'Território do Bem'

Moradora de uma das regiões consideradas mais violentas da capital faz desabafo e reflete sobre política de segurança

Abro espaço na coluna para transcrever trechos de um texto enviado por Crislayne Zeferina, pedagoga recém-formada, moradora do “Território do Bem”, como ela denomina a região de Tabuazeiro, Bairro da Penha, São Benedito e adjacências, onde se concentra, segundo divulgação de Secretaria de Segurança Pública, uma das áreas mais violentas de Vitória. 

O desabafo de Crislayne é extremamente apropriado nessa fase em que se assiste a militarização sem medida, com forte viés de barbárie, tendo como alvo, como ela diz e os dados oficiais comprovam, jovens negros e pobres. 

Eis o desabafo:      

“Os becos e nossas vielas são todos os dias os alvos da má segurança pública que sobe nossas periferias com seus carros cercados de violência, discriminação e preconceitos à procura dos corpos pretos juvenis. A validação desta violência começou no dia 13 de abril de 2019 no bairro São Benedito, quando policiais chegaram atirando bala de borracha nos moradores do bairro. 

Era para ser mais uma festa de 40 anos do time da comunidade: sorrisos, afetos, churrasco, cerveja, pula-pula, pipoca, crianças e famílias reunidas, celebrando a resistência de um time de futebol que leva entretenimento, vivências, samba e união para a comunidade de São Benedito, um dos bairros do Território do Bem.

A partir deste fato, moradores da comunidade criaram uma rede de periferias para denunciar esses maus tratos da PM. Uma manifestação foi realizada pela comunidade e a corregedoria e a Defensoria Pública foram acionadas, porém, o retorno da justiça é lento e enquanto isso
nossos becos continuam sendo alvo da Policia Militar.

A violência dentro das comunidades periféricas é alarmante e cada vez  mais moradores têm denunciado, porém os opressores se 'justificam', dizendo que estão sendo oprimidos pelas comunidades. O que se questiona é: quem nunca foi opressor, pode oprimir alguém?

Eu me lembro de quando o beco da periferia era nosso parque de diversão. Hoje eu me lembro dos carrinhos e das bonecas quebrados, pois a PM faz questão de pisar nos nossos objetos e xingar nossas crianças dizendo: 'vá para casa, anda! Eu estou mandando, ninguém mandou morar no morro.

Cada vez mais a pedagogia da crueldade é instalada nos territórios periféricos e os moradores buscam meios de dialogar para o fim destas violências. A forma como a Segurança Pública faz uso da política genocida é gritante e só não enxerga quem todos os dias dorme em seus colchões de algodão, enquanto nossas mães nem dormem chorando pela perda de seus filhos.

Existe um genocídio institucionalizado, sistematizado e permitido pelo Governo Brasileiro que inicia jorrando o sangue dos corpos pretos periféricos e descendo até o asfalto. Assumir o fator racial e de classe em uma sociedade desigual e racista é quebrar o paradigma da miscigenação que prega que todos somos iguais e temos oportunidades iguais”.

O desabafo de Crislayne Zeferina leva a uma reflexão sobre as políticas de segurança pública. As ações invariavelmente seguem um alvo padrão, negros e pobres. É gente igualmente encurralada pelo tráfico, a milícia e o preconceito, numa escalada e crueldade tamanhas, ao ponto de forçar a omissão para outras necessidades dessas regiões por meio de programas de inclusão social.    

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