O desejo para Philip Roth

Sua ficção se desenvolve num monólogo íntimo, o que podemos ver em seu romance <i>O Professor de Desejo</i>

Philip Roth, romancista norte-americano, de origem judaica, um dos maiores escritores de seu país na segunda metade do século XX, tematizou muito a questão da identidade judaica nos EUA, explorando, também, a natureza do desejo sexual e o autoconhecimento, como temáticas de suas obras.

Sua ficção se desenvolve num monólogo íntimo, o que podemos ver em seu romance O Professor de Desejo, publicado em 1977, e que envolve um narrador-personagem que conta partes de sua vida durante sua juventude e depois na sua maturidade, tomando como ponto principal de sua reflexão a questão do desejo sexual, e de como este varia de intensidade com o passar do tempo, e como este mesmo desejo suscita diferentes compreensões em estágios distintos da vida.
 
O romance de Roth, O Professor de Desejo, começa com um jovem David Kepesh, o narrador e principal personagem do romance, em sua busca de autocompreensão, sua admiração por Herbert L. Bratasky, um mímico que executa sons dos mais diversos e que se torna um ídolo para David. Ele fica em Siracusa um tempo, onde deixa o exibicionismo de lado, a influência do cômico Herbert já não era mais tão forte. 
O dilema moral de David, agora, vem de uma frase de Lord Byron: "Estudioso de dia, dissoluto à noite." David, logo depois, se depara com outra frase que lhe cai bem, numa espécie de descoberta perfeita: "Um libertino entre eruditos, um erudito entre libertinos." Perfeito. Eureca. E, no meio desse turbilhão, uma leitura exaustiva de Ou isto ou aquilo de Kiekegaard, com David, tendo em seu amigo, o mentor sobre 
Kierkegaard, o nervoso e desajeitado Louis Jelinek. 
 
 Então, David toma seu caminho para um pouco de libertinagem, chega a Londres, onde terá suas novas experiências sexuais, de modo mui libertino, com duas suecas que estavam em Londres para aprender inglês. David estava atrás do mito da moça sueca e de sua liberdade sexual. Encontra Elisabeth Elverskog, e também conhece sua amiga Birgitta. Com as duas, David consegue realizar várias das fronteiras da 
devassidão que, anos mais tarde, será para David pura nostalgia, há um falso acidente e Elisabeth vai embora. David fica um tempo com Birgitta, a qual foi perfeita para ele, 
até que tudo muda, e David deixa Birgitta para trás, indo para a Califórnia. 
 
Birgitta foi perfeita para todas as ideias libertinas que David um dia possa ter tido, o erotismo louco daquele tempo se tornará então uma lembrança somente. David Kepesh teria novos conflitos acerca de sua própria natureza, um rito libertino era nada mais que uma distração para a existência, tal existência que cobrará de David um maior autoconhecimento, o que não virá, certamente, somente do desejo erótico, mas de um entendimento filosófico, um uso da razão mais que da emoção, o instinto domado para o que lhe virá num futuro que já se lhe tornara próximo.
 
David deixa seu sonho de se tornar cafetão de Birgitte (uma chance de ouro se o caminho fosse esse), e conhece Helen, que tinha fugido de Hong Kong, onde tinha um marido mais velho. Roth aí faz alusão a Karênin do romance de Tolstói, Ana Karênina, e David viverá com Helen por alguns anos, ela será outro tipo de perfeição diferente de Elisabeth, diferente de Birgitte, David 
buscará em Helen este novo tipo de realização, um tanto mais madura do que as aventuras sexuais com as duas suecas. 
 
Tudo dá certo por um tempo, depois Helen foge e é presa em Hong Kong. David tem novas crises, não sabe muito bem o que pensar ou fazer, conhece Claire, e tudo o que pudesse exigir das mulheres lhe cai por terra. David se submete ao destino e toma Claire para si. Contentar-se já não era a preocupação, a tranquilidade era mais importante do que os voos libertinos de paixões sexuais avassaladoras. David 
consegue, com Claire, ficar estável, seu conflito entre libertinagem e erudição, entre a devassidão e o autoconhecimento, se apazigua. David conhece agora, talvez, o amor, que é mais que desejo, embora o amor seja um desejo mais feliz, menos tenaz, David aceita Claire como seu fim, não mais o uso indiscriminado de Birgitte, seu sonho de cafetão agora era só uma nostalgia, mas Claire era melhor.
 
O poeta Baumgarten, um de seus mentores da libertinagem, influencia, indiretamente, David a dar umas aulas de Literatura tendo por temática o desejo sexual. David fala mais de si mesmo do que de obras literárias em suas aulas. David, no entanto, teria em sua fase libertina, muitas informações, e ele cede aos alunos tal experiência, mas, tais deslumbramentos e arroubos, ficaram em seu passado. Baumgarten era um tipo de herói, mas David tinha que prosseguir, e deixa as ideias do poeta com o próprio, David vai agora atrás de Kafka, já bem estudado das teorias familiares de Tchékhov.
 
David lembra Kafka. Philip Roth, ao fim deste romance, faz uma bela especulação sobre Kafka. David era professor de Literatura. Kafka e Tolstói, e muitas vezes Tchékhov, aparecem como fontes de 
reflexões intensas neste romance de Philip Roth chamado O Professor de Desejo. David era angustiado e encontra paz espiritual no fim de seu périplo, a família gosta de Claire e tudo estava mais claro para ele 
do que em qualquer outro tempo de sua vida.
 
Philip Roth, apesar de já ter sido muito laureado pela sua obra literária, anunciou em outubro de 2012, numa entrevista, que abandonara a carreira de escritor, não poupando de críticas a realidade literária atual. 
Talvez uma desilusão ou apenas cansaço? Ou mesmo, o que deve ser, uma posição tão crítica que levou a esta decisão radical. 
 
Sua última obra foi Nemesis, de 2010. A Literatura foi muito bem servida pelos escritos de Philip Roth, e sua decisão, embora pareça intempestiva, tem que ser respeitada, uma vez que se trata de um escritor cuja obra é respeitável e premiada.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 
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