Tempo de risco

A neutralidade contribui para estimular ações contra o processo democrático

O que está em jogo no Brasil neste mês de outubro não é apenas uma eleição presidencial. A vantagem registrada até agora pelo ex-capitão Jair   Bolsonaro (PSL) representa a ameaça de uma ruptura no tecido democrático, possibilitando a implantação de um projeto liberal-autoritário recheado por um discurso de ódio.

Como se fosse encantamento, suas falas recebem o aval maciço de lideranças políticas, da classe média amedrontada, de camadas mais pobres e desinformadas, e de líderes religiosos com a mente cauterizada pela enxurrada de fake news que desviam o cerne das questões, inclusive da fé. 

Alardeia-se a existência de um extremismo, com Bolsonaro de um lado, o bom, Fernando Haddad (PT) de outro, o mal, diabólico. Isso forma a base de uma pretensa neutralidade em defesa do equilíbrio social, segundo dizem seus praticantes, refestelados na sombra protetora do individualismo.

O governador eleito, Renato Casagrande, mantém essa postura, deixando de acatar a decisão do seu partido, o PSB, que se juntou a outras siglas partidárias e anunciou nessa segunda-feira (15) a formação de uma frente em defesa da democracia no Brasil, com apoio aberto a Fernando Haddad. 

A neutralidade, em um momento com o atual, contribui não somente para a desconstrução do PT, movimento que se intensificou há cinco anos, mas amplia a ameaça à democracia brasileira, tumultuada por uma enxurrada de fake news alimentada pelos eleitores de Bolsonaro, que passa batida pelas instituições fiscalizadoras, inclusive o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

Criou-se um complexo sistema emissor de mensagens que transformam não só petistas, mas qualquer pessoa com conceitos progressistas de igualdade e solidariedade, em perigosos extremistas e comunistas desalmados. São estes os inventores da corrupção no País, quebraram a Petrobras, idealizaram o inexistente  “kit gay”, pretendem soltar os presos e outras barbaridades. Nas ruas, já se vive o clima de terror da ditadura de 64, que os falsificadores exaltam, elevando a herói o torturador Carlos Brilhante Ustra e estimulando todo ódio, preconceito e violência com a marca do fascismo.   

Para completar, o ex-presidente Lula é apresentado como o maior corrupto da história, embora condenado sem provas convincentes, e, para os evangélicos, o diabo em pessoa. Bolsonaro é o extremo do bem, um patriota de alto nível; Haddad, ou outro petista qualquer, o extremo do mal, por isso, deve merecer o repúdio. 

É o  “nós contra eles”, em nome de Deus e da Pátria, que serve para esconder realidades bem ao gosto do capital financeiro e das elites, nas quais se inserem sistemas evangélicos que levam de roldão enorme massa de enganados em sua fé.

Na verdade, não se trata de dois extremos, lados opostos da mesma moeda, como querem induzir, sutilmente, os discursos para mascarar o nascedouro da onda de violência que varre o Brasil e a ameaça de um imenso retrocesso político, social e econômico.

Preleções tendenciosas de líderes religiosos que colocam Bolsonaro e Haddad como extremistas são usadas para neutralizar o avanço do processo democrático visando garantir a vantagem registrada no primeiro turno, abafando qualquer possibilidade de debate sobre questões essenciais à sociedade e que o vencedor do primeiro turno desconhece

Há um extremo, é fato, onde está a origem da violência, o mesmo que produz fake News, seguindo a cartilha que elegeu Trump e assombra até a extrema-direita na Alemanha, França e Estados Unidos, mas é motivo de  elogios do líder da seita norte-americana Ku Klux Klan David Duke::“Ele soa como nós”, disse, fixando no capitão a marca do mais cruel autoritarismo em escala mundial. 

Defender a tortura e a ditadura militar, apresentar-se sem programa de governo, despreparado, truculento, desconhecedor dos mínimos requisitos da gestão pública, aliado ao mercado financeiro, vide o ideólogo Paulo Guedes  disposto a vender o Brasil, misógino, homofóbico, racista e agora evangélico de última hora com direito a batismo no rio Jordão, que é como outro qualquer, menos para os crentes judaizantes, não são qualificações para aspirar ser presidente da República.

O País vive a tendência do terror, do engano que faz o doce parecer amargo e o amargo, doce. Nesses momentos, a neutralidade é porta aberta à anarquia e ao retorno aos dias de chumbo, como em 64, com seus mais de 400 mortos ainda insepultos. Há um espírito de engano sobre a nação, é tempo de risco, de ameaça real, e no meio de quem tem sede de sangue, não há lugar para patriotismo e tampouco para Deus.  

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