Se essa rua fosse minha

O governo finge não ver que o povo brasileiro está atolado na M

Na minha terra natal, no meu tempo de criança, no interior, fora os pobres que eram a grande maioria, não passava de cinco o número de tipos populares identificados naturalmente como mendigos ou carentes. Eram, de certo modo, figuras públicas que haviam conquistado o direito de circular sem ser molestados, pois quase toda a comunidade reconhecia suas limitações, carências ou vícios.  

Desse elenco de pobres diabos numa cidade de 50 mil habitantes, o mais digno de pena era Joaninha dos Cachorros, que dividia a comida ganha nas casas com meia dúzia de cães, inclusive filhotes carregados em dois ou três sacos de aniagem. Um dos seus hábitos era deslocar-se a pé na pista de terra lateral da via férrea, perto da qual possuía seu barraco. Os trilhos eram seu território.

Outro era Zé Pulinho, que se deslocava rapidamente pela cidade oferecendo bilhetes de loteria, mercê do proprietário de uma casa de apostas. “Compra, Deus do Céu ajuda!” era o bordão de venda que Zé emitia com a voz rouca, própria dos portadores de problemas no sistema respiratório – além de  asmático, ele era epiléptico. O apelido, ganhou-o por um raro cacoete: de tempos em tempos, ao caminhar, ele dava um tapa com a mão direita na lateral do calcanhar do mesmo lado do corpo. Para fazer o gesto, era obrigado a dar um pequeno pulo.

Havia, ainda, João Cachaça, bêbado contumaz que perambulava pelas ruas fazendo comentários sobre os fatos da cidade. Consta que sempre foi muito espirituoso e bem-humorado. Durante a II Guerra, por volta de 1944, quando os carros precisaram recorrer aos fumacentos aparelhos de gasogênio para transitar pela cidade, João Cachaça, deitado no meio da subida da Rua Sete, assistiu impassível à luta de um bonde para vencer o quarteirão mais íngreme do centro. O veículo chegava na metade da rampa e perdia as forças; retrocedia à parte plana da rua, pegava embalo mas acabava parando no mesmo lugar. Após a terceira tentativa, as pessoas que assistiam à cena ouviram João Cachaça sentenciar:

- Não tem jeito não. Se eu não subi a álcool, não vai ser a gasogênio que esse bonde vai chegar lá em cima.

Claro, havia na cidade outros tipos carentes que se sustentavam fazendo bicos, sem precisar pedir nem depender diretamente da caridade alheia. O pequeno Juventino, por exemplo, madrugava para entregar jornais e, na mesma manhã, dava plantão na sacristia da matriz, onde cuidava da escala dos coroinhas. Já a magérrima Miss Tabuinha, sempre que saía às ruas com seu vestuário bizarro, voltava para casa, na zona portuária, xingando os homens que “mexiam” com ela. Era uma espécie de jogo.

Pronto, cinco tipos populares numa população de 50 mil resultam num índice muito baixo -- apenas 0,01%. É um número que, a seco, não diz nada, embora possa ser tomado como uma taxa elementar de mendicância. O que importa, no caso, é transportar esse quadro do interior para a realidade metropolitana, onde se concentram os maiores problemas associados à miserabilidade popular.   

Hoje na capital, apenas na quadra em que vim morar há pouco mais de um ano, revezam-se ao longo do dia pelo menos oito pessoas que se dedicam a “tomar conta” das vagas públicas de estacionamento veicular disputadas pelos usuários e visitantes do maior hospital particular da cidade. Somando a população frequentadora desta área da cidade, na qual se incluem uma escola e diversos prédios residenciais, não se chega a mais do que 10 mil pessoas.

A circulação diária talvez esteja entre 50 mil e 100 mil pessoas, o que configura uma grande concentração numa cidade de 1,5 milhões de habitantes e 1 milhão de carros que sustentam postos de combustíveis, oficinas mecânicas, locadoras, lojas de veículos e peças, estacionamentos, engenheiros de tráfego, guardas de trânsito, taxistas, uberistas, transportadores autônomos e -- por que não? -- guardadores de vagas nas vias públicas.

Também chamados de flanelinhas, os guardadores de vagas podem ser classificados como trabalhadores informais, mas há quem os considere  pedintes, achacadores ou vagabundos.

Marginais de uma sociedade focada na busca de dinheiro, propriedades e status social, suas carências são explícitas e podem ser medidas pelo seu aspecto pessoal mambembe. Alguns bebem ou se drogam.

Não é só aqui no quarteirão. Há muitas outras ruas e avenidas em que eles atuam dia e noite. Estamos acostumados a vê-los nas proximidades de restaurantes, teatros e pontos de lazer. São como formigas onde caiu açúcar.

Agora alarguemos o olhar, encarando a quadra deste exemplo. Ela tem três contêineres de lixo, assim como as ruas da vizinhança. Por isso é grande a circulação de catadores que passam, dia e noite, com sacos plásticos ou carrinhos de supermercado. São trabalhadores informais, alguns dotados de surpreendente energia, mas muitos se arrastam para dar conta de sua tarefa. Alguns desabam nas calçadas e acabam dormindo sob as marquises. Não poucos pedem comida ou um trocado para comprar algo para levar para casa.

Temos então que o universo de um único quarteirão da capital supera largamente em volume e densidade a miséria reinante numa cidade do interior de 60 anos atrás, quando o Brasil viveu um ciclo de rara prosperidade sob o governo JK.  

“E agora, José?”, escreveu Carlos Drummond de Andrade em seu transe da pequena Itabira para o Rio de janeiro, quase 100 anos atrás.

“Nonada, tiros que o senhor ouviu não foram de briga de homem, não”, responde João Guimarães Rosa, embrenhando-se nas veredas do grande sertão das Gerais, pouco mais de meio século atrás.

Não há metáfora capaz de abarcar o que está acontecendo no Brasil de 2019.

Basta lembrar que nas capitais se concentram os maiores contingentes de miseráveis, carentes, desempregados e desanimados diante da falta de perspectivas econômicas.

Embora seja volumoso, o lixo não é suficiente para sustentar o mais de um milhão de pessoas que vasculha as lixeiras, os contêineres, os pontos de descarte de resíduos deste país.

Há uma tragédia explícita nas ruas que nos leva a perguntar: até quando as autoridades, eleitas ou não, vão continuar escapando à responsabilidade de cuidar de tantos desvalidos?

Na minha rua, após um ano, sei o nome dos três vaguistas mais antigos. Elias, Cabeleira e Rastafari. Estão aqui há muito tempo. Elias tem 42 anos, possui duas filhas e cuida dos carros desta rua desde que tinha 16 anos. Já o esguio Rastafari, com dez anos no ponto, reveza temporadas na rua e no hospital. Consta que recebe uma aposentadoria por invalidez. Está sempre com uma boina jamaicana na cabeça, daí o apelido. Cabeleira é o mais descolado, vive fazendo piadas e no final do dia recebe frequentemente a companhia da esposa. Aposentada, ela chega para impedir que ele não beba demais.

Dos outros ainda não sei o nome, pois chegaram nos últimos meses, mas todos se ajudam, como se formassem um time. Eles correm para orientar a ocupação da vaga e cuidam para que nenhum carro desocupe o espaço sem deixar um trocado, “qualquer coisa”, uma ajuda pelo amor de Deus. Tratam todos os proprietários dos carros por “patrão”, “padrinho”, “doutor”, “mestre” e “meu sinhô”.    

LEMBRETE DE OCASIÃO

“O que são 5 reais para quem tem um carro que vale 50 mil?”

(Pergunta lançada ao ar por um guardador de vagas de rua)

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