Reverso da medalha

A manifestação estudantil do dia 15 mostra que a elevação da insatisfação na sociedade está acima de conceitos ideológicos

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no dia 16 deste mês revelam um crescimento da taxa de desemprego em 14 das 27 unidades da Federação no primeiro trimestre deste ano. Temos agora 13,1 milhões de desempregados, o Espírito Santo com 260 mil nesse ranking assustador. 

Se consideradas as projeções negativas do setor industrial e do Produto Interno Bruto (PIB), pode-se afirmar que a recessão econômica está às portas. O agravamento da crise é certo e passa a incomodar setores que anteriormente se uniram aos movimentos da extrema direita para chegar ao poder. 

Quatro meses e meio foi tempo suficiente para a constatação de que o Brasil vive o reverso da medalha, no contexto político, econômico e cultural, uma fase em que os acontecimentos se mostram contrários às metas consideradas perfeitamente viáveis por quem as projetou. O governo não tem bases sólidas e se equilibra em sofismas enfiados goela abaixo à população.

A colossal manifestação estudantil de 15 de maio representa um dos sinais mais claros dessa insatisfação, à qual se juntaram integrantes de outros setores, inclusive a grande imprensa conservadora, certamente para retirar de si a marca da cumplicidade registrada em ações nefastas que ajudaram a levar Bolsonaro ao poder. 

A massa de milhares de pessoas, que tomou as ruas, praças e avenidas das principais cidades brasileiras, não era formada por “idiotas inúteis”, como disse o presidente, assim como quem a sustentou não foram apenas conceitos ideológicos, coisa de partido político, para usar expressão muito comum entre os seguidores do capitão, entre eles o ex-deputado federal Carlos Manato (PSL), hoje assessor especial da Casa Civil. 

Entre os manifestantes havia muitos que há pouco tempo vestiram a camisa verde amarelo com a frase “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, refrão da campanha eleitoral de Bolsonaro que marca, ainda hoje, suas tiradas e que revela um vazio de doer. Estes experimentam o reverso da medalha, porque as metas programadas estão bem distantes e se mostram tremendamente inviáveis.

A solidez apresentada pelo governo federal, desde o início, se desmancha no ar, para lembrar o velho Marx, porque é volátil, falsa e varia de acordo com a cena imediata; não está firmada em um projeto duradouro de gestão, acomoda-se a interesses distanciados das comunidades. 

Mostra a sua face cruel, amparada em projetos como a reforma da Previdência e o corte de verbas para as universidades públicas, ao mesmo tempo em que deixa à míngua outros setores essenciais ao desenvolvimento nacional. Pior, se alia a governos altamente conservadores e belicistas, como o de Trump, e mantém alinhamento a sistemas religiosos contrários à justiça social.

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