O papagaio

Todo o hair metal dos anos 80 foi feito com vocalistas cantando com voz de papagaio

Resolvi comprar um papagaio. Fui à uma loja de pássaros, decidi que não colocaria corrente em seu pé, ele ficaria na minha casa se quisesse. Logo pensei num nome para o papagaio, pensei muito, e então veio o nome: Bibi, um nome ambíguo, já que, na verdade, não dava para saber se o papagaio era macho ou fêmea, e Bibi pode ser macho ou fêmea que não tem muito problema.

Logo me veio as ideias toscas de fazer o papagaio aprender a falar, e lógico que pensei primeiro em xingamentos e onomatopeias. Me lembrei que, quando eu era criança, fiquei sabendo, não sei se é verdade, que havia um papagaio que sabia cantar parabéns, mas sempre havia sonhado com um papagaio que xingasse. Mas mudei de ideia, pois isso poderia dar um problema danando com visitas, tipo, entra uma pessoa em sua casa e o papagaio já diz: “filho da puta”. Não iria dar muito certo.

Depois de um mês com o papagaio, ou melhor, o Bibi ou a Bibi, me peguei ouvindo Guns N’ Roses. Percebi então que os vocais estridentes do Axl Rose pareciam o timbre de um papagaio agitado, meio “Welcome to the jungle we've got fun and games”, uma coisa, como posso dizer, voz de papagaio, pô! Logo vi abrir diante de mim um tipo de “eureca”, eu era o Arquimedes, só faltou eu sair nu correndo pela rua, mas vi o Bibi ou a Bibi, e comecei a fazer exercícios de canto com o papagaio. Foi lento o processo, colocava o som estéreo com Guns, enchia o saco do papagaio, era uma loucura, além de fazer o papagaio falar, não, eu queria que o papagaio cantasse em inglês, pô, como isso poderia dar certo?

Bibi então soltou um “wekom de jungo”, já era um começo, mais um mês, e Bibi seria um cover perfeito do Axl. Viajei na maionese que poderia fazer apresentações de Bibi para visitas em minha casa, como um show pequeno para distrair a moçada enquanto rolava o vinho e os quitutes e quetais. Era uma viagem, mas fazia sentido, o Axl tinha voz de papagaio, e Bibi era agora cover do Axl que tinha voz de papagaio, mas é óbvio, todo vocalista poser tinha voz de papagaio, todo o hair metal dos anos 80 foi feito com vocalistas cantando com voz de papagaio, pô, é óbvio!

Depois de mais um mês treinando Bibi, o papagaio já soltava um “welcome to the jungle” quase perfeito. Me empolguei, Bibi era agora cover de Axl, minha ideia agora fazia sentido, pois se tornara real. Bibi agora toda hora soltava um “welcome to the jungle”, era fascinante, eu agora tinha um papagaio que cantava em inglês, pô, magnífico!

Meu objetivo agora era que Bibi completasse pelo menos a primeira frase da música, e depois de mais um mês, Bibi soltava “welcome to the jungle we`ve got fun and games”, caraca, meu delírio agora era então fazer Bibi cantar a parte “In the jungle, welcome to the jungle, Watch it bring you to your knees, knees”, mais um mês, e tudo dava certo, Bibi soltava toda hora esta parte, mostrei para o meu primo, e ele soluçou de gargalhar, meu papagaio agora era um cover perfeito do Axl.

Então eu resolvi treinar Bibi para soltar a primeira frase da letra de Welcome to the jungle e depois o trecho que ensinei em seguida. Foi perfeito, agora era só completar “In the jungle, welcome to the jungle, Feel my, my, my serpentine”. Voilá, meu papagaio agora aprendia a cantar cada vez mais rápido, Bibi era um cover perfeito do Axl, e então fiz ele falar “gunzeroze”, e ele falou, pô, genial!

Agora ele já poderia enfileirar: “Welcome to the jungle, We´ve got fun and games” seguido de “In the jungle, welcome to the jungle, Watch it bring you to your knees, knees” e logo em seguida Bibi falava “gunzeroze!”. Tava pronto meu papagaio. Bibi, agora também conhecido como cover do Axl, pô, era uma loucura, eu agora tinha ensinado meu papagaio a cantar, e só descobri que isso era verdade fazendo, lógico, tentativa e erro, tentativa e acerto, como um cientista maluco no mundo animal. Bem-vindo à selva, bibi, cantaê: “In the jungle, welcome to the jungle, Watch it bring you to your knees, knees”, hahaha. Bibi era um Axl verde, e soltava para a visita: “gunzeroze!”. E era uma festa.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog : http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

 

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