O confronto moderno

A inauguração do sujeito moderno vem libertá-lo das amarras, mas este está imprensado em sua racionalidade

A modernidade tem a marca nascente em René Descartes com o “cogito ergo sum” penso logo existo, nas traduções mais comuns. A inauguração do sujeito moderno vem libertá-lo das amarras da religião, dos dogmas, das verdades estabelecidas por tradições ou manuais, revelando-lhe a possibilidade de conhecer a verdade, “se souber cultivar sua independência e conduzir-se com método”. Contudo, o sujeito do século XXI está imprensado em sua racionalidade, a cada passo ou evento histórico, as verdades absurdas lhe são colocadas prontas e sem possibilidade de arguição.

Um passeio físico, no shopping center para um cinema, já lhe destrói qualquer coerência racional. Vamos aos fatos: a tecnologia disponibiliza todo o consumo através de terminais de computadores onde ele escolhe os produtos que deseja, paga com seu cartão, passa no dispensador e apanha a mercadoria. 

Tudo muito prático e fácil, principalmente eliminando o atendente, o que deveria baratear os preços, mas quando atenta, uma água de 500 ml custa R$ 5,50 ou seja, água, produto que já vem pronto pela natureza, no qual agrega-se somente o valor do engarrafamento e transporte, custando mais de duas vezes o valor da gasolina, cuja matéria prima, o petróleo, é extraído com um enorme custo, passa por complicado processo de refinamento, é transportado para distribuidoras e dessas para os postos de gasolina. 

Saindo da esfera econômica para a política, construímos a democracia a partir do pensamento aristotélico de que o homem é um animal político “ZoonPolitikon” e, a partir do iluminismo, com o estado kantiano, que é onde a construção das leis nas quais o endereçado dela possa também ser seu autor, para que seja o seu cumprimento um imperativo categórico “deves por que deves”, o veículo de uma convivência sem violência, como dizia o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) ,Dr. José Pedro Luchi, na semana filosófica da Católica de Vitória.

Nosso sujeito cartesiano passa pela vitrine da realidade, depois do esfacelamento da razão no shopping, se questionando sobre o governo de sua vida, em nível administrativo ou político, ético e religioso, em que se sente desprotegido, desesperançoso, deparando-se com uma situação ainda mais esdrúxula, pois a “democracia”, cujos principais pilares são direitos humanos e soberania popular, encontra-se desfigurada por um processo sufragista de busca etnonacionalista, ou seja, na busca de um salvador da pátria, vigoroso, um ser superior, que traga a solução de todos os seus problemas, nada mais fazendo que assumindo a menoridade, explícita no “Aufklärung”. 

Os partidos políticos, como partes da representação social, atuando como meros coletivos de transporte às instancias de poder, em cujos estatutos nenhuma ideologia se formaliza, uma vez que se adaptam a quaisquer possibilidades de coligação que facilite a ascensão ou manutenção do poder, enquanto as religiões fazem coro à política, nesse mesmo tabuleiro, no mínimo, confirmando Marx enquanto “ópio do povo”.

A este homem moderno só resta a ética, regulamento da morada espiritual do homem, instrumento de sobrevivência, num mundo caótico de completa e deslavada inversão de valores, onde o sujeito precisa se esgueirar para sobreviver física e politicamente, estar escorregadio em sua sobrevivência e posicionamentos, engendrando um lugar que, acima de tudo, possa lhe caber com sua integridade física e espiritual, sem trair sua humanidade construída por todos esses pensadores,ao longo de milênios, e se defendendo da vala comum da mediocridade a que querem submetê-lo, negando-lhe a autonomia, o livre-arbítrio e o direito à vida plena de sentido e coerência.

Sapere Audi!


Everaldo Barreto é formando em Filosofia pela Católica de Vitória Centro Universitário.

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para manter ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
1 Comentários
  • TIAGO TEIXEIRA VIEIRA , terça, 20 de novembro de 2018

    Parabéns pelo texto, é bom vermos a filosofia ganhando espaço em nosso estado. A reflexão e o diálogo são instrumentos de transformação. Tenho certeza que este espaço será visitado por aqueles que desconfiam dessa modernidade que se compra terra, fogo, água e até ar. Obrigado pelo texto. Do pensar ao consumir. Da liberdade das amarras da Religião a prisão no mercado fechado. Parabéns.