Aos 70 anos, Museu Mello Leitão luta por sua identidade, autonomia e memória

Herança de Augusto Ruschi, Museu está há cinco anos sob bombardeio do Instituto Nacional da Mata Atlântica

Fotos: Rogério Medeiros

Os 70 anos de fundação do Museu de Biologia Professor Mello Leitão (MBML) por Augusto Ruschi, completados nesta quarta-feira (26), estão marcados por uma luta intensa pela manutenção de sua identidade, integridade, autonomia e memória.

O fato é que, há cinco anos, o museu do Ruschi foi tragado pelo Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), entidade vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia instituído pela Lei nº 12.954, de 5 de fevereiro de 2014.

Em seu artigo 2º, a lei estabelece a transferência do Museu, do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) para a estrutura básica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), “bem como alterada a sua denominação para Instituto Nacional da Mata Atlântica”.

A partir desse primeiro ato legal, outras normativas foram publicadas, pavimentando um caminho de tentativa de destruição de uma das mais importantes heranças deixadas pelo Patrono da Ecologia do Brasil.

Ao roubar-lhe o próprio nome, o Instituto lhe tomou também todo o patrimônio, incluindo as coleções científicas primorosamente construídas por Ruschi ao longo da vida, que se dedicava ao Museu como quem cuida de um filho, inclusive financeiramente, colocando dinheiro recebido em outras funções como cientista para a manutenção e fortalecimento do MBML.

Foram 37 anos assim, até a sua morte, em 1986: o nome e a credibilidade do Museu sendo difundidos, a partir da pequena Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo, para todo o país e até o exterior.

A gestão atual do INMA, ao contrário, tem tocado um trabalho conservador, com resultados tímidos e aspirações absolutamente contrárias às de seu criador.

São muitos os atropelos e incoerências que caracterizam a recente história de criação do INMA, em contraste explícito com a trajetória brilhante do Museu Mello Leitão e de seu fundador, um dos mais renomados cientistas do país, filho mais ilustre da cidade dos colibris, que, aliás, adotou o pequeno pássaro como símbolo, em homenagem à dedicação de Ruschi aos beija-flores. Quando do seu falecimento, mais de 60% de todo o conhecimento científico existente sobre os colibris havia sido levantado pelo naturalista teresense.

Atropelos e incoerências que o filho caçula de Augusto Ruschi, Piero Angeli Ruschi, biólogo e também especialista em beija-flores, tem se dedicado a evidenciar, para resgatar a autonomia e a identidade do Museu.

Em sua coluna neste Século Diário, Piero tem destrinchado os bastidores sórdidos dos jogos políticos engendrados pelo grupo do atual diretor do INMA para tentar submeter a credibilidade do Museu do Ruschi aos seus interesses menores.

No artigo desta quarta-feira (26), dia do duplo aniversário, do Mello Leitão e de Santa Teresa, ele ousa dizer que parabeniza apenas os primeiros 64 anos do Museu, até 2013, pois a artilharia do INMA a partir de 2014 paralisou um processo histórico de crescimento do Mello Leitão.

“A última coisa que a obra iniciada por Augusto Ruschi precisava para crescer ainda mais era ser desmanchada por um Instituto. Acredito que o INMA também não precisava disso para ser criado”, opina.

“Há poucos anos o INMA se apoderou do Museu colocando-o em segundo plano, em seguida, revelou sua visão de futuro a desfigurar as obras do Patrono, agora fala, e até sonha, em nome do cientista. É o delírio de quem busca brilhar às custas de um legado que ora rebaixam e outrora saúdam, se escondendo cada vez mais sob a sombra do indestrutível Augusto Ruschi e seu destrutível museu”, critica.

Além de expor os ataques do INMA ao “filho” físico de Augusto Ruschi, Piero defende-se dos ataques que tem sofrido, como filho biológico do cientista, disposto a lutar para resgatar a identidade e a dignidade do Mello Leitão.

“Augusto Ruschi faz parte do meu DNA, dos meus documentos de identificação e do meu caráter. Me criei dentro do Museu Mello Leitão junto aos meus pais, brincando de cuidar dos animais na infância, e colaborando como pesquisador voluntário na graduação e na pós-graduação”, narra.

“Só deixei de ser pesquisador voluntário porque nunca renovaram meu vinculo desde 2016. Acho que demoraram até essa dada para perceber que jamais farei vista grossa para o desmanche da obra de meu pai; o que corrobora a dificuldade que têm em interpretar meu pai”, denuncia.

“Trata-se de um resgate cultural necessário para corrigir a grosseira criação do INMA que em seu embalo atropelou o Museu Mello Leitão desnecessariamente”, explica. “Será um benefício às gerações futuras e viventes, pois além de trazer de volta o museu criado por Augusto Ruschi, marcará um exemplo de justiça ao patrimônio de nossa cultura”, projeta.

 

Leia Também:

Comente Aqui
Confirme seu comentário no e-mail em até 48 horas para mantê-lo ativo.
Atenção caros leitores, comentários com link não serão mais aceitos. Evite ser bloqueado.
0 Comentários

Seja o primeiro a comentar.

Matérias Relacionadas

Rebio Sooretama é uma das 67 unidades de conservação que Bolsonaro quer reduzir

Medida contraria pleito de pesquisadores por uma estrada-parque no trecho da BR-101 que corta a Rebio

Reajuste 'fake' de Gilson Amaro é questionado por servidores municipais

Na tabela salarial proposta pelo prefeito de Santa Teresa, magistério é uma das classes mais prejudicadas

‘O legado de Augusto Ruschi vem sendo destruído dentro do museu que ele criou’

Após denúncias de Piero Ruschi, filho do cientista, Ales prepara audiência pública em Santa Teresa

Meio ambiente: poucos avanços, muitos retrocessos e estagnações

Em doze temas, ambientalistas relembram os fatos mais relevantes do ano no Espírito Santo