O frenesi da fumacinha

''A Igreja Católica é o PMDB do mundo'', sacou o jornalista/escritor Carlos Moraes

 

“A Igreja Católica é o PMDB do mundo”, sacou o jornalista/escritor Carlos Moraes, que poderia ser um baita cardeal se não tivesse largado a batina 40 anos ano atrás. De Bagé a Caraguá, seus amigos teriam torcido para ele virar papa. Seria um papa colorado e corintiano portador de atestado de pobreza, humildade e inteligência.
 
 
Toda essa comparação pode parecer bizarra mas vem a calhar,  pois as religiões estão em crise existencial. Se a igreja católica lembra o partido de Sarney, é porque ao longo da sua história de quase dois milênios nunca deixou de acender uma vela a Deus e outra aos poderosos de ocasião. Outras igrejas evangélicas não têm partidos próprios  para melhor defender seus interesses? 
 
 
Como lembrou o ex-padre Carlos Moraes numa mensagem aos amigos fieis, “desde Constantino, no século IV, passando por sacros impérios de vários matizes, a Igreja vem se arreglando com os governos”, contrariando o exemplo de Jesus, o fundador que apostou nos pobres e humildes, buscando implantar uma democracia religiosa.  
 
 
Em verdade lhes digo, todas as igrejas são teocracias exercidas de cima para baixo por um soberano cercado de uma minoria de cardeais, que comandam arcebispos e bispos, que chefiam os padres, que se entendem com diáconos e presbíteros, que representam os fieis paroquianos.
 
 
O catolicismo possui uma base de um bilhão de crentes ou fieis que não têm o direito de votar, só lhes cabendo os deveres de aplaudir, rezar e periodicamente comparecer com os necessários óbolos. O mesmo acontece com outras religiões, algumas escandalosamente vorazes em seu afã monetário, como frequentemente se pode ver em programas de televisão onde a chantagem cabresteia o fanatismo.  
 
O resultado desses sistemas de gestão autocráticos são impérios patrimoniais que englobam catedrais, igrejas, galpões, antigos cinemas, capelas, conventos e prédios particulares lotados de obras de arte e castiçais dourados, entre outras joias.
 
 
No ápice do império católico sobressai o Vaticano, cujas pequenas dimensões territoriais não impediram que se transformasse num palco turístico internacional dentro da Itália, o país que mais se beneficia dessa sacra vizinhança.
 
 
Quando o grande pátio apresenta seu principal espetáculo – a eleição do  novo papa –, todos (até os descrentes) fazem sua fezinha, apostando na eleição de um não europeu. Seja qual for sua origem, o rei dos católicos precisa ser um pouco ator, um tanto empresário e outro tanto de político. Nesse perfil misto, convenhamos, sobra pouco espaço para o papel de pastor, como era o pobre revolucionário que começou tudo no vale do rio Jordão.   
 
 
Todo esse frenesi demonstra que nem a Igreja Católica, tão antiga e sisuda, resiste à pressão da sociedade do espetáculo. Num autêntico desfile de moda eclesiástica que nem de longe lembra as vestes grosseiras dos pescadores da Galileia, os cardeais caminham lentamente pelas passarelas, dóceis a um ritual que poderia ser perfeitamente feito via internet, dispensando o antiquado ritual da fumaça branca. Mas não, sem fumacinha não tem graça.
 

LEMBRETE DE OCASIÃO
 
“Se falta lã para alguns, a culpa não é das ovelhas.”
 
Carlos Moraes num dos contos de O Lobisanjo (Vozes, 1970)
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