O 'fico' furado

Com o "fico", Hartung faz mais um movimento para se manter em evidência no tabuleiro do jogo político

A se confirmarem as notícias, não duraram nem 15 dias as “reflexões” e “análises” anunciadas em entrevistas e comunicados formais do governador Paulo Hartung sobre a desistência à reeleição. Nesta terça-feira (24), a “hora de passar o bastão”, como ele afirmou no dia 9 deste mês, ficou para trás. 

O apego ao poder, revelado desde cedo, falou mais forte e César Colnago (PSDB), o vice-governador que ainda se mantém fiel, talvez por falta de outra opção, foi chamado para rearticular os partidos da base aliada. Ou o que restou deles.  

Tarefa complicada, a considerar as declarações de Sérgio Vidigal (PDT), amigo e aliado que se bandeou para Renato Casagrande (PSB), o opositor que lidera as pesquisas. Da mesma forma, o senador Ricardo Ferraço, do PSDB, sigla destroçada pelas imposições de Hartung. Todos eles confirmam aliança sacramentada com Casagrande.

O “fico”, primeiramente visto como fake news, foi tomando corpo e sacudiu não apenas o mundo político, mas toda a comunidade capixaba, aturdida pela demonstração antiética que todo ato de “voltar atrás” representa. 

As motivações são várias e circulam no mercado político: a desistência à reeleição não passaria de uma estratégia bem armada de Hartung para o jogo, que o coloca como o único capaz de unificar o grupo. No entanto, inversamente, desmistifica a imagem de liderança equilibrada, que ele tanto persegue, como mostram os repetidos discursos de auto-exaltação. 

O “fico” ou sua tentativa confunde a classe política e amplia as engrenagens que deixam aliados pelo caminho, entregue às moscas, além de demonstrar que Hartung só vê a prática política como atividade individual de ação parlamentar e de governabilidade, de forma isolada. 

São comportamentos que não levam em conta a política como esfera pública, que estão se tornando comuns no Brasil atual, cuja vocação do “voltar atrás” alcança a classe política dentro do conceito popular do “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Nesse cenário, não existem grupos, aliados, muito menos amigos. É cada um por si.

As reflexões e os discursos empolados desabam diante do “voltar atrás“ do governador e lembram Hannah Arendt, em seu Origens do Totalitarismo.  “Os chavões ideológicos são meros expedientes destinados a congregar as massas, e não sentem qualquer constrangimento quando têm de alterá-los segundo as necessidades do momento”. 

Com esse movimento, Hartung se esforça para manter-se em evidência no jogo, tentando alterar a cena cujo papel a ele reservado não é dos melhores. 

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