O apito da panela-de-pressão

O carro pode escorregar pela ribanceira, com sete bilhões de pessoas a bordo

 

A universidade, o governo, a imprensa, o rádio e a TV trabalham com o pressuposto de que a gestão da economia e a condução da sociedade humana são uma única coisa, não havendo outro modo de tocá-los (à sociedade e à economia) senão pela via capitalista, com “crescimento sustentado” (acima da taxa de expansão populacional) e os demais indicadores da boa saúde econômica: inflação baixa (menos de 5% ao ano), juros moderados (menos de 1% ao mês), alto índice de poupança/investimento (20% do PIB) e exportações suficientes para manter elevadas as reservas cambiais.
 
Ora, está na cara que, exceto em países muito pobres, que ficaram na rabeira da corrida capitalista, estão esgotadas as perspectivas de crescimento contínuo da produção de bens de consumo e de capital (máquinas e equipamentos).
 
Após 10 mil anos de civilização (iniciada com a agricultura) e depois de 200 anos de Revolução Industrial (desencadeada pela máquina a vapor e acelerada pela luz elétrica, o telefone, o automóvel, o avião, o rádio, a TV, o computador, o xerox, o laser, os satélites, a fibra óptica), a Terra se tornou uma panela-de-pressão que vem emitindo sinais assustadores e visíveis até pelos mais néscios: poluição crescente, mudanças climáticas, piração generalizada, perda da biodiversidade, erosão genética e outros indícios de que o carro pode escorregar pela ribanceira, com sete bilhões de pessoas a bordo – sem falar dos demais seres vivos.     
 
Comparando a economia com o mar, logo vem a pergunta: como navegar acelerado se as barras portuárias estão sujas, as ondas agitadas e cresce o nevoeiro produzido pelas mudanças climáticas? A resposta óbvia é que está na hora de aprender a navegar de forma mais moderada.
 
O senso comum sabe intuitivamente que é preciso tirar o pé do acelerador, mas os chefes políticos, os comandantes empresariais e os capitães da mídia continuam a repetir o dobrão ouvido na infância: PRECISAMOS CRESCER  para alimentar os famintos e dar abrigo aos desamparados.
 
Balelas: esse discurso está vencido como borracha cansada, pois fracassou a prática nele baseada. Há hoje no mundo, passando necessidades prementes, dois bilhões de pessoas carentes que não foram alcançadas pela boa vontade dos governos ou os bons propósitos das empresas.
 
À luz dos indicadores sinistros de diversos países, o  sistema capitalista é tão ineficiente quanto o foram as experiências comunistas ao longo do século XX. Entretanto, quando  surge uma gestão do tipo socialista-bolivariana, como acontece sob a presidência de Hugo Chavez na Venezuela, fica meio mundo azarando a sorte dos poucos milhões de pobres que conseguiram sair da merda. No Brasil, a elite torce a boca para a ascensão de milhões de carentes que tiraram o pé do barro. 
 
É de profunda má fé o comportamento da imprensa diante da “crise financeira mundial” que assola as economias de todo o mundo. Um exemplo expressivo da perversidade da mídia foi dado na semana passada pela revista VEJA. Ela juntou diversos assuntos numa reportagem malévola cujo resumo foi assim apresentado pela própria editora:
“Com PIB baixo, deterioração fiscal, restrições a importações e dinheiro farto para os bancos públicos, a presidente Dilma Rousseff vem promovendo um verdadeiro revival das piores práticas dos anos 80 na condução da política econômica”.
 
Seguiu assim a chamada: “Reportagem no site de VEJA mostra os perigos embutidos em medidas como essas que, no passado, desorganizaram a economia brasileira e levaram o país ao caos da inflação galopante.”
 
Por aí se pode deduzir que falta inteligência e sensibilidade na maior revista brasileira,
cuja redação se sujeita a repetir A Voz do Dono, segundo o qual é preciso seguir o manual de navegação econômica que está levando o planeta ao colapso.
     
Para encurtar o causo: o mundo precisa se preparar rapidamente para o não-crescimento econômico, tema que está no ar desde 1972, quando o Clube de Roma (uma reunião de sábios, não o time de futebol) lançou o livro Os Limites do Crescimento, boa leitura (capturável na Internet) para estes dias de verão.  
 
LEMBRETE DE OCASIÃO
Ao propor o “crescimento econômico zero” dos países ricos como contraponto ao “desenvolvimento econômico a qualquer custo”, o livro Os Limites do Crescimento tornou-se a pedra fundamental da atual campanha mundial pela sustentabilidade ambiental da Terra.
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