<i>Cem Anos de Solidão</i>

A literatura fantástica de ''Gabo é a realidade alegorizada de uma cultura rica, a nossa América Latina''

Gabriel García Márquez morreu neste dia 17 de abril de 2014, na Cidade do México. Um dos ícones da explosão da literatura latino-americana que surgiu nos anos 60 e 70, representante de uma vertente que se intitulou literatura fantástica e prêmio Nobel. Gabo, como era também conhecido, lançou em 1967 o que seria uma de suas maiores obras, o romance Cem Anos de Solidão, que foi um marco do que se via de literatura na América Latina até então. O colombiano de Aracataca, agora, era um escritor conhecido mundialmente, virou uma celebridade na área nem sempre tão famosa de escritores. 
 
Gabo, a partir do sucesso de Cem Anos de Solidão, tanto se impôs como escritor quanto ergueu o caminho para uma nova geração que surgia na literatura latino-americana, mudando um pouco o eixo da vida literária do hemisfério norte do mundo, para o novo mundo incrível da latinidade que, a partir de então, através da literatura fantástica, começou a ser conhecida pelo resto do mundo.
 
Cem Anos de Solidão, uma das maiores obras de Gabo, tem uma abertura magistral, que define toda a estória. É um trecho importante, como ponto de culminância, de seu início e de seu fim: "muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo". Tal abertura antológica deste romance define, em sua única partida que, em Cem Anos de Solidão, não estamos lidando com um tempo em linha reta, estritamente cronológico. 
 
A genealogia descomunal da família Buendía, que povoa este romance, na aldeia mítica de Macondo vai, por seu turno, revelar que há sim um tempo cíclico. Podemos falar que o tempo, neste romance, se estabelece através da família Buendía, e que esta, por sua vez, tem um karma de nomes e situações que se repetem, o tempo cíclico ou circular, o eterno retorno da família Buendía que, longe de ser uma maldição, é sim um karma genético. É, portanto, o tempo que vai e volta em semelhanças que estabelecem as repetições de uma árvore genealógica. 
 
Tudo começa com a fundação de Macondo, e depois da prosperidade, culmina num século inteiro em que se finda melancolicamente um karma já definido de início que encerra o romance, já numa aldeia vazia, uma Macondo de lembranças, e uma casa que passa em meio a tudo. A aldeia sendo o palco de revoluções, a guerra entre liberais e conservadores, e as peripécias do Coronel Aureliano Buendía como o centro nevrálgico desta genealogia total, que funde uma família a uma aldeia, que junta os Buendía a Macondo.
 
O patriarca José Arcadio Buendía se casa com Úrsula Iguarán e, a partir daí, com o contato de José com os ciganos, que aparecem de passagem pela aldeia de Macondo, José Arcadio conhece o cigano Melquíades. Desta feita, começam as experiências dele com a alquimia. O romance de Gabo, a partir deste início, vai revelar um conhecimento que mistura o fantástico com a cultura cercante de um mundo que existe, a América Latina. 
 
A relação folclórica dos acontecimentos de Macondo, com um mundo que passa do mítico ao terreno, se mistura nesta estória de Gabo. A habilidade descritiva em Cem Anos de Solidão é a chave para um enredo que enumera as façanhas de um delírio que junta a mística alquímica com os rompantes de guerra que terá no filho de José, o Coronel Aureliano Buendía, seu principal personagem.
 
A genealogia dos Buendía terá duas vertentes principais: a sucessão de José Arcadios de um lado, e a de Aurelianos de outro. Os filhos de José Arcadio, o patriarca, serão José Arcadio, que herda o gênio voluntarioso do pai, e Aureliano, silencioso e retraído. As mulheres da família Buendía também terão um karma. Algumas delas serão bem difíceis no trato com os homens, o que se verá tanto em Remédios como em sua xará, que terá o epíteto de Remédios, a bela. 
 
No romance não faltarão relações incestuosas, absurdos carnais que levam embora a esperança da fortuna da família, pois havia o temor de filhos nascerem com rabos de porco. A genealogia da família Buendía se torna tão complexa, que tal cruzamento genético fatal se torna quase inevitável, havia o receio de um ser mítico nascer nesta consaguinidade inconsequente.
 
Cem Anos de Solidão, com sua abertura, citada acima, revela o que seria Macondo, o que seria a fortuna ou o infortúnio dos Buendía. É a lenda em torno de um tempo que dá os seus ciclos, e que, portanto, era o sonho de José Arcadio Buendía, o patriarca: "o sonho das casas com paredes de espelhos foi decifrado quando José conheceu o gelo". 
 
A relação de conhecer o gelo define a cidade nova de espelhos: a genealogia dos Buendía também é um jogo de espelhos, certas tendências de personalidade se repetem, seja na carga dos nomes, o que pode ser visto nos Josés Arcadios e Aurelianos da árvore genealógica dos Buendía, como nas situações que também se repetem como numa carga genética que passa por personalidades, nomes e acontecimentos que se repetem, o que é o eterno retorno dos Buendía e de Macondo em todo o desenrolar da trama.
 
Em meio às situações concretas, que são as guerras e os delírios de Macondo, ainda havia os fantasmas dos mortos que interagiam com os vivos. A lenda em Gabo perde as fronteiras de um mundo de discernimento lúcido, os mortos estão entre os vivos, e não há separação entre o cotidiano de uma aldeia no meio do nada e a amplidão infinita do que pode se chamar de mundo mítico que une cultura familiar (os Buendía) e a vida inacreditável deste tempo próprio que se torna sobrenatural dentro do mais comum e corriqueiro. 
 
Em Cem Anos de Solidão, o que se pode chamar de literatura fantástica, não é necessariamente uma ruptura com o cotidiano, pois, em Macondo, e com os Buendía, o inaudito se insere na rotina, sem grandes sobressaltos. Este é o paradoxo deste romance de Gabo e sua maior virtude e desprendimento. A enumeração dos fatos tem uma dupla face de inesperado, com semelhanças e repetições que tornam o tempo circular o reflexo kármico da genealogia fundamental de uma aldeia e de uma família.
 
Quanto ao fardo da guerra, o que se dá é um conflito entre liberais e conservadores. Posso citar o delírio máximo de Gabo sobre o Coronel Aureliano Buendía: "Promoveu trinta e duas revoluções armadas e perdeu todas, teve dezessete filhos varões de dezessete mulheres diferentes, escapou de quatorze atentados, setenta e três emboscadas e um pelotão de fuzilamento".
 
Aureliano deixa Macondo por um tempo e vai atrás de revolução. O liberal que sonhava com a queda dos conservadores, um paralelo de Gabo com as mazelas da América Latina. Nem tudo em Cem Anos de Solidão era mítico, até porque, em Macondo, tudo tinha um pé com algo bem real neste nosso mundo e, sobretudo, no mundo latino: as agruras da guerra, a política como salvação e ruína de nossas vidas, o mítico só serve para Gabo como referência a um mundo real e vivo. Não há, como disse, ruptura de sua literatura fanstástica com coisas que já conhecemos cotidianamente.
 
Coisas raras acontecem em Macondo, como o surto da doença da insônia. Gabo, quando escreve este romance, tem uma habilidade de unir as demandas do mundo real ao mito criado literariamente. Ou seja, não há ruptura do fantástico com o real em sua escrita, mas uma escrita que dá um sabor mítico de que tudo é possível no mundo criado em Macondo. 
 
A aldeia passa por tudo, neste mundo ainda bem real, há fantasmas zanzando, há Rebeca, que come terra e cal de paredes, há a doença da insônia, que deixa a aldeia de Macondo sem dormir por um tempo, e que também era a doença do esquecimento, só sanada quando José recebe uns frascos do cigano Melquíades. Os fatos bem conhecidos das guerras da América Latina, de sua cultura, se juntam, neste enredo, com a imaginação fértil de Gabo, para criar uma síntese de um mundo novo para a literatura mundial: a América Latina ganha voz literária com Gabo.
 
A visão de duplicidade para Cem Anos de Solidão também tem a referência sobre a busca de conhecimento, a alquimia é seu ponto principal. Gabo diferencia, com isso, duas frentes de batalha em seu romance: os delírios da guerra e a loucura da pedra filosofal. A busca, seja na política, que se torna guerra, como nos quartos fechados com laboratórios para criar o ouro alquímico, são duas coisas que interagem, há um misto entre a alienação da reclusão e o desprendimento da própria vida diante do pelotão de fuzilamento. 
 
Nada tem um fim em linha reta, o mesmo que está para morrer recorda vivamente tudo que se passou; os personagens que se enfurnam em seus quartos, atrás da pedra filosofal, também possuem o discernimento da experiência com o conhecimento; alquimia de um lado, e guerra de outro; e a cultura dos livros e das experiências alquímicas são dadas simultaneamente com um mundo latino politicamente convulsionado.
 
Em Gabo, o mundo mítico é o mundo real e vice-versa. Não há discernimento cartesiano dos espaços da realidade e o tempo newtoniano é refutado por uma genealogia familiar que é o próprio tempo da trama, um século inteiro, suas mazelas e glórias, o tempo cíclico, como a natureza é, pois há uma veia naturalista nos incestos dos Buendía, o romance transpira sexo proibido, desejos se encontram dilacerados e realizados ao mesmo tempo, não há fronteira de tabu. 
 
Cem Anos de Solidão também cria seu mundo mítico ao romper o tabu, ao romper com diferenças de percepção de espaço e de tempo. Em Macondo, a natureza serve a si mesma, tudo corre com o inaudito de forças incontroláveis, que são nada mais que ciclos e karmas familiares, medos ancestrais, glórias futuras que desmoronam em solidão e vazio, expectativas revolucionárias e o exagero belicoso das batalhas sem fim da política em seu estado permanente de conflitos que movem corpos por todos os lados e terminam no fuzilamento inevitável. 
 
Gabo reúne a guerra, a política e o mito, traz a natureza crua dos Buendía, e torna tudo espiritual na alquimia que circula por todo o romance. Tabus quebrados, e os sonhos alquímicos e de glórias político-guerreiras se juntam num caldo único comandado pela natureza cega da fatalidade de um século inteiro, o fatal fim de uma genealogia que morre como folclore, que surge e termina em Macondo.
 
Cem Anos de Solidão é nada mais que a estória de um ciclo, e este tem o nome dos Buendía, e Macondo é o lugar geográfico e mítico da genealogia que funda a trama de Gabo. A viagem que se faz ao lermos este romance nos leva ao mundo real, e não só à fantasia de um romancista. Gabo nos dá de presente a América Latina nua, livre de todas as amarras da razão. O mito se afirma de maneira contundente, o mito de uma existência que não se furta a ultrapassar as fronteiras fictícias de uma imaginação fraca. 
 
A força do romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, está na falta de limite de suas descrições. A riqueza de detalhes e informações contidas neste romance não são casuais, são o resultado de uma vivência real e forte, que tem nos Buendía sua alegoria, e em Macondo seu lugar de realização. 
 
O real e a fantasia de Cem Anos de Solidão se unem no mito fundador, o tema das origens e seu final de escatologia, o início e o fim, o ciclo da natureza incrustada na genealogia dos Buendía, o grito sexual e o recolhimento solitário, enfim, a glória e a hecatombe de guerras, mitos, fundações e uma descendência que se esfarela com o tempo inexorável que tudo leva para sempre. Macondo se torna o nada povoado pelos seus fantasmas, tudo se encerra no vazio memorial.
 
Gabrial Garcia Márquez nos deixa neste mundo, e está agora, quem sabe, no mundo mítico sonhado em sua literatura, pois a realidade é mais profunda do que possa sonhar a nossa vã filosofia, e a literatura é uma das chaves de acesso ao mundo mais amplo da inspiração imaginosa que funde mitologia e as vísceras de um mundo político em guerra permanente. A literatura fantástica de Gabo é a realidade alegorizada de uma cultura rica, a nossa América Latina.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
 
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