O caminho teatral de Meierhold

O trabalho que Meierhold deixa, será importante como um dos retratos dos vanguardismos que povoaram o turbulento século XX

Meierhold, diretor e ator de teatro, nasceu em 25 de janeiro de 1875, em Penza, cidade provincial a sudoeste de Moscou. Começou a carreira teatral escrevendo críticas de teatro e dando os primeiros passos na interpretação, até que foi para Moscou com o propósito de estudar Direito, mas abandonou a faculdade em 1896, voltou para Penza, onde virou destaque como ator, com apreciação do público e da imprensa local.
 
Meierhold, então, voltou novamente a Moscou para empreender, mais seriamente, seu trabalho de teatro, tornando-se aluno de Dântchenko, e em 1898, passou a integrar o novo grupo Teatro de Arte de Moscou, criado por Dântchenko e Stanislávski. Porém, Meierhold não se coadunou com o verismo do teatro stanislavskiano, já que possuía um porte de ator mais expressivo, tendendo ao grotesco e ao expressionismo na interpretação, num desempenho que poderia ser chamado de febril, que era uma antítese da proposta realista do teatro de Stanislávski.
 
Meierhold começa a entrar em conflito com o estilo do Teatro de Arte, pois criticava tal orientação realista deste modelo de teatro, culminando em uma nova busca de expressão estilizada. Meierhold criticava em Stanislávski que seu realismo limitava o teatro ao palco, minando o diálogo deste palco com o espectador. Ou seja, o realismo de Stanislávski manteria seu maquinário "por trás" da quarta parede. Meierhold, por conseguinte, deixa o Teatro de Arte, e organiza um grupo de nome Trupe de Artistas Dramáticos Russos, que acaba por imitar todo o repertório do Teatro de Arte, até que, quando o grupo é rebatizado como Confraria do Novo Drama, Meierhold consegue se descolar da verve verista, para maquinações mais evanescentes de cunho simbolista, mesmo com resultados iniciais modestos.
 
Porém, Meierhold continua com suas pesquisas e, aos poucos, encontra o seu próprio teatro, numa via vanguardista para uma expressão do que ele viria a chamar de "estilização" e "quinta-essência da vida", tudo isso no novo clima de experimentação, com o qual caminhava o teatro russo do início do século XX. E Meierhold mergulha na sua busca da poesia e da mística do novo drama. Na criação do Teatro-Estúdio, por exemplo, reuniram-se artistas de áreas diferentes, para a criação de uma linguagem inovadora de teatro, num intercâmbio entre a Confraria e o Teatro de Arte. E o novo drama buscado, era nada mais que o drama simbolista.
 
Meierhold trabalha atrás de uma bidimensionalidade pictórica, contra o modelo naturalista de maquete, arte pictórica com efeitos de luz e cor, o que era exatamente a ideia de Meierhold de "convenção, generalização e símbolo", o que também incluía o impacto grotesco da tragicomédia e da sátira, e que também se fiava no padrão rítmico-musical, que modulava o desempenho do ator em suas falas e gestos.
 
Devido ao trabalho medíocre dos atores, Meierhold decide fechar o Teatro-Estúdio, e isso, por debaixo dos panos, envolvia, na verdade, o conflito nodal Stanislávski-Meierhold. Só que, com este trabalho, já dera tempo de Meierhold amadurecer suas concepções teatrais de dramas simbolistas, tais como em algumas de suas criações cênicas com baixos-relevos e afrescos. Nada mais distante do naturalismo stanislávskiano. E, após o fim do Teatro-Estúdio, Meierhold deixa Moscou rumo a São Petersburgo, onde passa a frequentar os saraus de Ivánov, um dos principais teóricos do simbolismo russo, e é quando Meierhold encontra uma busca do trágico e da transcendência mística para o novo teatro, e conclui a ideia de que se chegara ao esgotamento naturalista e dos psicologismos do teatro ainda em voga.
 
Todos sabiam a dificuldade e o risco que se teria numa inovação simbolista do teatro, uma vez que nada ainda havia se realizado concretamente, é então o momento em que Meierhold forma com Tchulkóv o efêmero projeto As Tochas, que era a tentativa de reunir o elemento místico com o protesto e o engajamento social. Depois do fim deste projeto, que não vinga, Meierhold retoma os trabalhos de sua Confraria, já com uma imaginação de ruptura do espaço cênico tradicional, unicamente centrado no tablado, buscando um teatro total que envolvia também a plateia e o edifício teatral, numa celebração orgiástica de um ritual festivo do espetáculo cênico.
 
Ocorre, então, o encontro de Meierhold com a companhia da atriz Vera Komissarjévskaia, união de forças em prol de um drama poético e espiritual, mas os egos logo se chocam e esta união pelo novo teatro é rompida, mas não sem antes render alguns bons frutos. A feição diretorial que tomara a liberdade da atriz na peça de Íbsen, Hedda Gabler, e que tem uma recepção fria da crítica, logo colabora para a grande realização meierholdiana com Maeterlinck e sua peça Irmã Beatriz, no lirismo idealista e místico deste autor.
 
Meierhold foi o crítico feroz do naturalismo e o precursor da revolucionária explosão teatral dos anos 1920 na então União Soviética. O trabalho meierholdiano foi simbolista, esteticista, construtivista e sintético, tudo como fermento experimental inovador, e Meierhold trabalhou não só como encenador, mas como crítico teórico. 
 
Meierhold chega, com o tempo, ao que ele chamará de teatro da "convenção consciente", em que todos sabem o intéprete como tal, onde o espectador entra como mais um criador do espetáculo, junto com o autor, o encenador e o ator. E toda a estilização ganha, em Meierhold, também, o sopro do grotesco, o qual não foi só elemento fundante em Meierhold, como também para o Expressionismo e nas cenas brechtianas.
 
A revolução meierholdiana seria feita pelo grotesco, inaugurando seu período soviético com Mistério-Bufo de Maiakóvski, montagem que já seria o "Teatro da Revolução" com feições construtivistas e sintéticas, concretizando na biomecânica a técnica corporal e espacial do ator neste novo vanguardismo teatral. Contudo, nem tudo foi alegria, muito pelo contrário. A oposição logo veio à Mistério-Bufo. A reação política seria brutal, com a mão pesada stalinista que viria sobre a intelectualidade soviética ao fim dos anos 1920, embora Maiakóvski acabasse por se tornar o vate oficial do regime de Stálin. No fim de tudo, Meierhold acaba preso em 1939 e é fuzilado dentro da prisão em 1940. O trabalho que Meierhold deixa, será importante como um dos retratos dos vanguardismos que povoaram o turbulento século XX, tempos que se radicalizaram com sua morte trágica.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com     
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