Guardas de esquinas 

As conversas secretas de Moro e Delagnoll revelam bastidores do processo hipnótico imposto aos brasileiros

“São apenas seis meses de governo, mas Bolsonaro está acabando com a corrupção do PT”. 

A frase, dita por um guarda de quarteirão, exprime o mesmo significado de outra, pronunciada por orgulhoso integrante da classe média alta para definir os feitos de Jair Bolsonaro e repetir o refrão coletivo, implantado pela imprensa chamada grande, de que a crise brasileira tem um único culpado: o ex-presidente Lula da Silva, hoje na condição de preso político em Curitiba. 

Essas duas personagens, apesar de pertencerem a classes sociais distanciadas ao extremo uma da outra, concordam em quase tudo, principalmente na atuação da Lava-Jato que colocou Lula na prisão e limpou o País dos corruptos, afirmativa que é apenas uma meia verdade. Os corruptos estão aí mesmo. 

Os dois discordam, porém, quando o assunto trata da situação do pobre. Para o guarda, as coisas irão melhorar; para o outro, o pobre vai de ladeira abaixo, mas “as coisas são assim mesmo”, é um processo histórico que tem a ver com a meritocracia, segundo ele, sem se importar com as condições de diferentes classes sociais e as oportunidades oferecidas por um sistema opressor para os "do andar de baixo".     

Esses diálogos ocorrem na véspera e antevéspera da divulgação da explosiva e corretíssima matéria do site “The Intercept”, neste domingo (9), revelando as conversas secretas e nada éticas do então juiz Sérgio Moro e procuradores da Lava-Jato, liderados por Deltan Delagnoll. A matéria traz à tona o processo da operação, que perdeu o foco inicial ao ser transformado em ação política coordenado por forças estranhas a uma Justiça imparcial e ética. 

Pior: abriu caminho para colocar no centro do poder indivíduos despreparados para comandar o país, apoiados apenas em ações de estímulos à violência, de forma especial às milícias, que tomam conta do Rio de Janeiro e se espalham por todo território. Não sem motivo, lojas em shoppings oferecem treinamento de tiro com reluzentes réplicas de fuzis e metralhadoras e o guarda da esquina, cassetete na mão, diz que mantém o seu “treisoitão” colado ao corpo, escondido debaixo do blusão. 

À pergunta “e o Queiróz?”, uma provocação sobre as suspeitas de corrupção que envolvem a família do presidente, ambos respondem que isso é perseguição da imprensa e citam velhos porta-vozes de sucessivos golpes contra a democracia como jornais de esquerda, “aliados ao PT”. 

O nível de informação e o aprendizado acadêmico desaparecem e a confusão é generalizada, embora eles não se deem conta, agem com se estivessem hipnotizados ou hospedeiros de um vírus com elevado potencial de destruição. E repetem, incansavelmente, a “culpa é do PT”.  

Em 1968, quando o governo do ditador Costa e Silva impôs o Ato Institucional 5, o maior instrumento de repressão militar do golpe de 64, o vice-presidente, Pedro Aleixo, único a discordar dos termos, disse: “O problema de uma lei assim não é o senhor, nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina”. 

Os guardas de esquina estão atuantes, presentes na vida nacional, independentes do nível intelectual e da classe social. Foram infectados pelo vírus do fascismo, alguns conscientemente, outros, sem diagnóstico preciso. O vírus nunca morre, como acertadamente afirma personagem do livro “A Peste”, do escritor franco-argelino Albert Camus, e a única coisa que pode neutralizá-lo é a verdade e o respeito à transparência democrática.  
 

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