Agricultores expõem desacertos da proibição de feiras livres no Estado

Feiras são mais seguras que mercados fechados, apontam. Linhares, Colatina e Baixo Guandu já suspenderam

Diferentemente do que têm feito algumas prefeituras do norte do Espírito Santo, os agricultores familiares argumentam que proibir a realização de feiras livres não é medida eficiente para conter o avanço do coronavírus.

"Não faz sentido fechar as feiras. Não podemos deixar de vender e não podemos deixar as pessoas sem alimentos frescos e orgânicos”, defende Selene Hammer Tesch, presidente da Amparo Familiar, uma das associações de agricultura orgânica certificada de Santa Maria de Jetibá, município da região central-serrana que é campeão de produção orgânica no Estado e um dos principais produtores do país.

Também de origem pomerana, Egnaldo Andreatta, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município e ex-secretário de Agricultura local, argumenta que as feiras livres, principalmente ao ar livre, são mais seguras que os grandes varejos em ambientes fechados, como super e hiper mercados. 

“O processo de entrar no supermercado, comprar, sair, o contato com tantas pessoas, carrinho, escada...fora o trajeto que os produtos percorreram pra chegar”, descreve, lembrando que os produtos passam por centrais de distribuição até serem expostos nas prateleiras. Na feira, ao contrário, é venda direta ao consumidor. Sistemas curtos, de produção e venda, são mais seguros, afirma. 

Além das questões imediatas, de queda na receita das famílias agricultoras e falta de acesso da população a alimentos saudáveis com preços de venda direta ao consumidor, há ainda as consequências futuras da “quebra do ciclo” de produção. 

Para Marcos Magalhães, especialista em agronegócio no Espírito Santo, a proibição das feiras livres por prefeituras como Linhares, Colatina e Baixo Guandu são “atitudes tomadas no calor do momento, que não vão levar à proteção de ninguém e podem inviabilizar a agricultura familiar capixaba”, pondera. “Se tiver que ter uma regra, tem que valer pra todo o varejo”, critica. 

“Agricultura não tem como estocar, não é indústria. E se não colher agora, não vai poder plantar”, diz Egnaldo. “Se interromper esse ciclo, pode faltar alimento”, completa Selene, que percebeu um aumento no número de pedidos de entrega em domicílio. “Triplicou essa semana”, estima, ressalvando que não se trata de uma solução de massa. “Muitos agricultores não estão preparados, não conhecem”, expõe. “Vai contra o que a Europa está fazendo”, compara, citando Itália e Áustria como exemplos. 

Da Áustria, os pomeranos capixabas receberam um documento oficial da Câmara de Agricultores da Alta Áustria, local visitado por uma comitiva de agricultores de Santa Maria de Jetibá, para conhecer a experiência de produção orgânica daquele país. Emitido pelo “Ministério Social da Saúde, Enfermagem e Proteção ao Consumidor”, segundo traduziu o gerente de Cultura e Turismo da Prefeitura de Santa Maria de Jetibá, Renato Strelow, o documento não faz restrições ao funcionamento de feiras livres. “Mercados têm limitação do número de pessoas que podem entrar de uma só vez, mas feiras continuam normalmente”, conta. “Santa Maria também vai manter a feira”, afirma.

O economista Arlindo Villaschi conta que, ao contrário de inviabilizar um setor tão importante da economia do Estado, os gestores municipais e estaduais deveriam se dedicar, a exemplo da China, Japão, Coreia, Vietnã e vários países da Europa, a encontrar alternativas para salvaguardar os pequenos agricultores, empresários e trabalhadores das chamadas microatividades, citando microcrédito como medida essencial, além de ações ainda mais ousadas e criativas, que facilite a realização de atividades de pouca aglomeração, mas que permitam que pessoas possam fornecer alimentos, bebidas e outras produções, mantendo a economia ativa. 

“Estamos na iminência de uma deterioração que pode ter longa duração e exige algum tipo de pensamento outro que não esse do dogma neoliberal, que diz que ‘o mercado responde’. O mercado não responde, nós sabemos disso”, aduz. 

No continente agora epicentro da pandemia, após a queda da curva de contaminações na China, além das medidas nacionais dos países, a União Europeia anunciou uma série de medidas complementares, relata Arlindo, que passam pelo apoio às micro e pequenas empresas visando manter os empregos e a geração de renda. “Obviamente em condições especiais. E com crédito subsidiado, facilidade do crédito”, diz. 

No Espírito Santo, instituições como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Banco de Desenvolvimento do Estado (Bandes) e Banestes “têm obrigação” de fomentar soluções semelhantes, “porque estão muito próximos da clientela, ou pelo menos deveriam estar”, salienta. 

“Está na hora de pensar fora da caixa. Quem tem que fazer isso são os instrumentos disponíveis no nível municipal e estadual. Quando não tem governo federal minimamente engajado, são as autoridades estaduais e municipais que têm que se mover”, convoca, em crítica às medidas (não) adotadas pelo governo Jair Bolsonaro.  

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