A dor e o prazer de ser mulher na poesia de Lívia Corbellari

Escritora e agitadora literária, ela lança o livro “Carne Viva” nesta quarta-feira no Centro de Vitória

Intenso, perturbador, sincero, profundo. Lívia Corbellari percorre caminhos dolorosos mas necessários em Carne Viva, seu primeiro livro de poesias, lançado nesta quarta-feira (6) na Cervejaria Mula Rouge, no Centro de Vitória.

“O sangue nunca é suave”, alerta Isabella Mariano no prefácio da obra. A dor de enfrentar o caminho de alienação e aceitação das injustiças é também a porta de entrada para a emancipação individual e coletiva e a abertura para as maravilhas de tocar a liberdade, como pássaro mesmo, que por menor que seja, não se detém em seu voar.

"A maioria dos poemas que compõem a obra são curtos e intimistas e reflexos de vivências que experimentei ou de pessoas que estiveram próximas de mim. Por isso, os poemas passeiam por diversas nuances, mas acredito que o central é o corpo e como ele experimenta este mundo de dor e de prazer”, diz Lívia sobre a obra publicada pela editora Cousa.

Os versos foram escritos entre 2015 e 2019. Iniciaram-se no grupo de discussão e produção literária Cronópio, na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Seguiram nos anos seguintes, recitados vez ou outra em saraus. “Ano passado que eu percebi que eu já tinha um volume grande de poemas e comecei a pensar no livro como um projeto. Aí comecei a separar os poemas, queria um conjunto coeso, que falasse sobre ser mulher, desejo, corpo, prazer e dor”, diz Lívia, que além de escritora é jornalista e também uma agitadora da cena literária capixaba com projetos como Cachaçada Literária, Evento de Vender Livro, Sarau Zona Literária e do site Livros por Lívia, em que publica resenhas de obras de escritores locais.

Carne Viva está dividida em 60 páginas e três partes, de acordo com as temáticas dos poemas. Na primeira, “fluxo intenso”, as poesias que fala sobre ser mulher, violência e resistências. Em “vias de fato” a poesia percorre o corpo, o sexo e o desejo de uma mulher dona de si. Em “mar aberto”, um tom mais melancólico, intimista.

A maioria dos poemas são curtos, diretos, muitas vezes cortantes, com o dom dos grandes poetas e poetisas de dizer muito em poucas palavras. Sobre mulheres e violências, Lívia escreve em parte de uma poesia a relação entre resistência e reação tão marcantes no Brasil dos últimos anos:

e eu não sei fingir

igual a minha mãe

e a mãe dela

mas você sabe machucar

igual ao seu pai

e o pai dele

A poetisa mostra que o corpo exaurido diante do sistema da produtividade e do dinheiro, que nos escraviza de forma voluntária, é o mesmo  corpo que goza e que escreve em liberdade.

o corpo cansado delira

sinto que posso escrever

só para descansar minha exaustão

mas por que poesia?

se ninguém se move

se ninguém vacila

a língua está morta

mas a minha não

minha língua não cala

ela está viva em minha boca

e em

sua boca

 

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