Academia Feminina Espírito-Santense de Letras comemora 70 anos

Renata Bomfim, atual presidente da entidade, fala sobre conquistas e desafios das mulheres na literatura

Em agosto de 1949, 12 mulheres fundavam a Academia Feminina Espírito-Santense de Letras (AFESL). Na próxima quinta-feira (29), a entidade comemora 70 anos de existência, uma senhora que já conquistou muitas coisas mas ainda enfrenta diversos desafios. A atividade de celebração será na Biblioteca Pública Estadual, na Enseada do Suá, em Vitória, a partir das 18h30, com homenagens e o show musical "Elas cantam o amor". 

Atual diretoria da AFESL. Foto: Divulgação

Atualmente, a Academia Feminina é presidida por Renata Oliveira Bomfim, poetisa, doutora em Letras pela Ufes e ainda ambientalista e arteterapeuta. Em entrevista ela falou sobre a história e atualidade da entidade, dos desafios para as mulheres na literatura e das comemorações dos 70 anos da AFESL.

Século Diário- O que impulsiona o surgimento da AFESL em 1949 e qual era o contexto histórico da época? 

Renata Bomfim - O que impulsionou a criação da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras foi todo um contexto de interdição da participação da mulher nos espaços culturais, pelo menos nos espaços mais legitimados como a Academia Espírito Santense de Letras. A fundadora da AFESL, Judith Leão Castello Ribeiro, que também foi a primeira deputada estadual do Espírito Santo, tentou ingressar na Academia Espírito Santense e não foi permitido, porque um artigo no estatuto dizia que academia era destinada apenas aos homens, tanto que uma das formas com que a Academia era referenciada era como Academia dos Homens.

Judith então se juntou a outras intelectuais da época, como Virgínia Tamanini e Maria Stella Novaes, e fundam a Academia Feminina, como ação afirmativa das mulheres capixabas. Constroem juntas esse espaço de expressão feminina. O contexto da época, de 1949 para início dos anos 50 era de um momento em que no Espírito Santo as mulheres viviam seus papéis tradicionais, tempo dos bailes, dos anos dourados. A gente vê que depois disso vai ter figura de Carmélia de Souza, voz da contracultura, então a Academia Feminina acaba antecipando movimento que depois vai se acelerar. A partir de então, desde que surgiu, a Academia tem lutado para ser espaço de criação livre e de produção das intelectuais capixabas.

Temos figuras importantes como Annette de Castro Mattos, que na década de 50 organizou a Vitrine da Literatura, trazendo um importante registro das escritoras do Espírito Santo. Foi a primeira vez que foi feito um levantamento das mulheres que escreviam no Estado e participaram também outras escritoras de outros estados. Enfim, a gente vê pioneiras da academia e a necessidade de buscar o nome dessas escritoras, de dar visibilidade para elas, de reconhecê-las como tal, como profissionais, legitimando esse espaço da mulher escritora.

Nesses 70 anos de existência, quais considera os principais feitos da Academia?

Nesses 70 anos, o simples fato da Academia Feminina existir já a coloca como lugar de produção legitimada da mulher no campo da escrita. Acho que isso é importante. A Academia realiza uma série de atividades, concursos literários, saraus, publicação de antologias, incentivo à leitura e escrita nas escolas, com desenvolvimento de projetos e visitas. É também idealizadora da Feira Literária Capixaba (Flic), que já teve seis edições, e antes realizava encontro de escritoras capixabas. A Academia não é uma instituição fechada. Participamos do Viradão Vitória, de eventos em vários municípios do Espírito Santo, somos convidadas para eventos literários, para fazer saraus, onde levamos literatura, a história da mulher na produção intelectual capixaba. A contribuição é bem diversificada.

Que tipo de mudanças ocorreram de lá pra cá no âmbito da literatura, considerando a produção e participação feminina? O que ainda permanece como antes?

De 1949 para cá muitas mudanças aconteceram especialmente na década de 70, aquecidas, fomentadas pelo movimento feminista. As mulheres pararam de tentar se igualar aos homens na escrita, passaram a respeitar sua voz interior, a sua própria dicção, tanto que hoje o campo da literatura feminina é um campo de estudo vasto e as mulheres são um contra-cânone. Elas escrevem, escrevem, escrevem e não tem essa preocupação de ser enquadrada nesse ou aquele estilo. Estão produzindo porque é momento de falar, de expressar. 

Durante muito tempo as escritoras foram criticadas tanto que o termo poetisa foi por muitos anos um termo pejorativo. Eu o uso porque acho que é uma oportunidade de positivar um termo feminino de poeta, já que durante muito tempo mulheres poetisas foram confundidas com mulheres que faziam versos por diletantismo. Eram aceitas para divertir salões no início do século com suas poesias de amor, de flores, de beleza. 

Só que temos mulheres que ousaram e trouxeram para poesia o corpo da mulher, o desejo, a insatisfação, as alegrias, enfim, um corpo vivo, pulsante, vibrante. E hoje a poesia que se produz no campo da autoria feminina é uma poesia plural, em que a mulher se apresenta. Durante muito tempo ela foi representada, hoje em dia ela se apresenta por meio de sua escrita. 

Só que algumas coisas continuam muito parecidas. Não digo iguais, mas o preconceito ainda existe, tanto que até hoje na Academia ainda ouvimos certas brincadeirinhas. Com todo trabalho que temos não temos que provar nada a ninguém, nossas ações e feitos mostram nosso valor. Mas essas situações existem no campo do trabalho feminino tanto na literatura, como nas ciências, nas artes, esportes, é contínuo. Ainda não chegamos lá mas estamos no caminho, colhemos frutos dessas mulheres que plantaram antes de nós, enfrentando preconceitos. E estamos dando nossa contribuição para mulheres que vierem depois para que encontrem um campo de menos preconceito, onde sejam respeitadas. Então acho que ainda há muito pelo que lutar.

Qual papel a AFESL cumpre hoje para a literatura capixaba? Quais os maiores desafios que estão postos para a academia atualmente?

Acredito que o papel que academia cumpre hoje aos 70 anos ainda é um papel de resistência. A mulher mostrando seu trabalho e interferindo na realidade. A Feira Literária Capixaba é hoje o maior evento literário do Espírito Santo e é capitaneado pela nossa Academia. Somos nós que bancamos esse trabalho de uma maneira amorosa e muito corajosa, quase sem incentivo público. Este foi o primeiro ano que conseguimos trocar bônus da Lei Rouanet e mesmo assim foi um valor que não foi tão alto para fazer a feira como fizemos.

Acho que a Academia está mostrando o potencial da mulher mesmo sem incentivo. Hoje mesmo as mulheres emancipadas que têm sua voz, que se colocam na literatura, nas artes, na política, elas ainda são muito criticadas. Penso que um dos maiores desafios é continuar produzindo e existindo numa sociedade que está muito mais embrutecida, num momento político muito complicado, em que as alteridades estão sendo censuradas, em que a pesquisa está sendo censurada, depredada, dilapidada. 

Acho que ser mulher no Espírito Santo já é muito difícil porque somos mulheres num estado com alto grau de feminicídio. Então nossos desafios são grandes. Continuar produzindo, continuar desempenhando esse papel de levar a literatura até as escolas e o desafio que também é de sobreviver, as mulheres têm variados papéis sociais que se acumulam: trabalhadora, escritora, mãe, cuidadora de família, enfim, um acúmulo de papéis que têm um preço, muitas mulheres ficam sobrecarregadas, cansadas. Com nós escritoras não é diferente. Temos uma vida como a de outras mulheres, somos mulheres cidadãs como qualquer outra. A gente escreve mas a gente também está sujeita a toda essa violência, tivemos uma escritora que foi brutalmente assassinada que foi Lacy Ribeiro. As escritoras não estão fora dos contextos de violência, de exclusão. E o contexto é esse. É trazer mais mulheres, somar vozes e a gente se fortalecer para lutar contra tudo isso.

Sobre o evento de comemoração do aniversário, como foi construída a programação? 

A celebração dos nossos 70 anos foi construída com intuito de ser um espaço em que essa história de resistência e conquistas seja rememorada e que seja um espaço também de homenagem às escritoras. Vamos homenagear algumas mulheres notáveis que estão fazendo trabalhos importantes na defesa da mulher, tanto na academia como fora da academia, no âmbito científico, jurídico, político. E também faremos uma festa cultural. Depois do momento de cerimônia, teremos show musical com nossa diva e acadêmica Maria do Carmo Schneider, que vai cantar músicas de grandes escritoras mulheres brasileiras como Elis Regina, Nana Caymmi e várias outras cantoras. Após esse show teremos o momento de partir o bolo dos 70 anos, um coquetel e um momento de confraternização. Esse é o sentido dos 70 anos: celebrar, mas celebrar com luta, sem esquecer de todos os problemas que atingem as mulheres, além de fortalecer e estreitar vínculos.

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