O Apanhador no Campo de Centeio

Romance marcou o início da reflexão, tanto na literatura como na mídia, da ideia até então ignorada pela era pré-elvis

 

"The Catcher in the Rye", ou na tradução brasileira "O Apanhador no Campo de Centeio", é um romance do escritor norte-americano J.D.Salinger. Lançado em livro em 1951, o romance marcou o início da reflexão, tanto na literatura como na mídia, da ideia até então ignorada pela era pré-elvis, sobre adolescência ou, ainda, rebeldia da juventude. Marcos do cinema que alimentaram esta ideia, como James Dean, seriam inimagináveis sem as aventuras do jovem confuso e angustiado, Holden Caufield.
 
Holden é o narrador da própria estória escrita por Salinger. Tal personagem narra sua inadequação ao status quo, que é colocada em evidência ao ser expulso do Internato Pencey no qual estudava. Daí em diante, começa o périplo de Holden Caufield no caminho de volta para casa em Nova York, e o medo em relação aos pais saberem de seu fracasso escolar, salvo ter sido aprovado em Inglês (Caufield era bom em redações). Tentando adiar seu retorno ao lar com a notícia de ter tomado "bomba na escola", além de ter sido expulso, Holden foge na madrugada do Internato Pencey para gastar seu dinheiro na boemia. Holden tinha 17 anos, mas já bebia e fumava, sua vida era uma incógnita, seu paradeiro a partir de então, uma interrogação.
 
Antes de sua fuga, Holden conversa com o professor de História, Spencer, volta ao quarto do internato, e logo pega o seu chapéu vermelho de caça que o irá acompanhar até o fim de suas andanças de jovem flâneur. Topa com um dos internos, Ackley, com o qual não ia muito com a cara, tem um arranca-rabo com seu companheiro de quarto, o asseado Stradlater, depois disso se decide a deixar o Pencey antes do previsto, a caminho de um hotel barato em Nova York.
 
Holden passa por várias desde que foge do Pencey, sempre lembrando de pessoas pelo caminho que, às vezes, liga para marcar algo, assim com garotas que costumava sair, ou sua vizinha antiga, e sempre lamentando a ida do irmão escritor a Hollywood, pois odiava cinema (Salinger, o autor da estória, também não gostava muito de cinema, tanto que não autorizou filmagens de seus escritos).
 
Bom, Holden tinha paixão pela irmã caçula Phoebe, e é com quem se encontra no fim de suas andanças até a casa de seus pais. Muitas vezes se lamenta da ausência de seu irmão falecido Allie, mas na maior parte do tempo bebe, fuma, e procura o que fazer para não cair no vazio do tédio, tem até um encontro com uma prostituta, gasta dinheiro à toa por todos os lugares que passa, e termina fugindo da casa de um antigo professor por ter achado a atitude do mesmo estranha ao acariciar a sua cabeça enquanto dormia, passa por bares, conversa e dança com algumas mulheres que ele não levava muita fé, pois eram tapadas. Resolve gastar todo o seu dinheiro e fica, no fim, com vontade de fugir para o Oeste, abandonar tudo e viver numa cabana, mas sua irmã Phoebe, que era seu xodó, o convence de ficar. E, assim, Holden Caufield termina seu caminho do Pencey a Nova York, numa mistura de desejo de fuga, imaturidade, inadequação e angústia.
 
O sentido conferido ao título do livro pode ser a mera e simples divagação de Holden Caufield: “ia ser só o apanhador no campo de centeio”. Do poema de Robert Burns ele divaga sobre salvar crianças de precipícios que correm num campo de centeio. Talvez a metáfora funcione como o abismo existencial de Caufield, poderia ele se tornar um ente messiânico na sua própria falta de sentido, “se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio”, ato falho para o poema original: “se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”! 
 
O romance de Salinger é celebrado nas décadas seguintes ao seu lançamento, vira referência quando se fala em literatura para jovens, e é o retrato perfeito do que viria a ser a moda da rebeldia jovem, antecipando movimentos de liberação e de elevação da cultura jovem a padrão de vida modelo para o nosso parque midiático, culminando no assassinato de John Lennon, ícone pop, por um suposto fã chamado Mark Chapman que, segundo o mesmo, teve a ideia depois de ler o romance de Salinger, o que não justifica qualquer conexão entre este romance e o ato deste infeliz. 
 
O autor, Salinger, após escrever algumas poucas coisas a mais, depois deste romance (o único de sua lavra, que é permeada mais por contos) se isola numa montanha, talvez realizando o ato que Holden Caufield não fez, o de ter ido ao oeste para morar numa cabana. Salinger morre em 27 de janeiro de 2010 aos 91 anos, num grande hiato criativo, muito provavelmente por opção.
 

Gustavo Bastos é filósofo e escritor
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