Vó Marinha

“o jipe voltou a funcionar e seguimos viagem”

Minha avó paterna, Maria da Conceição de Sampaio Bastos, faleceu recentemente, deixando este mundo com uma vida longa de 88 anos. Tive uma experiência muito próxima com ela, sobretudo nestes últimos anos, e o momento chegou, não teve o sofrimento desnecessário, mas por um destes paradoxos da vida e da morte, mesmo diante da situação difícil, tentamos com a medicina e as energias positivas conservar ao máximo as funções vitais de quem gostamos, e sim, é um paradoxo, pois a morte, dependendo do que ocorre, é um misto de dor e libertação.

A vida da minha vó foi repleta de altos e baixos, intensa, com muitos filhos, e interessante, com seu budismo e seus budas que povoavam o nosso apartamento em Copacabana, aonde vivi com ela seus últimos 12 anos, já com a viuvez do meu avô que se foi em 2001, pouco depois de meu tio que se foi em condições mais brutas, em decorrência da AIDS e de uma vida que posso chamar de dissipada.

Eu a chamava de Vó Marinha quando eu tinha uns 4 anos de idade, ela era aquela avó macia, mesmo sendo seu apelido Mãezinha ou Marinha (daí minha corruptela infantil de marinha, como se ela vivesse no mar), ela era uma Mãezona, assumia toda a família e viveu diversas épocas, é admirável pensar que ela passou por Vargas, Juscelino, a ditadura e a redemocratização, formada advogada, enfrentando a barra quando meu pai foi torturado pela ditadura e tomado como desaparecido por um momento.

Barra pesada, mas sua coragem é eterna e terna, como avó um doce, mesmo quando eu estourava vinte bolhas de uma vez de seu papel bolha que ela estourava devagar um de cada vez. Aprendi com ela nestes últimos anos a entender a velocidade de uma pessoa que já foi muito ativa, mas que encarnou a velhice logo após pelo luto que ela viveu nestes últimos 18 anos, muito agravado pela partida de mais um filho seu, meu pai Andrei.

E quando falo de velocidade diferente, falo de paciência e respeito, saber que a pessoa viveu e que talvez estivesse um tanto exausta disso tudo, pois nós, que ainda não estamos velhos, sentimos o peso muitas vezes, imagina alguém que já não tinha mais o brilho de outrora, pois a viuvez e o luto pelos filhos é encarado por cada um de diversas maneiras, cabe a nós respeitar as escolhas, se o luto vira luta ou se sucumbimos, não importa, cada um age e reage de um modo a certos eventos, uns aguentam mais e outros menos, e isto não implica em virtude ou vício, as coisas apenas são, assim como as pessoas.

Mas, embora no final ela já não quisesse mais brilhar, ela brilhou na nossa família por muito tempo, e a História que ela deixou foi de uma mulher com um coração gigante, que me deu um Papai Noel de pilha bem louco com seu sininho quando eu tinha 4 anos, que na casa maravilhosa do Recreio dos Bandeirantes preparava meu lanche com leite e nescau ou neston com pão e mortadela quando eu via TV de noite, e algumas vezes rolava limonada suíça.

A casa do Recreio, por sua vez, era um achado, com uma fonte que fazia papel de piscina pequena aonde eu brincava com tubarões brancos de plástico e num quintal com grama que tinha um cajueiro e do lado de fora da casa havia um bairro ainda bucólico com ruas de terra.

E falando em coisas curiosas, uma destas curiosidades, além dos budas que povoavam a casa do Recreio e que depois foram para Copacabana, lembrei do jipe que ela teve neste tempo do Recreio, e nos últimos dias de minha avó, lembrei e falei para ela que uma vez o jipe pifou num túnel, estavam eu e ela, e ela disse para orarmos o mantra om mani pad-me hum, o jipe voltou a funcionar e seguimos viagem.

Neste dia, já no Hospital São Lucas, ela me olhou, me olhou por minutos, e eu vi seu filme todo passando neste fim que evitamos, mas também sabemos que precisamos.

Vó Marinha. Peguei teu Buda principal para mim, um beijo, te amo.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
Blog: http://poesiaeconhecimento.blogspot.com

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