Pulphead, ensaios de Sullivan

''Há uma liberdade literária muito maior nos ensaios contemporâneos, e isso fica claro, no caso de Sullivan, em seu Pulphead''

John Jeremiah Sullivan, norte-americano nascido em 1974, em seu segundo livro, Pulphead, de ensaios, se revela um talentoso contador de histórias, que tomou da ficção muito de sua veia ensaística. Com textos em revistas como Harper's, GQ, The Oxford American e The Paris Review, tem sido comparado a Tom Wolfe e David Foster Wallace. Com uma prosa flexionada em torno de seu tema, assume dicção oitocentista americana, num eco de Emerson e Thoreau. Ao contrário da trama bem cortada de Tom Wolfe, Sullivan desenvolve seus ensaios através de uma trama que leva à diluição de sua prosa, esta mesma que, por sua vez, carrega o tema de modo desordenado, pois temos aqui o viés do romance dentro do ensaio contemporâneo, que toma seu método no tema que se espalha pela prosa, tal como num romance, e a trama não se fia em exatidão racional.
 
O ensaio americano em revistas, tanto no texto longo como no ensaio crítico, floresce, atualmente, em condições novas, superando uma falsa nostalgia intelectualista da Nova York dos jornalões da década de 1950, pois nada faltaria a nomes como Edmund Wilson ou Alfred Kazin, nos dias de hoje. Revistas surgem, como McSweeney's, n+1, The Point e The Common, e outras antigas aparecem reformadas. As revistas tomam o lugar, na crítica, dos jornais, os quais evaporam. O ensaio contemporâneo aparece como uma fronteira que supera a novelização e se coloca no modo fragmentado, que tira o enredo e segue o fluxo, e que, numa fratura de parágrafos numerados, deixa-se de lado a verossimilhança e põe-se no lugar uma relação imbricada de realidade e ficção. 
 
No ensaio contemporâneo, o autor deixa de lado sua impessoalidade na segurança da terceira pessoa, tendo então um autor que entra e sai, transgredindo a estrutura tradicional da ficção. Há uma liberdade literária muito maior nos ensaios contemporâneos, e isso fica claro, no caso de Sullivan, em seu Pulphead. É a nova prosa ensaística, que usa de técnicas retiradas dos truques da novela e do romance para negá-los, liberdade que passa por irrealidade ou a pura falta de qualquer definição categórica do que é real, num misto e paradoxo que não se desvela em unidade de percepção, permanecendo a dubiedade, uma vez que até a temática do reality show, por Sullivan, em um de seus ensaios, denota o fracasso desta distinção entre realidade e ficção, no mundo contemporâneo.  
 
Sullivan, embora posto pelo crítico Geoff Dyer, como um ensaísta fora de moda, tem seu talento no ponto exato da questão do real que passa pelo mundo contemporâneo, pois é no nexo de criar na realidade a ficção que Sullivan, portanto, consuma seus ensaios, numa aparente ficção criada a partir de dados reais. O ensaio de Sullivan joga de propósito com este duplo sentido e o coloca como fratura que é nada mais que indefinição, e que busca o real, apesar desta cisão contemporânea. "O realmente real" de Sullivan é afirmado e, paradoxalmente, questionado o tempo todo. Sua ficção é real, pois se funda em fatos reais de reportagem, à exceção de um ensaio malsucedido sobre animais em fúria contra humanos, deste mesmo livro Puplhead, que é um caso isolado de tentar uma ilusão de fato. Em Sullivan, ao fim de Pulphead, fecha-se a chave dupla do ensaio contemporâneo, pois, pelos escritos de Sullivan, esta chave bem atual do conceito de realidade não nega que haja, na forma, em tais ensaios, ainda uma prosa clássica ou oitocentista.
 
Destaco três dos ensaios de Sullivan do livro Pulphead. Um sobre Michael Jackson, outro sobre Axl Rose e o último sobre Bunny Wailer. Começando pelo ensaio sobre Michael Jackson, que tem seu início num Michael no dilema entre as músicas encomendadas de seu grupo com seus irmãos nos Jackson 5, e a ambição que levaria Michael muito mais longe do que aquele início, e que, numa busca de seu instrumento interior, o leva ao estrelato. Pois, desde sua visita aos ensaios musicais de Stevie Wonder, sua curiosidade e sua intuição se tornaram as sementes que produziriam o maior astro pop da História. E tal história se firmou, de forma polêmica, numa ambiguidade de cor branca ou negra, que era um conflito de sua imagem, mesma imagem que sairia, mais tarde, arranhada por escândalos de pedofilia. 
 
O retorno de Michael à sua infância, por sua vez, se torna o reflexo de alguém que só tomou consciência de si já no caminho do estrelato. Por outro lado, depois de Off The Wall, em que Michael consegue grandes êxitos, ele não se dá por satisfeito, e queria fazer algo realmente grande, se juntando aos irmãos mais novos, Randy e Janet, com os quais já tinha criado "Don't Stop "Til You Get Enough", e produz a pérola "Billy Jean". Daí pra frente, Michael explode com Thriller, e se considera um abençoado de Jeová, ao qual agradece pelo seu talento. Michael alcança o tal próximo nível de sua carreira solo e tem seu sonho realizado. Ele não queria inclusão, mas ter o público a seus pés. Sullivan afirma que ainda falta uma biografia realmente séria sobre Michael, pois ele era o centro onde convergiam todas as correntes culturais da música americana.
 
Em seu outro ensaio, Sullivan fala de Axl Rose. Este ensaio é uma prosa, evidentemente, de um fã incondicional, pois Sullivan defende Axl até de sua velhice, tentando deixar claro que ele ainda é o mesmo Axl que despontou na juventude, de onde veio do nada, do centro de Indiana, lugar do nada, para Sullivan. E Axl grita: "You know where you are?", ao que o mesmo responde ao público no final: "You're in the jungle, baby." Clássico indefectível, os Guns N' Roses ainda conseguem dar conta do tranco, mesmo que a banda não seja mais a original, só tenha Axl, mas que, devidamente, substituiu o guitarrista Buckethead por um cara chamado Bumblefoot, que toca muito, e os caras, então, decidiram conseguir tocar as partes do Slash. Tudo está perfeito, nota por nota, é uma batalha entre ver todos esses caras que não estavam no Guns N` Roses original, pulando no palco com Axl, e tocando músicas dos Guns N' Roses, e as qualidades duradouras das músicas em si. Axl, desde o início, segundo Sullivan, foi o único dançarino branco e homem indispensável de sua geração, o único que valia a pena imitar de brincadeira. Para Sullivan, sobre os Guns N' Roses: "Eles foram a última grande banda de rock a não achar que existe algo meio constrangedor em fazer parte de uma banda de rock."
 
Para fechar, falo aqui do ensaio sobre Bunny Wailer, que é, disparado, o que mais gostei neste livro de Sullivan, uma verdadeira aula sobre a Jamaica e Kingston, pela visão de um de seus mestres, Bunny, que foi nada mais que um dos membros originais da lendária banda que lançou Bob Marley, os Wailers. No início de julho de 2010, Sullivan foi de avião até a Jamaica, com o intuito de entrevistar Bunny Walier. 
 
Kingston, em uma década, viu o surgimento de Bob Marley & The Wailers, Toots & The Maytals, Jimmy Cliff, Desmond Dekker, The Pioneers e The Paragons, The Melodians e The Ethiopians, The Heptones e The Slickers, The Gaylads e todo um rol de gente que formam um vórtice de talento de primeira linha. A maioria veio dos mesmos conjuntos habitacionais, e em grande parte, estava cantando para sair deles. E o motivo pelo qual o melhor material jamaicano se aprofunda com o passar do tempo, é que a música, na Jamaica, tem um sentido espiritual. 
 
Na entrevista com Bunny Wailer, Sullivan ouve muitas histórias antigas sobre Kingston, de como, a partir da década de 60, o país jamaicano se tornou um dos mais violentos do mundo, pela tomada das milícias, que se dividiram em dois partidos rivais, o esquerdista People's National Party (PNP) e o conservador Jamaica Labour Party (JLP). E, nos anos 70, a coisa piorou. O líder do PNP, Michael Mandy, manifestou simpatia por Fidel Castro, o que levou ao apoio da CIA americana ao líder do JLP, Edward Seaga, e as armas recebidas pelas milícias, portanto, aumentaram em quantidade e calibre. Era Manley contra Seaga, socialismo contra capitalismo, PNP contra JLP. Kingston se tornara um front em miniatura da Guerra Fria.
 
Enfim, fecho esta resenha com a curiosa história de conversão de Bunny Wailer ao rastafarianismo. Bunny conta a sua história: "Eu sabia dos rastas desde criancinha." explicou, "mas Blackheart Man era o nome dado ao Rastaman para manter todos os jovens longe daquele indivíduo, porque ele arrancaria o coração deles para comer e coisas do tipo. E quando alguém desobedecia ou fazia qualquer coisa errada na família, diziam: Se não se comportar direito, vou chamar o Blackheart Man para pegar você".
 
Em Kingston, na região de Trench Town, quando os garotos se atrasavam para a escola, costumavam cortar caminho pelas valas para chegar mais rápido. Os rastas moravam nas valas, onde montavam acampamento. "O Blackheart Man morava no lixo", disse Bunny. Às vezes um desses místicos com dread-locks saía do barraco "para encher sua panela de água" e, quando as crianças o viam, corriam na direção oposta. Bunny então percebeu que, enquanto ele e seus amigos fugiam correndo dos rastas, estes voltavam aos seus buracos andando calmamente. Uma vez, Bunny parou e interrogou um rasta que, numa pequena conversa, converteu Bunny ao rastafarianismo.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com   
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