Mimetismo político

As declarações dos senadores capixabas Marcos do Val e Fabiano Contarato sobre a nova política não condizem com a realidade

A nova política ainda está muito longe de ser vivenciada pelos brasileiros. A eleição para as duas casas do Congresso Nacional, com Rodrigo Maia (RJ) na Câmara e Davi Alcolumbre (AP) no Senado, ambos do DEM, inserem os brados de uma nova política, proferidos por quem votou neles, no rol de exemplos perfeitos de mimetismo político. 

Trocando em miúdos: ao afirmar que venceu a nova política, comemorando a vitória de Alcalumbre sobre Renan Calheiros (MDB-Al), que desistiu de concorrer, o senador estreante Marcos do Val (PPS) engrossa o discurso falso muito em voga depois do golpe de 2016. 

Por meio de mensagens desse tipo, a prática política ganha uma capa que não condiz com a realidade. A velha política está aí, e o que é pior, bastante deteriorada. 

Davi Alcolumbre e Renan Calheiros (MDB-AL) são, como se diz no ditado popular, farinha do mesmo saco. Da mesma forma que Rodrigo Maia, eleito presidente da Câmara, todos na esteira do mimetismo que tem como figura de destaque o ex-juiz da Lava Jato e agora ministro de Jair Bolsonaro (PSL), Sérgio Moro. 

O próprio presidente é um exemplo maior da capacidade de vestir uma capa que na realidade não lhe pertence, a começar pelo combate à corrupção, seletivo, cujos alvos são aqueles que estão fora dos círculos alinhados ao poder nascido com o golpe de 2016.  

Da mesma forma, o também estreante Fabiano Contarato (Rede) bradou que o Senado precisa de uma faxina moral, tocando na ferida, mas, de outro lado, exibindo seu voto a Alcolumbre, representante, tal qual Renan Calheiros, da velha política, apesar dos seus 41 anos de idade. 

Davi Alcolumbre, só para lembrar, votou contra a cassação do então senador Aécio Neves, em 2017; votou a favor do aumento salarial dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do procurador-geral da República, sem importar-se com o impacto nas contas públicas; usou verbas de gabinete para beneficiar posto de gasolina de um tio, entre outros atos da velha política.  

O histórico dos atores envolvidos no confuso cenário atual, antigos e novos, confirma uma estagnação dos avanços democráticos com pesadas perdas no campo social e econômico. O novo, capaz de operar transformações na sociedade, ainda está muito distante. 

A capacidade de transfigurar-se, com o apoio da imprensa tradicional e conservadora, está cada vez mais forte, a ponto de levar parte da sociedade a achar normal e bater palmas para a crescente militarização, levado por um discurso de que isso poderá banir a corrupção e reduzir os índices de violência. Ledo engano. 

O velho está presente, igualmente, nas assembleias legislativas e câmaras de vereadores, e em governos estaduais. Isso porque o individualismo é mais forte do que o desejo de justiça e da prática de conceitos ideológicos. O partido de Rodrigo Maia e de Davi Alcolumbre, o DEM, é a antiga Arena, criada pelos ditadores em 1964. Eles têm o mesmo DNA daquela época, velho e carcomido.  

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