Gurus e curandeiros – Parte XIV

O proselitismo católico é a maior deformação do trabalho realizado pelo Padre Quevedo na parapsicologia

O jesuíta espanhol Oscar González Quevedo, mais conhecido como Padre Quevedo, foi um dos mais destacados parapsicólogos do Brasil, figura midiática, contestador e também contestado, pois ao mesmo tempo em que desbaratava inúmeras mistificações, com destaque às fraudes espíritas, também foi questionado em suas teses, sobretudo na sua associação de uma pseudociência como a parapsicologia, inserindo-a no campo doutrinário católico, pois Quevedo, ao mesmo tempo em que refutava diversos fenômenos espirituais, referendava os milagres reconhecidos pela Igreja Católica oficialmente.

Lembre-se que a parapsicologia estuda fenômenos de cunho supostamente sobrenatural como a telepatia, a telecinese, a precognição e a clarividência. Contudo, a pretensão da parapsicologia em se afirmar cientificamente esbarra em ceticismo, sobretudo dos físicos, estes que possuem conhecimento dos fenômenos da natureza e contestam invariavelmente as interpretações da parapsicologia e suas bases, que os físicos dizem não ter relação com o método e os experimentos científicos. Para muitos dos físicos, não há comprovação material dos fenômenos descritos pela pseudociência da parapsicologia.

Foi durante o século XIX que surgiu a parapsicologia, tendo como precursora a metapsíquica, mas a parapsicologia se consolidou mesmo no início do século XX, com contribuições do botânico Joseph Banks Rhine e do psicólogo William McDougall, a colocando num campo de conhecimento psíquico, ou seja, como uma nova linha da psicologia. As pesquisas e os métodos empregados para interpretação e comprovação de fenômenos extra-sensoriais não demoraram para serem contestados pela comunidade científica.

Dentro deste campo de tentativas de comprovação de fenômenos sobrenaturais, não podemos nos esquecer da conhecida tentativa da CIA em plena Guerra Fria de empreender um grande esforço e utilizar estes conhecimentos a serviço de suas espionagens, por exemplo, no intuito fantástico de criar um grupo de espiões paranormais, para se antecipar aos movimentos e estratégias da União Soviética. Depois de quase duas décadas, tal programa foi cancelado, pois não teve resultados.

Uma parte considerável da comunidade científica se incomoda com a utilização, por parte de parapsicólogos, de conceitos e conhecimentos científicos para explicar fenômenos sobrenaturais, esta relação entre ciência e parapsicologia, portanto, teria, na verdade, um caráter de pseudociência. Como afirma a professora e pós-doutora do Instituto de Física da USP, Marina Nielsen : “Essas pessoas citam um monte de gente com livros sem nenhuma equação, o que é errado. A física usa a matemática como linguagem para interpretar qualquer fenômeno, e não por palavras”.

Como exemplo de tal apropriação sem fundamentos temos a obra A Física da Alma, livro do físico e ex-professor da Universidade de Oregon, Amit Goswani, considerado um místico pela comunidade científica, em que o autor faz um desfile extenso de fenômenos parapsicológicos, mas sem usar, em nenhum momento, equações ou fórmulas, apenas um conjunto de reflexões e desenhos descritivos.

Por sua vez, os escritos e o trabalho de Padre Quevedo são bem divulgados e conhecidos na Espanha e na América Latina. Sua obra sempre reuniu um grande conjunto de reflexões, apoiada por uma vasta documentação, sempre com o fito de desfazer confusões e esclarecer sobre diversos pontos dos fenômenos paranormais. Contudo, muito de sua documentação para a feitura de suas obras apresentam, muitas vezes, distorções, apropriações e às vezes até falácias.

Somente no livro As Forças Físicas da Mente, vemos contradições sobre o médium Guzik, e ao passo que afirma que as irmãs Fox são uma fraude, mais na frente referenda a veracidade do que elas produziam ao concordar com o cientista Crooks, quando este se refere aos fenômenos de tiptologia. Quanto à ectoplasmia, Padre Quevedo afirma que tal substância chamada de ectoplasma só tem a capacidade de formar figuras rudimentares e parciais.

Padre Quevedo afirma que os componentes do Círculo Minerva, grupo de cientistas que se reuniam para fazer experimentos com a médium italiana Eusapia Palladino, eram todos espíritas declarados. Mas o professor Porro e o cientista Morselli não eram espíritas, inclusive Morselli é atacado como anti-espírita por Sir Lombroso, e outros dos membros do Círculo Minerva só se converteram ao Espiritismo após estas sessões, e não antes.

Quanto à afirmação de que Crooks abandonara o Espiritismo rapidamente em seus estudos, é conhecido o fato de que Crooks morreu acreditando na doutrina e nos fenômenos do Espiritismo. A obra do Padre Quevedo, apesar das inúmeras incoerências e contradições de versões, apresenta um vasto conhecimento da História da Parapsicologia, mas a distorção documental de Quevedo compromete. O mais grave em sua obra é um tipo de distorção ideológica, fazendo do pretenso cientificismo da Parapsicologia, já ferozmente acusado de pseudo-científico, um panegírico de tintas católicas.

O proselitismo católico é a maior deformação do trabalho realizado pelo Padre Quevedo na parapsicologia, e sua forma categórica de afirmações ainda ganha a vestimenta de uma argumentação autoritária, fundada em certezas inabaláveis, o que resulta numa intolerância à divergência, transformando uma pseudo-ciência como a parapsicologia em afirmação católica de um padre jesuíta, mais do que de um pesquisador dos fenômenos paranormais.

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Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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