Percepções de Aldous Huxley

Huxley não nos apresenta, com a mescalina, um mundo maravilhoso

 

“Se as portas da percepção estivessem limpas, tudo apareceria para o homem tal como é: infinito.”
(William Blake)
 
 
Aldous Huxley foi um escritor inglês, tendo se mudado de seu país para os Estados Unidos, mais exatamente Los Angeles, em 1937, no auge de sua fama. Ele era de uma linhagem de conhecidos intelectuais, se destacando, dentre eles, seu avô, o biólogo Thomas Huxley, que fora defensor das ideias evolucionistas de Charles Darwin, além de criador do conceito de agnosticismo.
 
Huxley se destacou como romancista e um de seus romances mais conhecidos foi Admirável Mundo Novo, em que, imaginando uma sociedade do futuro, traça um destino sombrio em que o Estado controla os indivíduos através de substâncias psicoativas numa simulação de felicidade, reflexo da época em que a obra fora escrita, nos anos 30 do século passado, período de expansão dos totalitarismos fascista e nazista, o que decerto guiou a ideia deste romance.
 
Mas, por outro lado, Aldous Huxley se destacou também como ensaísta, deixando, em relação às experiências com drogas, dois ensaios emblemáticos: As Portas da Percepção de 1954, e sua continuação, Céu e Inferno, de 1956. Nestes dois ensaios, Huxley faz um relato de suas experiências com a mescalina, alcaloide extraído de um cacto mexicano, muito usado pelos xamãs, chamado peiote.
 
As experiências de Huxley com a mescalina foram realizadas sob rigoroso controle médico, lhe causando o que ele chamou de “visão sacramental da realidade”. Huxley parte, em seu relato, de uma dicotomia entre duas realidades, a que temos no cotidiano e uma, diferente e pouco conhecida, que está, para ele, na onisciência, uma região subconsciente inexplorada pelo homem ordinário. Tal região mental onisciente, de que fala Huxley, estaria ocultada pelo filtro da consciência ordinária e cotidiana, o uso da mescalina e de outras substâncias poderia, segundo ele, transpor a barreira desta redução consciente, que ela designa como biológica, apresentando para aquele que ingere uma dessas substâncias, percepções deste mundo da Onisciência, um estado que ele também diz que pode ser
 
atingido pelo hipnotismo ou por mera falta de vitaminas no corpo. É bom lembar que Huxley não encara tais experiências de forma mística ou espiritual, mas sim como algo do campo da pura percepção, nada além disso.
 
Quando Huxley ingere a mescalina e começam os seus efeitos, ele descreve uma indiferença em relação ao espaço e ao tempo, e relaciona isto na sua dicotomia entre a realidade da mescalina e o mundo ordinário, no qual as impressões são pouco detalhadas no último, e o ambiente circundante e as percepções de simples objetos são profundas no primeiro, isentos de sua banalidade e se tornando verdadeiras epifanias. Mas Huxley não nos diz nada sobre alucinações visuais ou auditivas, mas sim de uma percepção sempre voltada aos aspectos mais banais da realidade ordinária, os quais ganham brilho e um status existencial fundamental.
 
Huxley relata, que em função de sua obsessão com objetos sob o efeito da mescalina, ele com isso se desligara de aspectos importantes da vigília como as relações sociais, ele afirma que na viagem da mescalina só existe um brilho sobre objetos e detalhes ínfimos e uma indiferença espacial que também se consuma num desaparecimento do tempo, ele nos diz que suas percepções em relação a certos objetos de arte foram profundamente transformadas depois de sua experiência com a mescalina. Nos ensaios As Portas da Percepção e na continuação Céu e Inferno ele discorre longamente sobre pinturas, e cita as que viu durante o efeito da mescalina.
 
Huxley, então, não nos apresenta, com a mescalina, um mundo maravilhoso, não nos mostra anjos ou demônios, nem harmonias celestiais, o que ele relata é mais um detalhismo da percepção em sua qualidade existencial, o que significa ver o mundo objetivo livre da consciência ordinária do filtro biológico do cérebro em seu aprisionamento espaço-temporal, numa minúcia que se torna a existência em sua plenitude, onde um objeto banal se reveste de valor ontológico.
 
Dos dois ensaios citados, o mais importante foi As Portas da Percepção, que num título oriundo de um verso do poeta e pintor William Blake, influenciou a cultura hippie nos anos 60 do século passado, e que também deu nome à famosa banda The Doors, onde Jim Morrison, juntando Huxley com Rimbaud, mais rituais xamânicos no palco, divulgou o nome de Huxley, cuja imagem também aparece no álbum histórico dos Beatles, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band de 1967.
 
Huxley, nos últimos dias de sua vida, já sem poder falar, pediu por escrito à sua esposa, uma aplicação intramuscular de 100 microgramas de LSD. Huxley morreu no mesmo dia do assassinato de John F.Kennedy, em 22 de novembro de 1963, aos 69 anos.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor
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