O modelo tirano

O modelo político excludente é tirano e contrasta com a fala de quem defende as reformas previdenciária e tributária

Tiranias do dinheiro e da informação são a base do capital globalizado, segundo a visão lúcida e objetiva do professor Milton Santos, um dos grandes pensadores brasileiros, já falecido, reconhecido mundialmente. Soma-se a esses dois um terceiro elemento, igualmente tirano, o modelo político neoliberal.

Com seus métodos gerenciais “milagrosos”, aumentam a concentração de renda e desconstroem direitos sociais, como se pode observar no modelo de gestão capixaba, base de palestras do governador Paulo Hartung (sem partido), que atrai núcleos articulados para disseminar o retrocesso de políticas públicas no Brasil e ganha espaços na mídia ávida de poder.    

Por meio de medidas excludentes a uma efetiva participação da sociedade no debate, formatadas de modo a encobrir seus reais objetivos, todos privatistas, a população tem o acesso impedido a programas previstos na Constituição Federal, que acaba de completar 30 anos, pisoteada e esfarrapada no golpe de 2014.

Em meio a um emaranhado de iniciativas da classe política alinhadas cada vez mais à direita e à extrema-direita, esta ligada a sistemas religiosos, o modelo vigente no Brasil segue com características punitivas extremamente acentuadas, apoiado no faz-de-conta da maior parte do Judiciário, em direção à liberdade sem limites para a população portar arma de fogo, reduzir a maioridade penal e erguer penitenciárias, onde serão colocados, em sua maioria, pretos e pobres.

Para eles, o encarceramento em massa é a forma mais eficiente de combate à violência; para os mais ricos, de outro lado,  valem os privilégios de sempre agora mais ampliados, sendo o exemplo mais recente, no Estado, a liberação de créditos do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), concedida à mineradora Vale.

A bondade do governador para com o empresariado, via renúncias fiscais e concessões de créditos, contrasta com declarações feitas em suas palestras, dias 5 e 8 deste mês, em São Paulo. Na ocasião, repetiu o “ajuste fiscal duro, mas também focado em políticas sociais”, frase cujo conteúdo não condiz com a realidade de um Estado em que 224 mil pessoas vivem abaixo da linha de pobreza, com uma renda domiciliar per capita inferior a R$ 140 por mês (equivalente a US$ 1,90 por dia, conforme a classificação do Banco Mundial).

Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e fazem parte da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) de 2018. Eles mostram, também, que um em cada quatro jovens no Estado nem estuda e nem trabalha e que mais 38 mil pessoas passaram a viver na pobreza extrema entre 2016 e 2017.

Uma sociedade em que o medo alcança a todos e a verdade assume uma relatividade que a transforma em meros pontos de vistas pessoais. As versões valem mais do que dados concretos e palestras para grupos fechados pesam mais do que a realidade das ruas, locais onde pobres perambulam a esmo na trágica viagem do esquecimento.

São vítimas da tirania de um modelo político que trabalha por reformas, previdenciária e tributária, visando ampliar os privilégios, e não está nem um pouco preocupada com os aspectos sociais que incluam a saúde, educação, uma política nacional de habitação, saneamento e programas de redistribuição de renda.

A tirania não permite essas coisas.

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