O poema do haxixe

''O haxixe estende-se então sobre a vida como um verniz mágico; colora-a em solenidade e ilumina-lhe toda a profundidade''

Charles Baudelaire, poeta francês do século XIX, é considerado um dos precursores do Simbolismo na poesia, além de ser também reconhecido como fundador da tradição moderna em poesia. Seu livro mais conhecido é o que reune 100 de seus poemas, As Flores do Mal, livro que ganhou notoriedade com o tempo. No caso, aqui nesta resenha, venho falar de outro livro que Baudelaire escreveu, Os Paraísos Artificiais, obra que se divide em duas partes principais, a primeira intitulada "O poema do haxixe", e a segunda "Um comedor de ópio". No momento, vou expor aqui, alguns pensamentos que estão contidos nesta primeira parte, o poema do haxixe, para depois, na resenha seguinte, expor a segunda parte, do comedor de ópio, que, por sua vez, é resultado da pesquisa literária de Baudelaire sobre os escritos de Thomas de Quincey.
 
Em 1843, Baudelaire estreia na coletânea literária Vers, e é aí que se instala o famoso "Club des Haschischins", o que serve de inspiração ao poeta para a primeira parte de seu livro Os Paraísos Artificiais. Seguindo, portanto, esta inspiração, Baudelaire fala na introdução do livro: "Diz-nos o bom senso que as coisas da terra pouca existência têm, e que a verdadeira realidade está apenas nos sonhos". Ao que segue, no poema do haxixe, veremos uma exposição das virtudes e perigos que envolvem o uso de tal substância. Baudelaire inicia, então, uma diferenciação entre a felicidade natural e a artificial, sendo que a natural é fruto do cotidiano, de realizações e sensações ligadas à prática da vida, enquanto que a artificial se constitui numa espécie de magia que leva o homem aos arcanos da mente sonhadora,
mas que terá preços que serão aqui expostos, nos próximos parágrafos.
 
Na parte I do poema do haxixe, intitulado "O Gosto do Infinito", podemos ver Baudelaire dizendo: "Há dias em que o homem desperta como um gênio jovem e vigoroso." Ao que segue: "O homem contemplado com esta beatitude, infelizmente rara e passageira, sente-se ao mesmo tempo mais artista e mais justo." Tal é o que Baudelaire afirma deste estado excepcional do espírito e dos sentidos, o que o poeta definirá de estado mental paradisíaco. "Esta acuidade do pensamento, este entusiasmo dos sentidos e do espírito, devem ter aparecido ao homem, em todos os tempos, como o primeiro dos bens, por isso, considerando apenas a volúpia imediata, sem se preocupar com a violação das leis da sua constituição, procurou na ciência física, na farmácia, nos mais grosseiros licores, nos perfumes mais sutis, em todos os climas e em todos os tempos, os meios de fugir, mesmo apenas por algumas horas, ao seu habitáculo de lodo, e como diz o autor de Lázaro: arrebatar o paraíso num só gesto."
 
Portanto, os vícios do homem contêm a prova do seu gosto do infinito. Se quis, pois, criar o paraíso graças à farmácia, às bebidas fermentadas, e é nesta depravação do sentido do infinito que está toda a razão de todos os excessos culposos, desde a embriaguez solitária e concentrada do escritor que, obrigado a procurar no ópio o alívio de uma dor física, e tendo assim descoberto um manancial de gozos mórbidos, faz dele pouco a pouco a sua única higiene e como que o sol da sua vida espiritual.
 
Segundo Baudelaire, entre as drogas mais capazes de criar aquilo a que ele chama de "Ideal artificial", estão o haxixe e o ópio. Portanto, a análise dos efeitos misteriosos e dos prazeres mórbidos que estas drogas podem engendrar, dos castigos inevitáveis que resultam do seu uso prolongado e, finalmente, da própria imoralidade implícita nessa procura de um falso ideal, consitui a matéria de estudo de Baudelaire em seu livro "Os Paraísos Artificiais."
Na parte II do poema do haxixe, intitulada "Que é o haxixe?", temos uma noção das origens e características do haxixe. Pois, desde os relatos de Marco Polo, de outros viajantes antigos, e relativo à sociedade secreta dos Haxixins (Assassinos), de acordo com o livro de M. de Hammer e a memória de M. Sylvestre de Sacy, até aos testemunhos do historiador antigo Heródoto, sabe-se da origem do haxixe, o Oriente. Tal que era conhecido desde o Antigo Egito, espalhado também na Índia, Argélia e no mundo árabe. 
 
O haxixe, ou cânhamo indiano, cannabis indica, é uma planta da família das urticáceas, com extraordinárias propriedades embriagadoras, e é quando está em flor que possui maior energia. Com as extremidades floridas sendo as únicas partes empregadas nas diferentes preparações, donde as propriedades de embriaguez vêm de sua matéria resinosa. Quanto aos efeitos na mente humana, estes variam de acordo com o temperamento dos indivíduos e sua susceptibilidade nervosa, podendo ser efeitos mais ou menos vigorosos. Tais efeitos podem ser de alegria imoderada, sensação de bem-estar e de plenitude, ou um sono equívoco e atravessado por sonhos. Em regiões como a França, por exemplo, em que o haxixe se mistura ao tabaco, podemos ter um efeito mais moderado, num fenômeno que se produz de maneira preguiçosa.
 
Na parte III do poema do haxixe, intitulada "O teatro de Serafim", segue-se um trecho da curiosidade despertada pelo haxixe: "Que se sente? Que se vê? Coisas maravilhosas, não é verdade? Espetáculos extraordinários? É belo? É terrível? É perigoso?". Estas são as perguntas comuns dirigidas pelos ignorantes aos adeptos. Ou seja, de acordo com Baudelaire, tal ignorância leva a crer que há uma imaginação em relação à embriaguez do haxixe como um país prodigioso, "um vasto teatro de prestidigitação." Trata-se de um equívoco. 
 
Segundo Baudelaire, o estado de sonho do haxixe é diferente do fenômeno do sono, e aí o poeta distingue os dois tipos de sonho no homem: o sonho natural e o sonho hieroglífico. O primeiro, como um fenômeno cotidiano em que a mente humana reorganiza seu aprendizado diário, e o segundo, com um viés simbólico, no qual a alma é estudada, numa língua particular do inconsciente. E a embriaguez pode ser, relativamente, encaixada no exemplo do sonho natural. Pois não há, diretamente falando, uma ilusão psicótica de alucinações naturais no haxixe, pois a coisa se dá mais na imaginação desperta, o fluxo de pensamentos é que se libera, e não faculdades visionárias do estado de loucura clássico.
 
O haxixe funciona como uma espécie de lente de aumento das coisas que já estão no próprio homem, e não se trata, portanto, de uma produção de um mundo novo. É mais uma sensibilidade alterada do que uma nova faculdade mental. O haxixe, para Baudelaire, funciona como um espelho ao indivíduo que a consome, daí que eu digo que há a introspecção profunda e auto-análise quando se está num estado mental desses. E, é bom saber: a frequência de apelo a este sortilégio tem como efeito do uso prolongado uma debilitação da nossa vontade, este é o preço. 
 
Aos iniciantes no haxixe, de acordo com Baudelaire, os efeitos primevos são de hilaridade, uma espécie de extravagância cômica, aonde as palavras mais simples e as ideias mais triviais ganham uma fisionomia esquisita e nova. E a benevolência também ocupa um lugar nas sensações do haxixe. Mas, neste caso, se trata de um tipo de benevolência mole, preguiçosa, muda, derivada do enternecimento dos nervos, e a sensação produzida de prazer supremo faz crer ao indivíduo que se está cheio de vida e cheio de gênio, a sensação de inteligência é a maior ilusão de todas para o usuário. Há como um aumento da faculdade do olho espiritual, que tem o sentido da plenitude ilusória que, por sua vez, se fia nos ricos detalhes, e que se perde do controle de seu próprio tempo. Trata-se do mergulho artificial na beatitude tão cara aos Orientais.
 
Depois da hilaridade, ou esta comicidade extravagante, ao iniciante vem a sensação de apaziguamento e estupefação, os olhos dilatam-se, e o hino preguiçoso toca num êxtase implacável, com um estado de languidez e de espanto que é quase felicidade. Neste momento, as analogias da imaginação ganham um caráter até despótico, e as proporções do tempo e do ser ficam completamente desordenadas pela multidão e intensidade das sensações e das ideias, e o uso pesado leva ao perigoso exercício em que a liberdade desaparece, abolida a noção do tempo, e eis-vos incapazes de trabalho, ação e energia, como punição à prodigalidade ímpia em que se houve despendido o fluido nervoso.
 
Na parte IV do poema do haxixe, intitulada "O homem-deus", se dá a análise de Baudelaire sobre os efeitos do haxixe em inteligências supostamente privilegiadas. Pois, numa inteligência sensível e original, tal embriaguez do haxixe pode ser algo como um estado misterioso e temporário do espírito, no qual a profundidade da vida, eriçada dos seus problemas múltipos, se revela inteiramente neste espetáculo. 
 
Falando da alegoria, por exemplo, temos em Fourier e Swendenborg, um com suas analogias e o outro com suas correspondências, uma encarnação no vegetal e no animal que surgem diante dos olhos, como um acesso a um lugar em que o ensino se dá não pela voz, mas sim numa doutrina através da forma e da cor. A inteligência da alegoria toma proporções inéditas, desconhecidas, e este gênio espiritual da alegoria, que tem na poesia a sua forma material, ganha, nesta embriaguez do haxixe, o legítimo domínio desta nova inteligência entorpecida. 
 
Nas palavras de Baudelaire: "O haxixe estende-se então sobre a vida como um verniz mágico; colora-a em solenidade e ilumina-lhe toda a profundidade." A gramática, coisa que em si é árida, torna-se uma feitiçaria evocatória. E a música, por sua vez, bálsamo que é, tanto aos preguiçosos, como aos espíritos profundos, passam a contar-lhes o poema de suas vidas. E há aí uma espécie de euritmia, em que tudo aparece, de forma ilusória, em seu sentido, num ritmo imortal e universal. Estes são os sofismas do haxixe, muitos e admiráveis, tudo num ardor de sutilezas, nas quais cada gesto se reveste como uma preciosidade.
Por outro lado, sabe-se que a atonia é o resultado mais comum do abuso que os homens fazem dos nervos e das substâncias capazes de excitá-los. E, ao homem sensível e original, ao se fundar em tal ilusão, tem como ouro falso, a aparência gloriosa desta beatitude, na qual a contradição se desvanece, e todos os problemas filosóficos se tornam límpidos, tudo se tornando matéria de gozo, e a sensação de plenitude que remete ao Oriente, numa meditação frouxa, descanso onde tudo se pensa e se imagina, coisas sutis e maravilhosas, embora incapazes de se tornarem trabalho filosófico efetivo. Daí, portanto, a inutilidade deste mundo das ideias em que se dá o pensamento no haxixe. Ou seja, esta plenitude e benevolência lhe coloca à altura da divindade e do gênio, mas, como todo verniz, é uma produção de ficção. O espetáculo do raciocínio, nestas condições, se vê, portanto, subjugado a esta substância.
 
Esta orgia espiritual tem seu preço. É o que se vê na parte V do poema do haxixe, intitulada "Moral". A impossibilidade de aplicação de si num trabalho continuado, eis o sentido de se haver jogado um jogo proibido. Esta iluminação espiritual fácil se torna anelo ilusório, e jogo de apelação da mente humana a favor de um desserviço que a destrói. Ou seja, a beatitude que há em sentido religioso e místico, resultado de esforço espiritual, no caso do haxixe e demais substâncias, tem um jogo ganho com facilidade, mas tal acesso frouxo é um jogo do espelho em que este autoconhecimento ou introspecção não passam de uma maquiagem espiritual, com todas as responsabilidades decorrentes de se estar numa ilusão. Isto é, o espelho da droga é falso, evidentemente. A vontade, a mais preciosa das faculdades espirituais, se vê fracassada.
 
Um homem incapaz de ação, capaz apenas de sonho, sofre a vergonha da abolição de sua vontade, sendo o pacto satânico de suas faculdades mentais descobertas, fadadas à inutilidade. Este homem, o qual se entrega ao haxixe ou quejandos, é um entretido da própria imaginação, porém com preguiça de traduzi-las no mundo real da vigília. Diminui-se a dor, certamente, mas há uma supressão de liberdade, de movimento. Eis a imoralidade do haxixe: atravessamos a porta do ordinário, e atingimos arcanos interditos, mas eles são falsos. 
 
O suicídio que apela à feitiçaria, à magia, e em que a alma filosófica embriagada, com o seu gênio aumentado pelo haxixe, não se dá ao trabalho de registrar tais visões, se coloca, pois, como um refém, numa vida sonhada, em que a vontade e o livre-arbítrio são enlanguescidos terrivelmente. E, já no trajeto do abuso da substância, na falsa ventura que se dá numa espécie de magia mental, o adepto, então, se depara com sua fatalidade: o sonho visionário que imagina tudo, mas está débil de ação, e não faz da sua visão, portanto, verdadeiro trabalho filosófico.
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com
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