A memória e a arte como alimentos para a transformação

Semana da Água de Itaúnas envolveu 360 alunos em exposição, gincana e cinema em prol da recuperação do Rio

A Bacia Hidrográfica do Rio Itaúnas, no norte do Espírito Santo, é a que apresenta menor cobertura florestal e menor disponibilidade hídrica do estado, segundo o Plano da Bacia Hidrográfica lançado na última sexta-feira (22), Dia Mundial da Água.


Os jovens de hoje, na faixa dos quase trinta anos, ainda nutrem a memória dos banhos de rio na primeira infância e compartilham com os mais velhos o sabor da moqueca de peixe pescado no rio das pedras pretas (Ita = pedra; uma = preta, em tupi-guarani). Provas de que não faz muito tempo que o Itaúnas, vivo, era o elemento central da subsistência física e da identidade cultural da vila.

A narrativa dessas histórias ecoa nas casas e corações dos nativos e contrasta com a realidade atual, sem banhos de rios, sem pescados, sem água segura para beber. A memória, viva, pode revitalizar um rio, à medida que instiga, inspira e impulsiona as pessoas a trazerem-na à tona novamente, livrando-se da inércia e do descaso dos poderes públicos e dos cidadãos.

As fotografias, vídeos, áudios, depoimentos, objetos, brincadeiras e jogos vivenciados durante a Semana da Água na Vila de Itaúnas ao longo de três intensos dias - terça a quinta-feira (19 a 21) - foi, certamente, um alimento para essa revitalização das narrativas, dos desejos e, num futuro próximo, espera-se, do próprio Rio Itaúnas.


Trezentos e sessenta estudantes de ensino infantil, fundamental e médio das três escolas da vila desfrutaram da programação, promovida pela ONG Sociedade Amigos por Itaúnas (SAPI), em parceria com as escolas EEEM Dunas de Itaúnas, EMEF Benonio Falcão de Gouvea e CMEI Ciranda Cirandinha, por meio do Programa Rio Itaúnas Sempre Vivo e dos projetos Ponto de Memória Rio de Histórias, Nossa Vila Educação Ambiental e Envolvimento Social e Cineclube Vila – Vila Imagem Luz Ação.

As visitas ao ponto de memória, instalado na sede da Associação de Pescadores de Itaúnas (Aspi), foram momentos de muita interatividade e deslumbramento dos estudantes, conta a arte-terapeuta Kika Gouvea, diretora de comunicação da SAPI e uma das organizadoras da Semana, ao lado de Angela Noma, Cecilia Marcondes, Francine Poletti, Kika Gouvea, Luiza Faresin, Marcia Lederman, Paula Cassuce e Talita Araújo.

Reconhecimento

“É emocionante ver essas crianças e jovens se reconhecendo em seus avós, tios, pais, lugares e objetos, como a última canoa de um tronco só do Sr. Graciolino, personagens importantes da história do rio, como tantas outras pessoas retratadas e objetos expostos”, conta.


“Nossa, esse rio tinha tanta agua que derrubou uma ponte!”... “Minha avó falou que eles só comiam muqueca de peixe do rio com farinha, e era todo muito cheio de saúde”... “Puxa vida, que pena que a gente não pode mais brincar no rio como quando eu era criança” ... São algumas das falas pinçadas pela equipe.

“Esse entendimento que as pessoas foram criadas alimentando-se do pescado do rio, lavando roupas, tomando banho e se divertindo em suas aguas, numa relação de afeto cotidiano com o rio Itaúnas, acende em cada uma dessas crianças a chama da importância de cuidar e recuperar a grandeza de suas águas”, observa Kika.

A professora Talita Araújo, da equipe de organização da Semana, ressalta a importância do envolvimento entre escola e sociedade. “Ter trazido os meninos pra fora da sala de aula, ressignificando o conteúdo e trazendo o conhecimento pra realidade deles, seja na Exposição Interativa do Ponto de Memória, seja no teatro, música, gincana. A semana foi trabalhosa, construída e executada com muita dedicação. Foi linda e muito significativa!”, declara.

Para Kika, a energia movimentada nesses três dias ainda gerará muitos bons frutos. “Escutar, ver, e se inteirar de sua história abre espaços de pertencimento e afetividade com seu território que vão muito além do mero conhecimento”, observa.

“Acreditamos que a educação ambiental, aliada à Arte, e a mobilização social são peças fundamentais para o cuidado e a recuperação do Rio Itaúnas e toda sua bacia, pois só juntos, como uma sociedade organizada, pensante e empoderada poderemos reverter esse quadro de degradação atual”, afirma a arte-educadora.

 

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