Política antipobres

Governo federal sufoca bancos solidários

Passados os primeiros seis meses do governo de Jair Bolsonaro, matéria das repórteres Beatriz Magalhães e Deslange Paiva, do G1 SP (agência do grupo Globo), revela que os bancos comunitários baseados no princípio da economia solidária estão em processo de inanição por causa de três fatores associados às diretrizes do ministro Paulo Guedes, da Economia: o aumento da inadimplência, o crescimento do desemprego e o corte de convênios e subsídios, especialmente do BNDES e do Ministério da Cidadania. Na realidade, o processo de desmanche desses organismos, incentivados pelos governos do PT, começou no governo de Michel Temer (2016-18).

Em janeiro, o presidente Jair Bolsonaro reduziu a Subsecretaria de Economia Solidária (criada em 2003 pelo presidente Lula) a um departamento do Ministério da Cidadania. Desde então passa por “um processo de reformulação”, ou seja, parou. Também foi alterada a composição do Conselho Nacional de Economia Solidária, com a redução da participação de representantes da sociedade civil. Na realidade, Bolsonaro extinguiu vários conselhos.

A falta de investimento é sentida mesmo por instituições consolidadas, como o Banco Palmas, pioneiro da metodologia. O coordenador da instituição, Joaquim Melo, disse ao G1 que agora a estratégia dos bancos comunitários é manter o que foi construído.

"Se não tem nem um conselho, não dá para se pensar em uma política, um programa para isso. Então, estamos completamente órfãos, né?", diz Joaquim Melo, coordenador e fundador do Banco Palmas, no Ceará, fundado em 1998, a mais antiga instituição do setor no país e responsável pela organização de diversos bancos solidários, hoje inoperantes por falta de recursos e de funcionários.

 “A rede toda está fazendo esse processo, a gente perdeu liquidez, o BNDES não tem mais fundos, então o crédito acabou", diz Melo.

O alto índice de inadimplência no Brasil dificultou ainda mais a sobrevivência dos bancos comunitários. De acordo com dados do Serasa Experian, 63 milhões de brasileiros estão com o nome sujo ou com dívidas em atraso.

"O nosso índice de inadimplência nacional ficava em média entre 3% e 4%. Em 2018, nós fechamos com inadimplência média de 8%. Então, os pequenos negócios estão tendo dificuldade para pagar o crédito", afirmou Joaquim de Melo, do Banco Palmas.

Por ter um olhar para o desenvolvimento local e baixos juros, os bancos comunitários funcionam como importantes fontes de crédito para a população que vive nas periferias e sonha em abrir um negócio, mas boa parte dos moradores ainda não conhece esse mecanismo inspirado em práticas iniciadas em Bangladesh pelo indiano Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2006 pela criação do Banco Grameen, voltado para a ajuda aos pobres.

LEMBRETE DE OCASIÃO

“Hoje, quase 100% dos nossos empréstimos são para mulheres pobres, que levam para suas famílias os benefícios dos recursos, de uma forma bem mais eficiente do que quando o dinheiro é dado aos homens”.

Muhammad Yunus em entrevista em dezembro de 2010, no Rio, onde esteve para um evento.

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