O grande Gatsby e Fitzgerald

Fitzgerald realiza em Jay Gatsby um ideal de vida e até literário, e no narrador Nick Carraway o seu melhor investigador

F. Scott Fitzgerald, escritor norte-americano, um dos maiores de seu país no século XX, é figura do espírito do Jazz dos anos 1920, e de toda loucura e embriaguez destes anos, que culminaram com o seu fim trágico no alcoolismo. Fitzgerald foi um dos mais proeminentes vultos da dita geração perdida da literatura norte-americana, terminando em Hollywood entre bebidas e roteiros cinematográficos. Concluiu seu romance mais conhecido, O Grande Gatsby, em 1925.
 
Com o narrador Nick Carraway, temos o romance O Grande Gatsby, como o relato deste narrador, que também é personagem, da estória que envolve a atmosfera de um mundo boêmio e repleto de riqueza e luxo, como num transe festivo comandado pela figura central de Jay Gatsby, que se torna uma espécie de ídolo ou referência para Nick Carraway, dentro do contexto da febre do Jazz dos anos 1920, em que tudo é reluzente e falso tal como toda embriaguez.
 
Nick Carraway vai a West Egg, estabelece residência numa casa confortável, porém pequena, entre duas mansões, sendo que a da direita é do famoso Gatsby, ser enigmático e obscuro, no qual confluem toda fauna de convivas e grupos que só querem a festa sem fim de sua mansão. Carraway entra como convidado por Gatsby em uma dessas festas extravagantes, e se depara com um mundo de "uma luz incessantemente mutável". O ecletismo se torna caos, e o espírito de toda festa grandiosa é exatamente a celebração do caos, onde na verdade o anfitrião é desconhecido e objeto de especulações românticas tanto pela sua origem como por sua história, Gatsby é um ser que reúne em si todas as pessoas, mas não é conhecido por ninguém.
 
O ar efêmero é o que conduz todo o enredo do romance, pois da festa de Gatsby não há nada de sólido, tudo perpassa, e nada fica, tudo é demais e excessivo, como num gesto de preencher na mansão o vazio de uma alma. Ou ainda, a fuga através do povoamento fugaz de uma embriaguez festiva, que tem na fama e no sucesso seu maior engano. Gatsby só teria em Nick Carraway seu único amigo, e que não lhe abandonará quando a festa acabar.
 
O terrível da tragédia é o ar que se esconde por trás da festa, e Gatsby pagará o preço, pois da embriaguez de todas as noites de sua mansão, ele terá na sua imensidão vazia o fim de seu sonho de ter em Daisy, prima de Nick Carraway, a retomada de uma história que tinha sido interrompida pelo fato de Gatsby ter ido à guerra pelo exército americano, e Tom Buchanans, homem absurdamente rico, ter tomado Daisy por esposa. 
 
O trágico em Gatsby é sua esperança, que logo se chocará com a morte, e todo o abandono universal cairá sobre seu corpo velado por Nick Carraway, enquanto todos os convivas das festas homéricas da mansão de Gatsby, a até mesmo Daisy, não estarão no momento triste da tragédia, após o atropelamento fatal de Myrtle, do qual George B. Wilson se vinga.
 
Gatsby morre junto com seu sonho de grandeza, onde o pouco ou o mais importante, ter Daisy, não será o fim imaginado. Pois, com o fim da festa, também termina a vida de Gatsby, e Nick Carraway vem nos contar esta história fascinante, com tom reverente sobre esta figura que reunia tantas características peculiares, ao menos pelo olhar do narrador, que nos dá o romance O Grande Gatsby pela pena de F. Scott Fitzgerald. 
 
Em Grande Gatsby se reflete uma época de desbunde, é o mundo norte-americano antes da crise de 1929, portanto, um mundo em expansão no pós-guerra, com novas esperanças, sem qualquer previsão do embrutecimento que viria nos totalitarismos que provocariam a maior de todas as guerras. Então, havia ainda uma inocência que é própria da boemia, um deslumbramento luxuoso que também é ilusão e que é evanescente como o ar embriagado do álcool, nota funesta da história do próprio escritor, criatura destes anos, criador destes anos, que fez da literatura o reflexo de todos os acontecimentos que vivenciara em sua carne como um dos que se perderam pelo vão de uma vida ceifada. Ficou o registro, e este é fiel aos anos vividos e ao clima mais autêntico que ficou de todo este milagre festivo que tem no personagem Jay Gatsby a sua idealização mais profunda.
 
Fitzgerald realiza em Jay Gatsby um ideal de vida e até literário, e no narrador Nick Carraway, o seu melhor investigador. Nestas duas figuras se condensa todo o enredo do Grande Gatsby, e dentro de toda festa retratada, os dois estão juntos como uma dupla face que faz a unidade do romance escrito, em que narrador e herói compõem o ideal romântico, tanto da morte trágica, como da boemia deslumbrada de uma vida de luxo e da mais pura ilusão. Fitzgerald é o investigador Nick Carraway, e encontra sua escultura literária ideal em Jay Gatsby.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com 
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