Laranja Mecânica

''Alex vira ícone, Laranja Mecânica é cult''

 

O livro Laranja Mecânica foi escrito por Anthony Burgess em 1961 e publicado pela primeira vez em 1962, tendo uma edição comemorativa de seus 50 anos no ano passado. O livro foi fruto de um frenesi literário do autor, depois de um diagnóstico errado de uma doença fatal, que o fez escrever febrilmente, na certeza de que iria morrer logo e, portanto, para garantir o sustento de sua esposa quando ele falecesse, o que não aconteceu. Burgess, escritor britânico, viveu até 1993.
 
O livro de Burgess foi o mais bem-sucedido de toda a sua obra, ganhando a versão mais que clássica no cinema  pelas mãos do gênio Stanley Kubrick, sendo o personagem principal  do livro, Alex, representado pelo incrível ator Malcolm McDowell. O filme se tornou cult e foi censurado no Brasil por um tempo, também sendo retirado de cartaz por Kubrick na Grã-Bretanha, devido às muitas críticas, e só voltando a ser exibido no país depois da morte de Kubrick em 1999.
 
Alex, o personagem principal da estória, é o narrador onisciente, pois esta estória se tratava de um relato da vida deste jovem Alex, narrado pelo próprio. Este é o meio em que se dá a ação, ou seja, com a narração de certos acontecimentos por Alex, tanto no romance de Burgess, como no filme de Kubrick.
 
Alex fazia parte de uma gangue, ele e mais três druguis, Georgie, Tosko e Pete. A palavra "Drugui" faz parte do dialeto nadsat (adolescente) que quer dizer "amigo". Tal dialeto nadsat é a linguagem utilizada pelas gangues de jovens da estória, que é uma mistura de anglo-russo que resulta numa linguagem pseudoelizabetana, e que se conduz pelo chamado "Rhyming Slang", que é nada mais que um jogo de palavras infantil via repetição silábica, o que refletia gírias da época em Burgess escreveu o livro, lembrando que os personagens que formavam a gangue de Alex eram extremamente jovens, na faixa dos quinze anos, mesmo que um Malcolm Mc Dowell, na época em que se filmou a estória, já tivesse 28 anos, quando representou Alex.
 
Laranja Mecânica é a narração de Alex sobre a sua delinquência juvenil, seus atos bárbaros durante um trecho da estória, com a chamada ultraviolência, que será punida, logo após, com a traição de seus "druguis". Alex viverá um inferno pessoal, sendo condenado à prisão. Alex passa de uma liberdade total através da sua ultraviolência e estará em breve sob a tutela da violência do Estado sobre os indivíduos desviantes como ele.   A tese do livre-arbítrio é levantada como a bandeira desta obra Laranja Mecânica, pelo próprio Burgess, em textos seus sobre a mesma. O conflito filosófico se instaura quando Alex entra como cobaia, voluntariamente, para o teste de uma novo meio de combater a criminalidade, a técnica Ludovico, que será um crítica de Burgess ao poder do Estado e ao behaviorismo, que, coincidentemente, à época da publicação do livro Laranja Mecânica, tinha em Skinner um novo representante, lançando seu livro "Além da liberdade e da dignidade", em que o condicionamento dos comportamentos eram mais importantes que valores como a liberdade de escolha, em que o mal era sanado por um bem imposto e artificial, nada diferente do mundo anestesiado de Huxley em seu Admirável Mundo Novo, o que, para Burgess, era um modo de pensar perigoso. Para Burgess, no combate ao mal se anularia a capacidade de escolha pelo próprio mal, sendo melhor um mundo de pessoas livres para fazer o bem ou o mal (conceitos nem sempre bem definidos), do que autômatos condicionados em uma nova distopia, a qual se vê em Huxley, no livro citado, e em George Orwell, em seu livro 1984, e que culmina em Burgess com seu Laranja Mecânica.
 
Alex passa pelo teste da nova técnica Ludovico, e se torna incapaz de praticar a ultraviolência ou atos libidinosos. Seu  comportamento, agora, era condicionado pela náusea ao imaginar qualquer ato violento ou despudorado, seu drama é que ele não tinha mais escolha, sua tragédia é que sua liberdade extrema pela ultraviolência se tornara agora apenas náusea, e seu destino era crescer, não podia mais ser o rebelde criminoso que tivera sido. Tal capítulo sobre seu futuro está no romance original, o qual foi suprimido da versão americana, a mesma da versão do cinema por Kubrick.   Alex vira ícone, Laranja Mecânica é cult. Esta obra, seja pelo romance de Burgess, ou, sobretudo, pelo filme de Kubrick, se tornou referência para bandas de rock e diversas outras áreas do entretenimento. A figura de Alex, controvertida, que 
deveria ser reprovada, é revestida de um carisma. Então, um livro que nasce de um desespero de morte em Burgess, revela a sua faceta de símbolo dos jovens desviantes, que são, do ato criminoso ao xilindró, novos seres condicionados ao bem, não por escolha, mas por medo, medo que em Alex é físico, a náusea diante do horrorshow de seu passado de estupros e ultraviolência.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
http://poesiaeconhecimento.blogspot.com    
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