O recado do povo

Manifestações da cultura popular, como Carnaval, contribuem para reduzir a fragilidade da democracia no Brasil

A deposição da presidente Dilma Rousseff por meio do golpe parlamentar/jurídico/midiático/militar em 2016, com “Supremo com tudo”, e a prisão arbitrária do ex-presidente Lula, impedindo-o de disputar as eleições presidenciais de outubro de 2018, não conseguiram calar a voz do povo. O Carnaval que se encerra nesta terça-feira (5) comprova que, apesar das investidas, por vezes desumanas, Lula se mantém vivo. 

O feriado carnavalesco também mostrou a face do governo Jair Bolsonaro, meses depois de eleito, agora sem a maquiagem das fake news. O que pode ser visto é desencanto pela inoperância, o despreparo e a total ausência de aptidão para ocupar o cargo público mais importante da nação. Situação agravada com a militarização acrescente dos núcleos de poder, gerando a suposição de que o presidente é um mero cumpridor de ações programadas nos quartéis. 

Nesse cenário, as manifestações populares registradas no Carnaval, em todas as suas esferas e em várias cidades, inclusive Vitória, comprovam um desgosto crescente na sociedade para com o governo e, ao mesmo tempo, o fortalecimento da solidariedade ao ex-presidente, mantido na prisão por força de decisões contestadas nos meios jurídicos. 

Das luxuosas escolas de samba, no Rio de Janeiro, aos blocos tradicionais como o Regional da Nair e BatuqDellas, em Vitória, além de foliões isolados, esse Carnaval densamente politizado não poupou Bolsonaro e figuras de destaque no governo. 

Confirma o sentimento popular revelado em pesquisa XP em parceria com o Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) divulgada em 17 de janeiro. Apenas 40% dos entrevistados avaliaram o início do governo Jair Bolsonaro como ótimo ou bom. Esse índice é o mais baixo alcançado por um presidente da República em início de mandato. 

Ao assumir o protagonismo da resistência política contra a ascensão da extrema direita, personificada na família presidencial e em seus auxiliares mais diretos, a maior festa popular do País toma o lugar de partidos políticos de esquerda, cujas ações em defesa da democracia, pelo menos até agora, se mostraram bastante tímidas. Incluindo o PT, partido do ex-presidente Lula. 

A democracia brasileira sempre encontra reforço, historicamente, em manifestações da cultura popular, que representam forte contribuição à redução da fragilidade gerada na falta de ideologias político-partidária, o que explica o grande número de siglas a acolher candidatos segundo seus interesses. Distanciados da coletividade, omitem-se em momentos de crise, como o atual. 

Ao levar para ruas e avenidas a insatisfação com o governo e expor facetas do racismo e do preconceito, as manifestações carnavalescas contribuem para reescrever a história do Brasil, revelando a face cruel de uma elite descompromissada com as classes mais pobres. Esse sentimento forma uma sociedade opressora, onde o outro não tem vez, é sempre um inimigo a ser abatido.

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1 Comentários
  • machado , quarta, 06 de março de 2019

    O colunista usa o espaço do SD para fazer proselitismo em favor da seita lulopetista cujo líder está preso e esperamos que continue preso por um bom tempo. As críticas ao Presidente são sempre bem vindas, porque o carnaval sempre foi uma festa de contestação de quem está no poder. Isso não ocorria nos tempos em que a quadrilha lulopetista assaltou o Brasil com o apoio do establishment (mídia, banqueiros, partidos políticos, grandes empresários, classe artística). Essa narrativa do golpe de 2016 é importante para a militância, porém, ela não convence ninguém do lado de cá, prova disso é que os nossos irmãos de Minas Gerais mandaram aquela oligofrênica para o espaço no pleito eleitoral de 2018, juntamente com o ex-governador daquele Estado. O Brasil se libertou do mal, a Venezuela estava batendo a nossa porta, felizmente, os petralhas não conseguiram cooptar as Forças Armadas, como fez o Hugo Chaves no país vizinho.