Pergunta fundamental: o que é o homem?

A capacidade de abstração, até para se tornar objeto de estudo de si mesmo e para transcender, faz do homem ''o ser''

A antropologia filosófica cuida dessa reflexão, afinal, o que é o homem? Quem é esse ser que, para além de ser racional, se torna escravo da racionalidade? Analisa, reflete, se torna objeto de estudo dele mesmo e ainda busca a transcendência?

Grandes pensadores iluminam essa questão, talvez o Alemão Georg Friedrich Wilhelm Hegel (1770-1831) em sua obra Fenomenologia do Espírito, nos proporcione um mergulho esclarecedor “...ser objeto para si não como eu abstrato, mas como eu que tem ao mesmo tempo o sentido de ser-em-si...”. 

Na reflexão do ser-em-si ele se torna ser-para-si. Estudando sua identidade como autoconstrução, em sua presença no mundo com “corpo próprio”, subjetividade ou “ser psíquico” (interior) e “espírito” (em sua condução), começa a questionar o sentido mais profundo de viver, desde a visão de parte de um todo hegeliano, até o vazio significado da vida, descrito por Albert Camus no mito de Sísifo, onde só lhe resta significar cada um de seus dias.

É a profundidade dessa reflexão que norteia o homem no mundo, às vezes com toda essa consciência e, na maioria dos casos, de forma natural, sem ter a menor noção antropológica, mas reagindo no dia-a-dia enquanto indivíduo no enfrentamento do mundo, sempre permeado pela cultura de seu tempo e espaço.

O esbarro dessa autoconstrução com o mundo lhe exige ainda mais racionalidade. Com suas regras, o mundo vai lhe “colocando em seu lugar” e ele “joga” ora aceitando, ora resistindo, afirmando e negando, para que no seio de todos os seus deveres, obrigações e responsabilidades, haja espaço para o dever-ser-em-si-mesmo, sem se violentar, sem se anular ou se ver forçado a ser o que não é. Nesse conflito o espírito empunha suas armas, muito próprias, sejam de enfrentamento ou de escape.

A sociedade moderna deixa muito claro essa ação humana quando, cada vez mais, o ser tem em sua construção ética própria, o modelo de resistência, transparecendo nas atitudes, na estética, na afetividade, na transcendência. 

Assim, assistimos ações, que muitas vezes transparecem ao mundo como irracionalidade, seja no abandono daquela que se apresenta como “grande oportunidade”, o “emprego dos sonhos” de muitos, o rompimento de uma relação aparentemente perfeita, a mudança de convicções políticas, estéticas ou religiosas, etc. Pela insatisfação própria do ser-em-si, que em algum momento não encontra significado para o que está vivendo, mesmo contra toda a “lógica” exterior.

A imagem de Sísifo, rolando a pedra até o alto da montanha para que ela retorne à base e ele tenha que retomar a subida eternamente, clama pela significação dos dias, dada a incerteza do futuro e o desconhecimento do momento do fim (como na tragédia grega). Isso exige do ser o inconformismo da rotina e a insubmissão à heteronomia moral, obriga-o a ser sujeito de seu caminhar, na convivência com a teoria sartreana de que é condenado a ser livre, consciente de que essa condenação tem por pena as consequências de cada escolha ou não escolha.

Daí podemos concluir, que de todos os deveres, o imperativo mesmo é o dever ser, uma vez que, o que está em jogo é a finalidade da vida, a felicidade, que é fim em si mesma, construção pessoal a que responderemos solitários, sem nenhuma justificativa exterior, e que será produto da luta diária para garantir a autonomia no cumprimento dos deveres.

 


Everaldo Barreto é professor de Filosofia
 

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