Pátria amada, que horror!

A ''nova política'' estabelece critérios de patriotismo bizarros a partir das manifestações de domingo

De repente, milhões de brasileiros se veem na horrível condição de antipatriotas, entre os quais estou incluído, sem qualquer direito a questionamentos contrários. 

É isso mesmo e pronto, determina o capitão, como registraram seus seguidores em casas legislativas do País, sem tirar a do Espírito Santo,   transformadas em cenários de discursos ufanistas condenatórios de quem não participou das manifestações desse domingo (26), em defesa de bandeiras de luta não muito coerentes. 

Se forem levados a sério esses pronunciamentos, só é patriota todo aquele que veste a camisa da Seleção Brasileira, de triste história, empunha a Bandeira Nacional e entrou firme na caminhada, com cartazes e faixas nas quais podem ser lidas frases totalmente desconexas com o significado de patriotismo. Ah, pra não esquecer, foi com as crianças, a sogra, o cachorro e consumiu pouco álcool.  

No entendimento do capitão, seguido à risca, patriota em primeiro lugar é o brasileiro que não está nem aí para o Fabrício Queiroz, o rico motorista da família presidencial envolvido em falcatruas, ligado às milícias cariocas, e acha que lutar pela educação é coisa de gente que gosta de fazer balbúrdia, sem prestar nenhum serviço à sociedade. 

Ele não sai em defesa dos negros, pobres e também não condena as injustiças sociais, porque isso é coisa de petista, e o caldo corre o risco de entornar, como já aconteceu. Por falar em PT, deve o bom patriota sinalizar para esse partido tudo de errado que aconteceu na política, para seguir o modelo da ”herança maldita” que ajuda a encobrir o despreparo do capitão e de sua equipe.

Patriota, por essa nova definição, é o brasileiro que bate continência à bandeira dos Estados Unidos e vê com naturalidade o Brasil entregar suas riquezas às potências estrangeiras, e deixar a base de lançamento de foguetes de Alcântara, no Maranhão, ser controlada pelo Pentágono, que também levou a Embraer, de mão beijada, a maior fabricante de aviões do mundo. 

As características são muitas e não caberiam nesse espaço, mas algumas são essenciais para compreender esse indivíduo, autêntico fruto da desinformação. Diz respeito à chamada “nova política” liderada pelo capitão. O patriota diz que agora não tem o “toma lá, dá cá” e fala com seriedade, certamente por desconhecer a oferta e procura por cargos em todos os escalões da República, nas articulações para manter a governabilidade.   

O patriota deve defender a reforma da Previdência com unhas e dentes (muitos já agem desse modo), mesmo que, com a aprovação do projeto em tramitação no Congresso, ele venha a sofrer sérios prejuízos em sua aposentadoria. Vale o que diz o ministro Paulo Guedes, “se não tem reforma o Brasil quebra”, sob os aplausos de indescritível contentamento dos banqueiros e grandes empresários cada vez mais ávidos por incentivos fiscais. 

Com relação ao projeto anticrime, do ex-juiz Sergio Moro, hoje ministro, o patriota deve se empenhar ao máximo, porque afinal de contas ele livrou o país das garras da corrupção, como relata o sofisma midiático. O patriota não quer nem ouvir falar nos meandros cavernosos dessa operação e muito menos da intromissão do governo norte-americano nas ações desenvolvidas para desestabilizar o país. Para ele, isso "é coisa de comunista". 

Para o patriota, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) só funcionam para defender interesses alheios à sociedade. Não adianta explicar a necessidade da divisão do poder em uma sociedade democrática.

Democracia, ele não sabe o que é isso. 

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