Gurus e curandeiros – parte III

Jim Jones foi o fundador e líder do culto Templo dos Povos

Seguindo aqui a reflexão sobre o fenômeno social e espiritual dos gurus, não poderia me furtar de citar o caso de João de Deus, este que não representa um guru em termos propriamente orientais, ele pode melhor ser chamado de médium de cura, portanto, um curandeiro. E aqui temos ele como um grande vulto do Espiritismo brasileiro, e que hoje está envolto numa ciranda de escândalos sexuais e até outros crimes que serão aqui tematizados.

João de Deus construiu sua fama e a estrutura de sua atuação espiritual e econômica em Abadiânia, no estado de Goiás. Foi por orientação de Chico Xavier e do dito espírito Bezerra de Menezes que João de Deus fundou em 1976 a casa espírita “Casa de Dom Inácio de Loyola”. Sua atuação atraía diversas pessoas, até celebridades e pessoas ilustres, mas agora o médium se vê em meio a denúncias de abuso sexual que já somam mais de trezentos casos com mulheres, todas estas que foram buscar ajuda em seu centro ou casa espiritual. O pedido de prisão preventiva foi decretado em 14 de dezembro de 2018 e João foi tomado como foragido, mas se entregou no dia 16 de dezembro de 2018.

João de Deus sempre foi denunciado por exercício ilegal da medicina, pois fazia curas e cirurgias sem a higiene ou esterilização dos instrumentos, em operações milagrosas, sem explicação científica. Pode ser que a cura seja produto de sugestão psicológica, ou pode ser que a cura seja real e de origem no desconhecido, os relatos são diversos e contraditórios, não há uma prova cabal a favor ou contra as curas de João de Deus, e o impressionante é que a quantidade de curas e cirurgias dariam para encher um catálogo enorme de casos, mas a prova experimental, científica, não se tem, ou tampouco podemos dizer que se trata de charlatanismo, a não ser para prosélitos do ceticismo radical.

Por sua vez, os outros crimes de João de Deus envolvem atentado ao pudor, contrabando de minério e homicídio. Quanto às denúncia sexuais recentes, elas se multiplicaram rapidamente, e o estopim foi o programa de televisão Conversa com Bial, aí se abriu a caixa de pandora do curandeirismo de Abadiânia, somando cerca de trezentas denúncias. A grande característica do modus operandi de João de Deus, por sua vez, era a de que o médium, durante os atendimentos espirituais, ele dizia para as mulheres que a “entidade” com a qual ele ficaria incorporado dizia para encontrá-lo numa sala anexo, pois ali receberiam a cura de que precisavam. E era nesta sala que todos os abusos aconteciam.

A Federação Espírita Brasileira (FEB), quando as denúncias se tornaram públicas e notórias, divulgou nota de que não há orientação nenhuma de serviços espirituais se darem em isolamento com médiuns e pacientes, os atendimentos espirituais são propriamente realizados em ambientes coletivos, tanto os passes coletivos como as consultas individuais. Por sua vez, o número absurdo de denúncias sexuais acusando João de Deus levou os Ministérios Públicos de São Paulo e Goiás a criar uma força-tarefa para apurar o escândalo. O resultado é que João de Deus encontra-se detido até então.

Jim Jones, por sua vez, é outro caso emblemático de guru e de lavagem cerebral deliberada. Jim Jones foi o fundador e líder do culto Templo dos Povos, este que se iniciou na década de 1950, em Indiana, foi para a Califórnia nos anos 1960, e se tornou um templo famoso com o movimento da sede da igreja em São Francisco, já no início dos anos 1970. Jim Jones passou a sua infância entre leituras de obras políticas e sociais, já imbuído de um misticismo pretensioso que o levaria a se tornar o futuro líder espiritual de seita. Ele que, de sua leitura política, simpatizou com o marxismo e a luta dos negros norte-americanos contra a segregação racial.

Em 1961, já tomado por sua inclinação egotista e mística, ele fez um discurso sobre o apocalipse nuclear e listou Belo Horizonte, em Minas Gerais, em um artigo de 1962, como lugar seguro em uma possível guerra nuclear. Já em 1973, após deserção de oito jovens da seita, a liderança de Jim Jones se fortalece e assim também a sua influência psicológica, e ex-membros já relatavam os planos e simulações de suicídio coletivo.

Em 1974 o Templo dos Povos arrenda uma gleba de terra na Guiana, onde se ergue o “Projeto Agrícola”, e nasce então ali a comunidade denominada Jonestown. Jones, em 1977, é acusado de manter sob custódia o filho de um ex-membro da seita, Timothy Stoen, que apela ao congressista democrata Leo Ryan para apelar pela custódia do filho ao presidente da Guiana naquele tempo, Forbes Burnham. Em 1978, Leo Ryan é autorizado pelo Congresso norte-americano para ir à Guiana, e a viagem tinha o fito de investigar denúncias de sequestro e situações de miséria dentro da comunidade Jonestown.

Ryan, com sua comitiva, tiveram uma ótima impressão da comunidade, já em novembro de 1978, mas logo houve deserções de alguns membros em Jonestown, o que levou a um estado de tensão no local, e Jones denunciou os desertores como traidores, e depois de um ataque de faca contra Ryan, este decidiu acelerar a sua partida do local, mas já na pista de pouso, o avião foi alvejado pela guarda que fazia a segurança de Jim Jones, no que morrem Ryan, três repórteres e um ex-membro da seita. No mesmo dia do assassinato de Ryan, por sua vez, também ocorre o suicídio coletivo mais conhecido e notório da História, o do Templo dos Povos, liderado por Jim Jones. 909 habitantes de Jonestown, incluindo aí 304 crianças, todos morrem envenenados por cianeto.

O FBI conseguiu recuperar uma gravação de áudio do suicídio em andamento, mais tarde, o que foi bastante esclarecedor do contexto e da situação toda que resultou em tal tragédia. É nesta gravação que Jim Jones convence os membros da seita a se suicidarem, pois não haveria mais ajuda de fuga através dos soviéticos, pelo assassinato do congressista norte-americano, e que, portanto, a conspiração contra o templo estava sendo urdida e que haveria o assassinato de seus membros pelas agências de inteligência. Jones então argumenta que todos deveriam cometer um “suicídio revolucionário”, bebendo suco de uva com cianeto e sedativos. Por sua vez, o suicídio coletivo já havia sido ensaiado algumas vezes, eventos simulados chamados de “Noites Brancas”.

Leslie Mootoo, médico que chegou ao local após o evento, disse que havia mais casos de homicídio do que de fato suicídio na tragédia de Jonestown. Ele relatou que 83 dos 100 corpos que examinou tinham perfurações de agulha nas costas, o que pode indicar injeção letal contra a vontade das vítimas. Jim Jones, por sua vez, foi encontrado morto em uma cadeira de praia com um tiro na cabeça, supostamente auto-infligido. O filho de Jones, no entanto, sustenta a versão de que Jim Jones pediu para ser assassinado, e uma autópsia do corpo dele revelou uma dose letal do barbitúrico Pentobarbital, dose que só seria não-letal por quem desenvolveu tolerância fisiológica, no que temos o relato de que Jones fazia uso de drogas, incluindo aí o LSD.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog:
http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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