Fardas e fardos

Estamos mais próximos da justiça social do que estivemos sob uma ditadura de verdade, não?

 

A propósito da insistência com que se comenta o problema dos desaparecidos políticos sob a ditadura militar 1964/1985, um dos leitores mais assíduos desta coluna escreve lembrando que “há milhares de jovens morrendo todos os anos, a maioria a tiros disparados por militantes do tráfico de drogas, um exército sem farda.”
 

Para o prezado leitor, essa mortandade da juventude é muito mais urgente, como problema, do que a questão dos desaparecidos políticos do tempo da  ditadura militar, assunto da Comissão da Memória e da Verdade criada pela Presidência da República.
 
 
Não há dúvida de que os milhares de vítimas da guerra no mundo das drogas constituem um dos maiores problemas do Brasil contemporâneo, ainda mais se levarmos em conta que as vítimas fatais da ditadura mal chegaram a 353 cabeças, segundo as últimas contas. Mas um problema não exclui nem elimina o outro. Pode-se até dizer que ambos são as duas faces da mesma moeda.
 
 
Não é por outro motivo que o Brasil precisa fazer uma varredura completa no panorama dos direitos humanos para que não haja nem desaparecidos sem identificação ou sepultura, nem jovens assassinados na guerra civil do tráfico de drogas, nem violações dos direitos humanos nas cadeias, nem tortura nas delegacias e nos camburões policiais, nem exploração de menores na mendicância ou na prostituição.
 
 
A bem da verdade, registre-se que houve um avanço nos últimos 25 anos: nos quartéis não há mais presos sem mandado nem salas de interrogatório funcionando, mas nem por isso se pode esquecer os crimes cometidos naqueles tempos de prepotência e arbitrariedades.
 
 
Como se poderia deixar tamanha lacuna na história? Além de levantar o que aconteceu nos anos cinzentos, tornou-se necessário também identificar os responsáveis pelo extravio, destruição, furto ou ocultação de documentos que fornecem informações ou dicas sobre as ocorrências mais sinistras, intencionais ou acidentais, resultantes de ordens superiores ou de desmandos grupais ou individuais.
 
 
Preencher as lacunas e colocar ordem na memória se reparte em missão do estado, obrigações de governo e tarefas de organismos da sociedade como a mídia, as universidades, a OAB e as igrejas. Por fim, cabe aos cidadãos participar da faxina e da limpeza, pois disso depende a construção de uma sociedade mais democrática, ou seja, menos desigual.
 
 
Os que advogam a colocação de uma pedra sobre o tema das violações dos direitos humanos dos presos políticos deixam a janela aberta para a continuação dos mesmos crimes contra presos comuns nas cadeias civis. Os que se omitem diante do que vem rolando no sistema penitenciário deixam a porta aberta para o retorno do arbítrio. Simples assim.    
 

Tão desdenhados pelos poderosos, os direitos humanos são os direitos elementares das pessoas, não importam os nomes e sobrenomes das vítimas e dos violadores. Entretanto, o leitor insiste: “Pare de se preocupar com as três centenas que morreram sob as ordens da farda e pense pouco mais sobre os que estão morrendo sob as mazelas do estado democrático”.
 
 
Para o leitor saudoso do autoritarismo militar, a liberdade hoje disponível é uma ilusão sustentada por um conluio de autoridades irresponsáveis e proprietários insanos, ambos beneficiários da “democracia de mentira” da qual nós, maioria, somos cativos sem direito a desfrutá-la. De acordo, mas nessa “democracia de mentira” estamos mais próximos da justiça social do que estivemos sob uma ditadura de verdade, não? 
 
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
 
 
“Tudo o que já foi, é o começo do que vai vir.”
 
Guimarães Rosa
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