Inventário da resistência

Desde abril de 1964 os brasileiros se envolveram num genuíno processo de resistência democrática

Praticamente não há brasileiro que não tenha uma historinha pessoal dos tempos da ditadura militar 1964/85. Diretamente ou por amigos e parentes, quase todo mundo guarda na memória um ou mais episódios de ameaça, tensão, medo, prisão, inquérito, fuga etc. – tudo isso sem falar dos casos extremos dos que viveram na clandestinidade, armados ou não, ou passaram pela prisão ou pelo exílio. E nem é preciso lembrar os casos insolúveis que pulsam até os dias de hoje envolvendo desaparecimentos, sequestros, torturas e execuções de pessoas contrárias ao regime militar.

De tudo isso se pode afirmar que, variando em intensidade, desde abril de 1964 os brasileiros se envolveram num genuíno processo de resistência democrática. Logo de cara uns perderam cargos, outros foram cassados e tiveram os direitos políticos suspensos.  Centenas foram para o exterior.

Quatro anos depois (1968), enquanto o mundo inteiro mergulhava em passeatas, protestos e congressos pré-revolucionários (p. ex. UNE em Ibiuna, SP), escancarou-se a ditadura e a resistência democrática assumiu formas diversas, desde o lançamento de músicas de protesto e a fundação de jornais alternativos até movimentos armados unidos sob o lema “Abaixo a Ditadura”.

Por um viés particular da historiografia brasileira, desde os anos 1970 afloram documentos e livros com depoimentos de pessoas que participaram da luta armada, que foi a forma mais radical de resistência e oposição.

Armados de revólveres, pouco mais de uma dúzia de grupos de esquerda  enveredaram para o confronto com o regime ditatorial. Os grupos foram liquidados e muitas pessoas morreram, muitos mais à esquerda do que à direita. Todos, de uma forma ou de outra, foram vítimas da ditadura, que recorreu a métodos extremos que até hoje incomodam consciências, muito menos à direita do que à esquerda.

Tantos discos, livros, peças e filmes depois – alguns, não poucos, em defesa do governo –, ainda não temos o inventário completo da resistência democrática. Nos chamados “anos de chumbo” – a propósito, quem inventou esse termo? –, guardadas as proporções, era tão heróico um jovem pichar  um muro* quanto um operário chamado Manoel Fiel  Filho distribuir um jornalzinho clandestino (e ser preso e morto “acidentalmente” na  cadeia) ou um tranquilo jornalista mineiro de sobrenome Gabeira participar do sequestro de um diplomata estrangeiro no Rio.

É isso que começa a fazer falta – promover o inventário completo da resistência – enquanto a Comissão da Verdade instituída em maio de 2012 pela presidenta Dilma se ocupa dos casos extremos de violação dos direitos humanos em repartições públicas, sob incentivo ou vista grossa das autoridades.

Em novembro passado, durante um debate na feira do livro de Porto Alegre Alegre sobre a morte do jornalista Vlado Herzog em dependência militar de São Paulo (outubro de 1975), uma professora de História levantou-se na plateia argumentando que, até agora, “parece que apenas o pessoal da luta armada tem boas histórias para contar sobre a resistência à ditadura”. Para ela, está na hora de “democratizar a narrativa” sobre como o regime militar se esgotou. Ou, seja, fora a luta armada, houve uma série de histórias pessoais, sindicais, religiosas, jornalísticas, jurídicas  e econômicas que resultaram em ações e movimentos como as Diretas Já (198 4), a Constituinte (1988) e tudo mais que aí está.   

Nos últimos meses, saíram vários livros e alguns filmes sobre o tempo da ditadura. O mesmo acontece em países vizinhos também submetidos a regimes de força. Entre esses documentos, há desde episódios singelos até narrativas escabrosas como as que vieram à tona no livro Memórias de Uma Guerra Suja, no qual o ex-policial Cláudio Guerra confessa crimes terríveis ao repórter Rogério Medeiros.

Outros livros de jornalistas como os de Audalio Dantas e Bernardo Kucinski, mencionados recentemente nesta coluna, são marcos a estimular cada brasileiro a por para fora o que viveu nos tempos da ditadura.

É bom lembrar que o golpe militar de 1964 teve apoio das elites e das classes médias e durante algum tempo contou com a simpatia popular graças a uma habilidosa máquina de censura e propaganda, como aconteceu durante o Milagre Econômico Brasileiro (1968/1973).

De tempos em tempos jornais e revistas, emissoras de rádio e TV e, ultimamente, blogs e sites desovam casos isolados, mas falta um esforço contínuo e metódico de escavação e organização do material guardado na memória das pessoas ou esquecidos em algumas gavetas.

A mídia se ocupa principalmente dos casos mais terríveis e sangrentos associados à luta armada, mas a resistência foi ampla e crescente -- e sua verdadeira dimensão ainda não foi captada nem transmitida.

Inventário da Resistência Democrática: eis uma ideia a ser abraçada por um órgão da imprensa gorda ou magra.

 

* Grafiti antiditadura pichado há 30 anos num muro de Sertãozinho, SP:

 
“A PIOR JAULA É UMA FARDA. NELA SÓ CABE UM PORCO”

  • Palavras-Chaves
Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para manter ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.