Parque do engano

Parque Atlântico, da Vale e prefeitura de Vitória, é mais um “cala-boca”

A Vale tem dezenas de multas não pagas decorrentes dos elevados índices de poluição despejados diuturnamente na atmosfera da Grande Vitória há pelo menos meio século. Mas isso não importa. 

Fica na conta dos inúmeros recursos judiciais e, principalmente, pelos acordos assinados e nos quais são inseridos os velhos “cala-boca”, uma forma de “me engana que eu gosto”, como canta o sambista, que neste ano atende pelo nome de Parque Atlântico, a ser construído no final da Praia de Camburi, em Vitória. 

O local vai embelezar ainda mais a entrada do complexo da Vale, onde a prefeitura inaugurou em 2017 o Memorial Araceli, em homenagem à menina submetida a abuso sexual e assassinada há 44 anos, em festivo ato comandado pelo prefeito Luciano Rezende (PPS) e o vereador e então supersecretário Fabrício Gandini (PPS), com ares de movimentação em torno de sua candidatura a deputado estadual.  

O Parque Atlântico agrega o projeto do parque Zé da Bola, anunciado com estardalhaço ainda no primeiro mandato de Luciano Rezende e que nunca saiu do papel, restringindo-se a melhorias no campo de futebol já existente e alguns equipamentos esportivos, igualmente divulgados em clima de ações de marketing eleitoral. 

Tudo ficou para trás, engolido pelo projeto da gigante da mineração, poderosa para barrar o pagamento de multas e manter em funcionamento as oito usinas e os pátios de exportação de minério despejando toneladas de pó preto no ar, na areia e no mar. 

Esse assunto também é silenciado pelos anúncios de que no local do Parque Atlântico haverá espaços para aulas de preservação do meio ambiente e obras para recuperar a faixa de areia destruída pelo minério. Pelo acordo, é o que importa.  

Os casos de tosse crônica, dores de ouvido, nariz e inflamações na garganta, enfisemas pulmonares e doenças cardíacas provocados pelo pó preto, além da sujeira espalhada por toda a região, não importam. Os gestores públicos e os formuladores de modelos de desenvolvimento   econômico estão preocupados em aceitar os termos impostos como meras sugestões.  

Utilizam os meios de comunicação para despertar no grande público o fascínio por empreendimentos que levem à satisfação imediata, suprimindo o pensamento crítico que possa gerar a rejeição a falsos favorecimentos. 

Manter o público na ignorância e na mediocridade, como afirma o sociólogo polonês Noam Chomsky, é a grande arma para levar à aceitação de projetos distanciados da realidade que sufoca. O Parque Atlântico cabe perfeitamente nesse conceito, uma configuração real do que é engano, pois seu objetivo é encobrir o mal que a todos atinge.  

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