Waly Salomão

''Waly Salomão cria a si mesmo quando faz poesia''

Waly Salomão, poeta brasileiro, baiano da cidade de Jequié, que se formou em Direito pela UFBA, sem nunca ter exercido profissionalmente sua formação, nasceu em 1943 e faleceu em 2003. Waly não atuou só como poeta, mas também como diretor de espetáculos musicais e, como fato notável, também como coordenador do carnaval da Bahia. 
 
Waly Salomão ganha agora uma nova notoriedade no bem-sucedido lançamento do livro Poesia Total, que reúne toda sua obra poética e algumas de suas letras musicais que ganharam versões em canção, pela mão de músicos do calibre de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé, João Bosco e Adriana Calcanhotto.

O livro, que teve vendagem tão vultosa como outro lançamento histórico, o do Paulo Leminski com seu Toda Poesia, coloca Waly Salomão como mais um poeta que marcou de maneira própria o caminho da poesia feita no Brasil. Poesia Total, falando da obra poética de Waly, reúne os livros Me Segura Qu`eu Vou Dar Um Troço (1972), Gigolô de Bibêlos (1983), Poemas de Armarinho de Miudezas (1993) e Hélio Oiticica: Qual é o Parangolé? (1996), Alagaravias: Câmara de Ecos (1996), Lábia (1998), Tarifa de Embarque (2000) e Pescados Vivos (2004).
 
Waly Salomão tem uma escrita que inicia na prisão em Me Segura Qu`eu Vou Dar Um Troço (1972), com uma prosa polissêmica, dentro de um turbilhão em ondas de significações que formam um amálgama bem corrido e que funda sua alma no cárcere. Dali se tinha a visão liberada, mesmo dentro de uma cela, em pleno vigor da ditadura militar brasileira da década de 1970. 
 
Uma frase vem, em Apontamentos do Pav Dois, na parte intitulada Oceano: "a vida abençoada em circunstâncias malditas." Se depreende deste fragmento de sua prosa, que o poeta, ainda que numa situação limite, em que muitos sucumbiriam, está ali inteiro e presente, e afirmativo de sua bênção, a qual ele encontra na sua salvação de palavras em prosa. A libertação se dá num contexto de lugar maldito, a prisão e o regime mais que maldito da falta de democracia, a antidemocracia do golpe militar, a censura que, ainda bem, não entendia mensagens cifradas, e muito menos poesia.
 
Temos depois, no prosseguimento da prosa de Waly, angústia "prenhe de futuro." E Waly exorta: "não tomar a sério os seus inimigos e as suas desgraças é o sinal característico das naturezas fortes", eis aí o grau filosófico e seus mantras em que o futuro ignora a própria angústia do "vir-a-ser", pois neste futuro está tudo garantido. Ou seja, o futuro prenhe é o estar cheio de toda vivência, o poeta sabe que viveu e viverá, logo não faz assunção de inimigos, os coloca fora do caminho, pois sabe de sua força como liberdade e não guerra.
 
Na sequência, temos duas pérolas de Waly, sua filosofia e poesia se dão em dois golpes certeiros, primeiro: "tonalidade do som da Besta: o excesso, o escândalo, o erro. Ciência do santo: prudência." E segue: "Vida mansa honra graça glória ao sábio e confusão ao louco." Waly sela o destino em duas frentes: o sábio tem na prudência a conquista da vida mansa, e o louco, na confusão da Besta, peca no excesso, se perde na riqueza invertida do erro, vive no escândalo e não conhece a paz da graça e da glória reservada à quietude dos eleitos. Waly Salomão se mantém sábio, a confusão da prisão não lhe pertence, é um estágio de sua obra, e tal trabalho de liberdade é seu destino. Waly Salomão é sábio e não louco, como um desavisado, analfabeto de poesia, poderia pensar.
 
Na prisão, Waly chega à sua conclusão de homem: "Aqui todo valente se caga, todo covarde faz força, toda vaidade se apaga.". Ou seja, Waly cria seu pensamento de cadeia, não há neste espaço lugar ao covarde e ao fraco. O valente, que tem ilusão de força, deverá ser fraco ao ser colocado em xeque, pois não há, dentro da prisão, a ilusão de força. Na prisão, os que se portavam como homens perigosos, dão voz ao seu medo, e o medo coloca o valente no seu lugar, pois os que mandam ali são os verdadeiros assassinos, e não os brigões. A vaidade do valente vira o medo do covarde. No caso, o itinerário de Waly Salomão era o seguinte: São Paulo, Casa de Detenção, 18 dias janeiro-fevereiro 1970.
 
No poema Self-Portrait, Waly grifa: "o grilo é um polo do delírio." Dos seus 26 anos de idade, qual seria a idade mais propícia? Pergunta o jovem poeta. Esta escrita reticente que causa embriaguez, responde e dá seu intento mais forte, ao que segue: "desde então o homem veio a ser um dos golpes mais felizes da 'criança grande' de Heráclito", e Waly então conclui seu passo em Heráclito: "como se o homem não fosse um fim, mas apenas uma etapa, um incidente, uma transição, uma promessa."
 
Ainda em Self-Portrait, Waly segue com seu caminho, e funda pura iconoclastia, ou seu contrário, digamos, já que há a promessa de uma nova crítica literária: "Colonialismo ou deboche, o medo do envolvimento na crítica à estética da esculhambação, bestética." Eis que se faz tudo novo no mundo de Waly Salomão, ele tem a visão para além, de que o poeta é prenhe, claro, 'prenhe de futuro". Waly fala o futuro da poesia no seu presente dado de sua escrita, sua prosa vai além e cria novas maneiras de ver, não quebra nada, mas funda tudo. E tem "A última vontade: morrer. Atmosfera de manicômio e hospital. A vontade do nada".
 
Nesta fundação, Waly não abre mão do pensamento mágico, e segue em Self-Portrait: "Triste tribo, tatuagem do índio com arco e flecha, a eficácia da magia implica a crença da magia". A crença simbólica e sua concreção, a magia se dá à mente mágica na sua intenção, ou seja, tanto a poesia quanto a magia são palavras de poder, enunciações de força. E, neste ponto, entra o mítico como elemento de raiz, a luta de Waly que se dá de tal modo: "estou travando uma luta titânica contra a hidra de lerna". E dá o toque aos de mente tacanha: "a linguagem provinciana é muito por dentro mas não apronta nada". E tenta, assim, restabelecer seu foco, Waly sentencia: "uma escrita automática é sempre reveladora de uma sensibilidade antiga". Em meio disso, a tortura da ditadura militar, na década de 1970, aparece clara: "e jamais tomar por exato o sentido direto das palavras. Morrer ou matar. Estoque, estoque de rabo, pé de cabra, chaves mixas e um sem-número de outras ferramentas, pendurado no pau de arara recebendo choques elétricos ..... os testículos apertados por alicate". A crueza das imagens fala por si, tal tempo era o tempo da censura e da tortura. O poeta vê tudo e narra, sua salvação do inferno da loucura é a sua prosa, o poeta é livre e sabe que o é.
 
"Poetas da Bahia: perdidos entre se queimar loucamente e a reclusão." Waly Salomão volteia, faz a metáfora ser o real entendido, e suas conclusões são o rastro de sua vivência. E na Filosofia, ele escolhe o seu pensador: "escrever uma nietzschiana brasileira: sonho de boneca bailarina: fazer: do meu caos interior estrelas a brilhar no firmamento." Friedrich Nietzsche ganha aí sua versão brasileira e em poesia pelas mãos de Waly Salomão. E, na sua experiência poética e de linguagem, decreta: "Morte às linguagens existentes. Morte às linguagens exigentes. Experimento livremente, estratégia de vida", e continua: "senhor de todas as situações, incorporando as informações dos outros = profeta". Waly desbasta a linguagem com conhecimento profundo de sua sintaxe e ritmo, domina seu espaço, ou seja, na prosa poética ele é o "senhor de todas as situações". E age tal um profeta, isto é: cria linguagem, metaforiza, experimenta, tem um novo mundo, e este mundo é a linguagem renovada. E faz seu ato forte, ato de fé, repetindo cinco vezes em caixa alta: "A FÉ É O GUIA DA AÇÃO".
 
Em Roteiro Turístico do Rio, ainda na obra Me Segura Qu`eu Vou Dar Um Troço, segue sua luta, Waly dá fé, e pontua sua força: "criar casco na sola dos pés/no lugar do coração: osso duro de roer". Waly não tem a ilusão da sensibilidade aflorada, foi mordido e está firme, passou da experiência da detenção, e está desperto, mais esperto que muito malandro que chora. O coração vira osso, e o poeta, agora, não é mais o afogamento sentimental, mas papo de gente brava, e que se sustenta com poder de superação, e não de entrega dos pontos num suicídio ideal. Ou seja, Waly não carrega a poesia como aura, a tonteia com seu gesto de reforma. Se funda em nova visão: "O artista nasce da embriaguez: confissões de um velho escritor: a realidade não me contentava busquei consolo na literatura". O consolo de Waly Salomão vira uma força maior de revolução, ele toma a poesia, e dentro de seu coração puro osso, faz do consolo uma missão de força, de transformação, e daí nasce um dos poetas mais originais da lLiteratura brasileira. 
 
Waly tem energia de sobra, e não cansa: "ainda tenho energia para não ser viciado pela mentira/ilusão: não quero o eterno. Retorna às telas - Efêmero, o terrível - Efêmero, covil dos mais temíveis bandidos - Efêmero - coiteiro dos fora da lei." Então, Waly anarquiza sua relação com o efêmero. O eterno seria o seu fim, então ele enuncia desde o efêmero e nele faz sua morada. Waly conclama os fora da lei e diz que tudo é terrível por ser efêmero, mas é nisto que há linguagem e poesia. 
 
Do livro Poesia Total, seguimos agora com a obra Gigolô de Bibelôs. Waly funda nesta obra sua mitologia com o deus marinho Proteu, filho de Posêidon, que tem o dom da profecia e a capacidade de metamorfose ao seu bel-prazer. Waly diz: "sob o signo de PROTEU vencerás." E dá um ultimato ao leitor: "LER COM OLHO-FÓSSIL OU LER COM OLHO-MÍSSÍL". Waly propõe a não "fossilização" da leitura e nem do poema. O poeta quer o olho míssil, fonte de visão que passa transversa na sua pequena revolução no terreno da linguagem. Waly Salomão desdenha do leitor cristalizado, sua proposta é a de Proteu: olho treinado que metamorfoseia como míssil e entende o recado. A poesia demanda um esforço maior e mais furioso para que sua criação seja decifrada. O leitor de Waly é o que vê que nem Proteu, pois o poeta é quem escreve também como Proteu. O olho de lince é fundamental.
 
No poema Na Esfera da Produção de Si Mesmo, ainda em Gigolô de bibelôs, Waly faz faz mais uma marca em seu verso: "tenho fome de me tornar em tudo que não sou." Isso na boca do "Marquês de Maricas" como uma máxima é um dos nortes da obra poética de Waly Salomão. Esta frase-verso é determinante de todo o seu percurso, testando os limites da enunciação, os novos tipos de sintaxe, o rico vocabulário, tanto erudito como popular que, durante toda a poesia produzida por Waly Salomão, enquanto este viveu, foi uma experiência de ir ao limite da linguagem e desafiar seu esgotamento que é, nada mais, por sinal, a função de todo poeta e seus escritos ou declamações.
 
O jogo de linguagem reina nos trechos de Teste Sonoro, o que é também uma experimentação com o som, repetição e jogo, ainda no livro Gigolô de Bibelôs. A riqueza em Waly se dá como massa sonora, para além da fragmentação em orações coordenadas do cárcere de Me Segura Qu`eu Vou Dar Um Troço, e vira total experimentação lúdica de palavras correlatas que fazem reverberação ou situam um som quase mântrico a sibilar com estribilho a magia de um profetismo, que agora joga dados, e cria o som na sua matéria de palavras, som de poesia, teste sonoro que afirma também os valores de uma poesia que pode ser falada.
 
E tem uma passagem genial, ainda em Gigolô de Bibelôs, que é a seguinte: "Tenho dito./E foi para isso que aprendeste de cor e salteado, que decoraste/Que gravaste no coração as baladas de Villon, o Vagabundo/E pregaste nas paredes as canções de amor de Safo?/Tenho dito./Tenho dito e aqui reeedito./Que sou nefelibata nato./Que antanho me supus uma máscara inscrita 'GIGOLÔ DE BIBELÔS'." Waly Salomão, neste trecho, enumera sua experiência literária. Claro, é poesia, metáfora. Mas, tudo cai insanamente, é o que ele diz logo em seguida: "Que sempre serei surrupiador de souvenirs." Quer dizer, sua poesia cita Safo e Villon como sinal, signo, fundação, e define a si mesmo como apropriador. Ele surrupia, meio que furta toda a poesia para si, e funda seu nome: o poeta Waly Salomão. Toda poesia é um pouco de roubo, é um tanto de astúcia, é tomar para si todo o ouro da literatura e criar mais ouro, e entrar com nome próprio no jogo. Waly Salomão cria a si mesmo quando faz poesia.
 
Já no livro Algaravia: Câmara de Ecos, no poema Tal Qual Paul Valéry, Waly Salomão adverte: "Valéry não é arremedo de escudo/para o acuado remoedor do ar de medo:/um poema deve ser uma festa do intelecto./E poemas e festas e intelectos implicam riscos./Cuidado para não escrever:/ali, onde tudo não é senão ordem e beleza,/luxo, calma e volúpia." E, prossegue Waly: "Mas nada de emenda/pois este paraíso-artefato/só se atinge de fato no poema. Por que proibi-lo de ser o delírio das sensações?" Mais adiante, ao fim deste mesmo poema, Waly conclui: "Sei, com os antigos e alguns vivos,/que a fobia castra os ritmos/e as formas da coragem./Sá de Miranda, Camões, Cesário,/João Cabral, Augusto, Ashbery:/a resolução de ser poeta/sem precisar o peito/estufar/de vãvaronice./E, no mais,/POESIA É O AXIAL." A bela definição final de Waly Salomão, neste poema, vale por muito de toda a sua obra poética, e dá significado, por conseguinte, à toda poesia: o poeta faz poesia tratando das coisas pela raiz, por isso a afirmação em verso, que fecha com ouro ao dizer que a poesia é o axial. Axis Mundi ou axiologia, seja o eixo do mundo ou teoria dos valores, a raiz que a poesia trata é axiologia da existência, mais do que eixo ou valores, a raiz da poesia é dar sentido tanto para o poeta como para o poema. O axial passa não só por eixo de sentido ou valor de sentido, é a criação pura que evoca e produz o que é cerne, vigor, espírito, corpo, tudo ao mundo dado, que se torna, com o poeta, mundo recriado, renovação ao buscar um eixo de tudo e que dá valor à tudo. Axis Mundi e axiologia que são aqui poesia.
 
Ainda em Algaravias: Câmara de Ecos, Waly Salomão cria uma frase "fetiche", ou melhor, algo que vai ecoar como uma ordem cosmológica em toda a sua obra e quando ela é lembrada. Tal está no poema Carta Aberta a John Ashbery: "A memória é uma ilha de edição." Eis aí a frase-verso-emblema que dá a sensação total de que o poeta se faz como memória viva e atuante. Mnemosyne que dá o verso como lembrança e criação na sensação de viver, ao bel-prazer. Liberdade de memória é o fazer livre do corpo e do espírito. A ilha da memória edita mais que rememora, este é o sentido da memória, tudo tem sinopse e edição.
 
No livro Lábia, no poema Editorial Queima de Arquivo, liquidação de estoque, Waly dá o seu sentido para a sua produção poética: "cada poema de per se constitui uma poética. O que surge com a marca evidente de derivação vivencial deve passar pelo crisol do lido para que não permaneça um produto naturalista. E a operação inversa deve ser buscada para o que surgir precipitado por leituras: deve passar por uma imersão nos líquidos amnióticos da vivência. Por estas brechas elaboro minha poesia hoje: nem naturalismo vitalista, nem intelectualismo excludente da experimentalidade - lâmina laboratorial - das ruas." Aqui, Waly evidencia os seus valores e métodos para produzir a sua poesia: um equilíbrio dinâmico entre vitalismo e intelectualismo. O que resulta num híbrido multifacetado que reúne dados de vivência com doses de erudição. Daí ser a poesia de Waly Salomão uma manifestação de saber erudito mesclado com experiência popular.
 
Já, no livro póstumo Pescados Vivos, temos no poema A Vida é Paródia da Arte, algo de meditativo, como nos versos: "Ler poesia como se mirasse uma flor de lótus/Em botão/Entreabrindo-se/Aberta". Tal Imagem junta a meditação zen das leituras de Suzuki, do zen-budismo, por Waly Salomão, e coloca a poética como tipo de meditação e a mandala como poema na imagem da flor de lótus.
 
Waly Salomão, que também foi grande letrista, deixou pérolas como Vapor Barato, musicada por Jards Macalé. E, na sua obra poética, quando se fala sobretudo do livro Me Segura Qu`eu Vou Dar Um Troço, de 1972, temos uma persona, uma máscara poética, que recebe o nome de Sailormoon, alterego de Waly Salomão, que nos dá seu nome quando diz: "é assinado pelo poeta-guerreiro descido de mim - SAILORMOON". Do qual, segue, é a "pontuação delirante e a construção atomizante". Voltando à obra de 1972, a apropriação é também a função da prosa de Waly. O Me Segura Qu´eu Vou Dar Um Troço é "lavagem de roupa suja por 'brainwash'", como o próprio Waly evidencia. E, por fim, temos ainda a presença de Waly entre as revistas marginais dos anos 1970, quando, ao lado de Torquato Neto, fundou a radical revista Navilouca. Sua poesia e seu engajamento cultural são a busca que culmina em tudo o que faz, como está escrito em um poema concreto seu: "o extraordinário é a morada do poeta."
 
Gustavo Bastos, filósofo e escritor
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