Mutirão da verdade

Morte de Herzog acabou se tornando um divisor de águas na história política brasileira

A quem tiver 32 reais, recomendo a compra do livro As Duas Guerras de Vlado Herzog, de Audálio Dantas, editado em 2012 pela Civilização Brasileira. Peça fundamental da história da resistência à ditadura militar, essa obra de 400 páginas pode ser também uma boa opção de presente de Natal. É mais um trabalho que se junta ao esforço da Comissão da Verdade para levantar casos de violações dos direitos humanos na época da ditadura militar.

Vladimir Herzog, jornalista de origem judia, apresentou-se para depor ao DOI-Codi do II Exército na manhã de 25 de outubro de 1975. Dias antes ele havia começado a trabalhar na TV Cultura de São Paulo, pertencente ao governo paulista.

No fim da tarde, foi dado por morto como suicida. Tinha 37 anos, esposa e dois filhos. Era o que se chamaria hoje de um pacifista de esquerda. Interessada em atingir o governador Paulo Egidio Martins, escolhido pessoalmente pelo general Ernesto Geisel, a repressão queria que Herzog fosse um perigoso subversivo comunista. Deu no deu.
 

A versão militar do suicídio – por enforcamento com um cinto atado a uma grade a 1,50 m do chão -- nunca foi aceita pelo Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, presidido na época por Audálio Dantas, que esperou mais de 30 anos para dar sua versão do episódio, ocorrido numa época de tensão e medo.


Naqueles dias de meados de 1975 houve uma escalada de prisões – só em outubro foram presas 200 pessoas, segundo Dantas, que não se atém aos casos de jornalistas caçados, cerca de uma dezena apenas em São Paulo. .  


A morte de Herzog acabou se tornando um divisor de águas na história política brasileira. A partir dali a ditadura, que se prolongaria oficialmente até a década seguinte,  perdeu terreno, embora até hoje mantenha agentes infiltrados em postos públicos e cargos privados. .  


Quase 50 anos depois do golpe militar de abril de 1964, podemos dizer que houve vários graus de resistência ao arbítrio e à prepotência. Dos resistentes, uns foram presos, outros se exilaram, alguns se atiraram à luta armada e a maioria se entrincheirou no silêncio, arguindo metáforas e entrelinhas na imprensa, na universidade, nos sindicatos e nas igrejas.


Foi tamanha a violência que até hoje continuam aflorando depoimentos, revelações e novidades sobre episódios obscuros ou censurados. Tanto que o governo Dilma criou a Comissão da Verdade para levantar casos de violações de direitos humanos.  Estamos em pleno mutirão. É um trabalho fundamental de restauração da plenitude democrática. Nos países vizinhos realiza-se esforço semelhante.
 

No meio desse trabalho de formiguinhas da democracia, encontramos resistências. São os adeptos do autoritarismo, as viúvas da ditadura. Daí a cautela e a prudência com que atuam os membros da CV. Não se descarta o risco de represálias e vinganças em  meio a  atitudes notórias para sabotar a recuperação da memória sobre o obscurantismo que se prolongou por 21 anos.

 
LEMBRETE DE OCASIÃO

Quando era repórter da revista O Cruzeiro, Audálio Dantas descobriu no Rio uma favelada chamada Carolina Maria de Jesus. Ela mantinha um diário. Esse caderno de anotações sobre uma vida de sacrifício foi transformado no livro Quarto de Despejo (Livraria Francisco Alves, 1960) que logo virou best seller. . 

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