetivo, à revelia de qualquer influência legal, as famílias vão se constituindo naturalmente e buscando reconhecimento social e, principalmente jurídico. Somente o enfraquecimento desse laço pode destruir a família, fazendo ruir a sua estrutura, com as pessoas se afastando e se desconhecendo. 

Como primeiro lugar de convivência, a família funciona como um laboratório para a vida em sociedade. Os conflitos e as brigas por motivos fúteis ou extremamente importantes, raramente perpetuam inimizades, pelo contrário, são questões menores diante dos compromissos de proteção e solidariedade implícitos na relação. 

Assim, o exercício dos sentimentos mais radicais como ódio, desejo de vingança, amor e perdão aparecem e se resolvem a todo momento, de forma automática, ou no máximo, exigindo a interseção de um membro hierárquico próprio à mediação.
A família é o espaço de “poder ser” e, nesse exercício de livre manifestação, o ser começa a receber lapidações com os conceitos éticos e morais enraizados pelo grupo e difundidos à prole. Certamente conceitos que formarão as personalidades características desse grupo para toda a vida.

Se analisarmos o tempo e seu efeito em nossas vidas, poderemos sustentar a hipótese de que na família existe a tarefa comum, de cuidar. Essa tarefa fica mais explícita em relação aos idosos e as crianças, mas perpassa a todos os seus membros, sendo absolutamente inevitável o engajamento, cada um a sua maneira e possibilidade. Esses compromissos implícitos são consequência da relação de confiança, segurança e bem-estar construída na convivência fraterna da família.

As definições de família nuclear (basicamente a que convive no mesmo lar) e extensa (restante do grupo ligado afetivamente com ou sem laços consanguíneos) já não dão conta dos novos grupos familiares que muitas vezes são produto da desfiguração do estereótipo de família desconstruído pela vida moderna, com as separações e rearranjos familiares. 

Efetivamente mudamos a família de “comunidade de sangue” para “comunidade de afeto” e essas mudanças encontram apoio na reflexão filosófica de Lévi Strauss, filósofo do século XX, esclarecendo a família não mais como instituição natural, mas cultural, de seu tempo histórico. Pensamento que foi acompanhado pela legislação na definição “organização formada a partir de laços sanguíneos, jurídicos ou afetivos”.

Enfim, seja na estrutura legal, jurídica ou cultural, constituir ou compor uma família é garantir um espaço de confiança, acolhimento, apoio incondicional e refúgio do mundo algoz, quando ele assim se apresenta. Cultivar esse vínculo e expandi-lo para a vida social alimenta a utopia de um mundo mais dignamente humano, que protege a liberdade, a felicidade e a igualdade, ao invés dos conceitos congelados.
 


Everaldo Barreto é licenciado em Filosofia.

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