Rubem Braga, o cronista

Rubem Braga foi um dos maiores cronistas brasileiros, senão o maior

Rubem Braga foi um dos maiores cronistas brasileiros, senão o maior. Começou no jornalismo profissional aos 15 anos, trabalhando em jornais como Correio do Sul, Diário da Tarde, Diário de Pernambuco, tendo fundado, em Pernambuco, o periódico Folha do Povo. Fixou residência, enfim, no Rio de Janeiro, onde atuou como cronista e crítico literário no Jornal Hoje da Rede Globo, integrando a equipe de jornalismo da TV Globo no período de 1975 a 1990. O fato curioso é que Rubem Braga foi o único escritor da literatura brasileira a se destacar apenas como cronista.
 
No seu livro de crônicas "Ai de ti, Copacabana", um de seus maiores clássicos, ele evidenciou sua verve de cronista do cotidiano, relatando fatos de sua infância e declarações de amor à natureza, num retrato simples da vida que virou uma característica das crônicas brasileiras e da maioria dos cronistas do Brasil. Gênero que se tornou uma particularidade de nosso país.
 
Rubem Braga, em seu livro, que é uma compilação sua de algumas crônicas publicadas em periódicos por ele, desde abril de 1955 a março de 1960, neste livro ele também revela uma faceta bem conhecida sua, que é o fascínio pela natureza. O cronista tem na observação da natureza o seu objeto de celebração e contemplação, é o que podemos ver em crônicas como "Terremoto", e na sua busca aflita pelo sol na crônica "O Sol dos Incas", e sua aventura pelo mar em "História de Pescaria".
 
Rubem Braga também especula sobre as fronteiras do tempo, como na crônica "Os Amigos na Praia". Explora o humor fino com "Os Portugueses e o Navio", humor que também será, como um reflexo de seu trabalho de observador, uma de suas mais marcantes diversões, ao produzir suas crônicas. As mulheres, junto com seus mistérios, aparece, por exemplo, nas crônicas "As Luvas", e na curiosa "A Primeira Mulher do Nunes". "O Padeiro e A Casa" vão num trajeto pelo mundo mais objetivo, seja no anonimato do Padeiro, como no sonho do homem em sua solidão e privacidade.
 
A crônica "Entrevista com Machado de Assis" é mais uma peça de humor que relativiza a História e a Literatura, usando um de nossos maiores escritores num jogo de encaixe de seus fragmentos numa entrevista fictícia. A nostalgia passa como uma grande celebração dos seus tempos de Cachoeiro de Itapemirim, na interessante crônica, "Os Trovões de Antigamente".
 
Mas, de todas as crônicas apresentadas no livro "Ai de ti, Copacabana", se destacam duas principais:  o enredo seminal que dá título ao livro começa com um grito de vida e morte, e de uma paixão trágica por todas as contradições do bairro carioca de Copacabana, usando como mote, já pelo fascínio da natureza, em Rubem Braga, na ameaça iminente do mar sobre Copacabana. 
 
Tal é o canto visionário: "Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas." E continua, em tom profético, como a sedução do mar em ânsia destruidora sobre o bairro boêmio: "estás perdida e cega no meio de tuas iniquidades e de tua malícia". É a perdição moral de Copacabana, que leva ao apocalipse marítimo do bairro. Rubem Braga registra de forma visionária a invasão do mar sobre os prédios que fecham o bairro, a queda moral de Copacabana se torna a sua ruína física, a natureza é o agente, através do mar, para fazer justiça às contradições do bairro tão querido, numa linda poesia, que culmina: "Canta a tua última canção, Copacabana!".
 
A face religiosa aparece em Na Rede, onde Rubem Braga observa as nuvens. Mais uma vez, Rubem parte da contemplação e direciona ela no viés religioso, pois nele, a relação com a natureza é a maior das religiões. Em muitas de suas crônicas, Rubem Braga é um apaixonado pela natureza, seja na pura contemplação, seja no seu amor pelas árvores e pela paisagem. Na crônica A Rede, tal contemplação remete ele às leituras de Padre Antônio Vieira, que, em seu sermão, fala do amor de Santa Teresa, a relação direta da santa com Jesus Cristo, e aí ele volta do êxtase religioso e termina novamente nas nuvens e seus segredos. Pura contemplação, e o amor do cronista por tudo que é natural, que se evidencia, mais uma vez.
 
Fica claro que a veia artística do cronista Rubem Braga é raro, e mais raro ainda é um homem das letras brasileiras se destacar tanto na área da crônica. Um bom observador, que fala da natureza, de objetos comuns, do amor pelas mulheres, passa por uma poesia trágica em Ai de ti, Copacabana, pequenas peças de humor, registros banais do cotidiano que se transformam em epifanias, que são moldadas em crônicas de um senso e de um olhar bem refinados. Rubem Braga é o olho clínico que pega os fatos mais simples, e os coloca no alto como uma celebração da vida, mantendo a simplicidade que o torna o mestre da crônica brasileira.
 

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com
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