Kurt Cobain, 20 anos

''Kurt logo foi saudado como o maior compositor de sua geração''

Neste dia 05/04/2014 completaram 20 anos que Kurt Cobain, líder da banda Nirvana, morreu, ao se suicidar com um tiro de espingarda, na estufa de sua casa. O ano era 1994, e ele deixou, aqui, muitos fãs ( e eu me incluo nessa), que hoje propagam a sua música e a sua memória. O rock dos anos 90 teve muito do Nirvana, uma das maiores bandas da última grande onda do rock, o grunge. Tanto Kurt Cobain, como sua banda, o Nirvana, têm um lugar especial e bem grande na História do Rock e da música em geral.
 
Para falar um pouco desta efeméride que, paradoxalmente, é de dor e reverência, tudo ao mesmo tempo, ou seja, um marco para muitos que conhecem e apreciam o rock, vou falar aqui da biografia magistral de Kurt Cobain, que foi escrita por Charles R. Cross, de título Mais Pesado que o Céu, publicado em 2002, e que é o resultado de quatro anos de pesquisa. Lembrando que o Nirvana tomou de assalto as paradas com sua música "Smells Like Teen Spirit", que se tornou a canção mais conhecida de 1991, com a frase de abertura da guitarra, nesta música, simbolizando o início do rock dos anos 90, que, nesta altura, estava no marasmo repetitivo e afetado do rock farofa da década de 80. Kurt logo foi saudado como o maior compositor de sua geração.
 
Kurt Donald Cobain nasceu no dia 20 de fevereiro de 1967, em Aberdeen, Estado de Washington, nos Estados Unidos. Tendo já, desde cedo, demonstrado interesse pela música, talvez herdando esta propensão da família da parte de sua mãe, que teve alguns músicos. E, quando criança, em meio às preocupações de sua famíla com seu amigo imaginário, a quem chamava de Boddah, ele também tinha talento para a pintura e o desenho.
 
Na adolescência, já com os pais separados, o que foi um tormento emocional para Kurt, ele começou a experimentar drogas, quando passou a fumar maconha e tomar LSD. A família começou a ter problemas com ele, que o julgava teimoso e obstinado, não estava interessado em ouvir os adultos ou trabalhar, e na sua peregrinação por casas de diversos parentes, não se acertava com ninguém. Neste nomadismo, Kurt passou um tempo com o seu tio Chuck, um pouco mais liberal, e lá conheceu um amigo de seu tio, de nome Warren, que deu uns treinos musicais para o jovem Kurt, esta foi a sua primeira relação formal com a guitarra.
Quando se encerrava o ano escolar de 1983, Kurt conheceu o punk rock, e naquele verão, viu os Melvins, o que mudaria a sua vida. Kurt grifou em seus diários: "Era isso que eu estava procurando." E, de volta à casa de seu pai, depois de umas agruras, onde até morou quatro meses na rua, Kurt foi para o seu quarto de porão, e praticava guitarra durante horas. Seus amigos e família começaram a notar que ele estava se tornando hábil em tocá-la. E, ao se juntar ao seu amigo Jesse, ele foi morar na casa dos pais deste amigo, à convite dos mesmos, que gostavam muito dele, e lá, ele desfrutou de uma casa que tinha um grande sortimento de amplificadores, guitarras e discos. Foi lá que fez a sua primeira jam session com Krist Novoselic, que viria a ser o futuro baixista do Nirvana. 
 
Kurt já estava compondo canções constantemente, com cadernos recheados de folhas com letras. Aos dezessete anos, já imaginava uma carreira musical. E, em 1985, ele monta a sua primeira banda, o Fecal Matter, que teve vida curta e nunca deu um show. Em 1987, Kurt estava em busca de montar uma banda novamente, e viajara algumas vezes como roadie dos Melvins. Kurt estava compondo canções num ritmo prodigioso, e organizou, neste período, três ou quatro grupos simultaneamente.
 
Então, Kurt se juntou a Krist, e estes começaram a tocar com um baterista num grupo sem nome, era a incubação do Nirvana. Já no verão de 1987, a banda estava se consolidando. E a música "Love Buzz" do Shocking Blue se tornara a marca do grupo naquela época. Em 1988, a banda gravou uma fita demo. Neste tempo, Kurt estava moderado com a bebida e as drogas. E aí, a banda ganhou o seu nome definitivo: Nirvana. E, ironicamente, depois de um show da banda que foi um fracasso, a gravadora Sub Pop, que patrocinara o show, demonstrou interesse pela banda. O Nirvana lançaria um single, o baterista Chad Channing entra para a banda, e o single "Love Buzz" fica pronto. Depois, eles gravam um álbum inteiro, que ganha o nome de Bleach.
 
Em meados de de 1989, o cenário musical do noroeste dos Estados Unidos começou a chamar a atenção internacional, muito devido, também, aos lances arriscados da Sub Pop, mas que resultaram em algo, e bandas como Mudhoney eram estrelas do movimento que passou a ser chamado de grunge. A Inglaterra era o lugar que primeiro visara este movimento, e até saiu uma matéria da Melody Maker em março de 1989, com o seguinte título: "Seattle: Cidade do Rock."
 
A esta altura, Kurt já começava a enfrentar problemas estomacais, e, neste ínterim, em agosto de 1989, o Nirvana grava um EP com cinco novas composições de Kurt. Enquanto isso, Bleach já tocava nas rádios universitárias, e o disco é lançado no Reino Unido, com brilhantes resenhas. Em 1990, Kurt começa a beber novamente, e o baterista Chad Channing é sutilmente desligado da banda. Kurt e Krist estavam enviando novas fitas demo da banda, mixadas na Smart Studios, para gravadoras maiores, e a Sub Pop estava em séria crise financeira. Em agosto de 1990, o Nirvana abre um show para a banda Sonic Youth, e Thurston Moore e Kim Gordon, o casal de músicos do Sonic Youth, recomendam ao Nirvana, procurar a Gold Mountain, que geria os negócios do Sonic Youth. E, finalmente, depois de umas tentativas frustradas, o Nirvana encontra o seu baterista, Dave Grohl.
Depois do Nirvana ter sido esnobado numa tentativa com a MCA, os músicos do Sonic Youth reforçam o conselho para o Nirvana ir até a Gold Mountain, e lhes disse para assinar contrato com a DGC, que fazia parte da Geffen Records. E, fatalmente, em novembro de 1990, um novo personagem entra nos diários de Kurt, uma personalidade feminina, a qual ele chamou de "heroína". Kurt supera o seu medo de agulhas e, pela primeira vez, se injetou heroína, com um amigo em Olympia. Descobrira que a euforia da droga poderia lhe ajudar a fugir das dores de estômago que tanto lhe afligia. E Krist, ao saber, lhe advertiu que aquilo era dinamite, e para se lembrar de Andy Wood (vocalista do Mother Love Bone, uma próspera banda de Seattle, que morreu de overdose de heroína em março de 1990).
 
E o Nirvana, finalmente, assina com a DGC, selo da Geffen Records. Kurt conhece Courtney Love, da banda Hole, e um tempo depois, ela envia de presente para ele uma caixa em forma de coração. Eles se reencontram em maio de 1991. Ainda antes do lançamento do novo disco, o Nirvana começa a fazer o videoclipe para "Smells Like Teen Spirit". Em Setembro de 1991, Nevermind, o novo disco, é lançado em Seattle. Duas semanas se passam até Nevermind entrar para a Top 200 da Billboard, e no dia 2 de novembro, estava no 35° lugar. Poucas bandas tiveram tão rápida ascensão à Top 40 com seus discos de estreia, e a própria DGC não havia se preparado para o "vulto" que seria Nevermind, havia prensado apenas 46.251 cópias, e durante várias semanas, o disco ficou esgotado. O videoclipe de "Teen Spirit" entra em exibição regular na MTV em novembro, e a fama do Nirvana começava a explodir. 
 
Kurt e Courtney agora estavam juntos. Em meio a isso, no outono de 1991, a heroína já não era mais uma fuga recreativa de fim de semana para Kurt, era sim, agora, um hábito diário. O início do vício pleno de Kurt pela heroína coincidiu com o lançamento de Nevermind. O disco logo atinge a marca de 1 milhão de cópias vendidas nos Estados Unidos. Kurt e Courtney ficam noivos em dezembro. Ao começar 1992, o Nirvana já era a maior banda do mundo, e "Teen Spirit" a maior canção. E, nisso, havia o medo dos empresários da banda de que o problema de Kurt com as drogas vazasse para a mídia, e aí veio a notícia de que no próximo número da revista Billboard, Nevermind chegaria ao primeiro lugar, derrubando o Dangerous de Michael Jackson. 
 
No meio desse sucesso todo, o vício em heroína de Kurt aumentava, e em seus diários apareciam coisas como: "Eu sou pensado como famélico, pele amarela, tipo zumbi ... um perdedor que toma pico nos bastidores segundos antes de uma apresentação". E uma frase surgia reiteradamente: "Eu me odeio e quero morrer." No início de 1992, ele já estava decidido que este seria o título de seu próximo disco. O vício de Kurt estava em aceleração máxima. Mesmo dentro das fronteiras da cultura da droga, o nível de consumo de Kurt parecia aberrante. 
 
Em agosto de 1992, nasce sua filha com Courtney Love, Frances Bean Cobain. Kurt e Courtney, a esta altura, saíam das notícias das revistas de rock e eram temas de tabloides, em teor negativo, e houve uma cizânia quanto à guarda de Frances. A banda, depois de muitos questionamentos de que não daria mais nada, anuncia que gravaria um novo disco. Kurt passa por um novo tratamento para se livrar da heroína. No fim de 1992, Kurt trava amizade com os músicos do Meat Puppets, de onde poderia vir uma futura colaboração. As vendas totais de Nevermind atingem a marca de 8 milhões de cópias. Duas semnas antes do Natal, Incesticide, a coletâneas de refugos e lados B do Nirvana, é lançado. E, antes do lançamento do novo disco, Krist convence Kurt a mudar o título do disco, e "Eu me odeio e quero morrer" é descartado. O medo de Krist era de problemas com a justiça ou a imprensa, e chegam ao nome " In Utero", que era de um poema de Courtney.
 
As novas músicas que eram compostas, mostravam um Kurt mais cuidadoso, sendo "Heart-Shaped Box" e "Pennyroyal Tea" um dos trabalhos mais bem realizados do Nirvana. As gravações de "In Utero" se concluíram em doze dias. Kurt tem mais uma overdose, um pouco depois. No verão de 1993, o consumo de heroína de Kurt ultrapasava o da maioria dos viciados. Em decorrência disso, havia muitas situações de overdose e proximidade com a morte, chegando a uma dúzia delas, só em 1993. In Utero é lançado em setembro de 1993. Na nova tunê, a banda agora já contava com a participação do violoncelista Goldston, e Pat Smear, ex-guitarrista do Germs, agora fazia parte também do Nirvana. 
 
Logo em seguida a In Utero, Kurt concordou com a ideia de um programa Unplugged na MTV, depois de negociações. Kurt convidou os Meat Puppets para participar , e, para o Unplugged, Kurt havia sugerido, para o palco, lírios roxos, velas pretas e um candelabro de cristal, como num funeral. O clima era tenso, mas o desempenho emocional de Kurt estava em tom maior, finalizando com um suspiro antes da última nota da última música, "Where Did You Sleep Last Night?", que era como se fosse o último suspiro de sua vida.
 
E aí começou a derrocada. Numa turnê pela Europa, já em fevereiro de 1994, Kurt ameaça se separar da banda, demitir sua administração, e se divorciar de Courtney. Kurt vai para Roma, lá tenta um suicídio com uma overdose de Rohypnol, o que fica em segredo. A notícia, depois de um boato de que Kurt havia morrido, era de que ele tinha sofrido uma overdose acidental. Depois disso, Kurt cancela a participação do Nirvana no Festival Lollapalooza, e as drogas estavam presentes na vida de Kurt mais do que nunca. Algo mudara com ele depois de Roma. Aquela carreira, ao menos em se tratando do Nirvana, estava basicamente encerrada na segunda semana de março de 1994. Depois de Roma, até os parceiros de droga de Kurt notaram um desespero crescente em seu consumo. Todos estavam muito assustados com Kurt, tentam uma intervenção, e a falta de cuidado normal de Kurt fora substituída por um desejo de morte, que assustava até os drogados mais pesados. Em março, os braços de Kurt tinham crostas e abscessos que eram um risco potencial à saúde. Depois de um aconselhamento, Kurt tentaria o tratamento mais uma vez. 
 
Nesse meio tempo, Kurt pediu a seu amigo Dylan para comprar uma arma para ele, "para proteção e por causa dos gatunos", segundo Kurt. Dylan disse: "Se Kurt era suicida, certamente ele escondia isso de mim." Dentro da loja, Kurt apontou para uma espingarda Remington M-11, calibre.20. Tendo comprado a espingarda, Kurt foi para casa, e depois partiu para o seu tratamento no Centro de Recuperação Exodus. Depois de uns dias, fugiu pulando o muro. Quando Courtney ficou sabendo, ficou histérica, ligou para detetives particulares, que, em Seattle, não conseguiram achar Kurt. A casa de Kurt foi vasculhada, sem procurarem nos pátios e na garagem, e nada dele.
 
Kurt tinha preparado um arranjo bizarro na estufa de sua casa, lá ele redigiu a sua carta de despedida, e se matou com um tiro de espingarda no céu da boca. Ele havia tomado uma dose gigantesca de heroína antes do disparo, tinha 27 anos. Em 8 de abril encontraram o corpo morto. Um eletricista, que estava instalando um novo sistema de segurança na casa, o viu. Logo a notícia se espalhou, a mídia já sabia, àquela altura. 
 
A mãe de Kurt, Wendy, disse: "Agora ele entrou para aquele clube estúpido. Eu disse a ele para que ele não entrasse naquele clube estúpido." (Referência aos músicos mortos com 27 anos, uma verdadeira sina no mundo da música, sobretudo do rock). O suicídio era quase óbvio para as autoridades. Na autópsia, o nível de heroína descoberto no sangue de Kurt era tão alto, que ele mesmo, que tomava altas quantidades, morreria não por muito mais tempo do que ele levou para disparar a arma. Kurt se matou duas vezes, com dois métodos fatais. 
 
Na vigília pública em Seattle, pouco depois da tragédia do suicídio do líder do Nirvana, Kurt Cobain; Krist Novoselic, amigo de Kurt, e baixista do Nirvana, deixa uma mensagem curta, que pode ser resumida, pelo seguinte: "Lembramo-nos de Kurt pelo que ele foi: afetuoso, generoso e terno. Guardemos a música conosco. Nós a teremos para sempre." "Era desse nível que Kurt falava conosco: em nossos corações. É aí que a música sempre estará, para sempre."
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com
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